América Latina: o grande laboratório
Parte 1: Ontem
por Boaventura de Sousa Santos
Desde o fim do século XV, a América Latina (onde incluo o México, a América Central e as Caraíbas) serve de grande laboratório à experimentação social, política e económica do capitalismo-colonialismo. Até à independência dos EUA, a América do Norte pertenceu-lhe. À medida que os EUA emergiram como a nova potência capitalista do mundo, ocuparam o lugar antes ocupado pelo colonialismo europeu e converteram a América do Sul no seu laboratório.
Este laboratório tem dois departamentos principais: o da opressão e o da libertação. Ambos se mantiveram activos ao longo dos séculos, embora o destaque varie consoante os períodos históricos. Aqui se cometeram os primeiros genocídios da época moderna. Depois da independência dos EUA, aqui se travaram as grandes lutas contra o colonialismo europeu, de que sobressai a figura de Simão Bolívar. Aqui se manifestou pela primeira vez, sob formas diversas, a contradição entre independência política e continuidade do colonialismo para lá do fim do colonialismo histórico: colonialismo interno, neocolonialismo, a doutrina Monroe de 1823 até hoje. Basta pensar na distância entre a independência do Haiti, em 1804, e a de todos os outros países do continente durante a primeira metade do século XIX. Foi a experiência de alguns deles, as Honduras à cabeça, que justificou a invenção do conceito de “república das bananas” pelo escritor norte-americano O. Henry.
Em trágica parceria com África, aqui explodiu a primeira grande contradição entre os princípios supostamente universais do liberalismo europeu e as práticas dos países europeus fora da Europa. Basta lembrar as críticas do missionário Bartolomé de las Casas. Aqui ocorreu a primeira revolução da época moderna, a Revolução Mexicana de 1910-1920, de que resultaram a primeira grande reforma agrária, a palavra de ordem “la tierra es de quien la trabaja”, a garantia dos direitos dos trabalhadores e as primeiras nacionalizações de empresas multinacionais.
Mais perto da época contemporânea, aqui teve lugar a revolução que mais energia revolucionária desencadeou no mundo nas primeiras décadas da Guerra Fria, a Revolução Cubana. Um pequeno país, a 140 quilómetros dos EUA, quase dentro das “entranhas do monstro”, na expressão de José Martí, desafiava a potência imperial, prometia expandir-se ao resto do continente e dispunha-se a partilhar as suas forças com os movimentos anticolonialistas de outros continentes, de que Angola e a Namíbia são testemunho eloquente.
Fortalecidas pela esperança de justiça social que a Revolução Cubana alimentava, as forças progressistas democráticas de outros países do continente tentaram nos anos seguintes reformas estruturais, sobretudo nos direitos laborais e na propriedade da terra. Foi o caso do Brasil de João Goulart (1961-1964). Derrubou-o um golpe militar que a CIA orquestrou e a Casa Branca de Lyndon Johnson apadrinhou, com uma força naval de prontidão ao largo da costa brasileira. Com as ditaduras militares que se seguiriam, no Chile entre 1973 e 1990, na Argentina entre 1976 e 1983, consolidava-se o departamento de opressão do laboratório latino-americano.
Como o laboratório latino-americano tem dois departamentos, o reforço da opressão não desactivou a libertação. Foi também na América Latina que, dez anos depois da Revolução Cubana, se fez a primeira experiência de socialismo democrático do período da Guerra Fria. Refiro-me ao Chile de Salvador Allende, eleito presidente em 1970. Ao contrário da Revolução Cubana, essa experiência procurava atingir os objectivos socialistas por via democrática liberal e não se deixava intimidar pelo fracasso de tentativas semelhantes na Europa, sobretudo na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial. Terminou três anos depois com um golpe de Estado que Henry Kissinger e a CIA orquestraram. O 11 de Setembro latino-americano.
O departamento de opressão iniciava então no Chile a grande experiência da segunda metade do século XX, uma experiência que dura até hoje e que se estende agora a todo o mundo capitalista. Está em causa a gestão da relação contraditória entre capitalismo neoliberal e democracia. A experiência opera com duas hipóteses. A primeira, a incompatibilidade total entre neoliberalismo e democracia. A segunda, a compatibilidade dos dois por via do desarme de todos os instrumentos democráticos que constituam obstáculo ao avanço do neoliberalismo, avanço que se considera e se deseja imparável.
Em brevíssimo resumo, o neoliberalismo é a versão do capital que respondeu à mais recente crise da acumulação (recente até há pouco) com um punhado de receitas. O mercado como grande regulador social, não só das relações económicas, mas também das relações sociais e políticas. A privatização do sector empresarial do Estado. A desregulação da actividade económica, ou melhor, a sua re-regulação para converter o Estado em mais um instrumento de acumulação. A redução ao mínimo das políticas sociais mediante a transformação de bens públicos em negócios, com destaque para a saúde, a educação, o sistema de pensões, a produção científica e, em tempos recentes, a produção de serviços religiosos. De tudo isto decorre uma transferência imensa de rendimentos das classes populares e das classes médias (onde as haja) para diferentes sectores da classe dominante capitalista-colonialista. Com o neoliberalismo consagra-se a dualidade entre pobres e ricos, quando na verdade a dualidade opõe grandes maiorias empobrecidas ao enriquecimento de pequenas minorias.
A primeira hipótese dominou o período inicial desta experiência. Milton Friedman, pai das reformas económicas neoliberais do ditador chileno Augusto Pinochet, reconheceu numa entrevista a um jornal alemão, em 1994, que algumas das reformas desejáveis só em ditadura se poderiam aplicar. A segunda hipótese dominou a fase que se iniciou em 2009. Designo as duas fases assim: “Entre ditadura e democracia avançada ou revolução democrática” e “Entre democracia decente, ditamole ou guerra híbrida”.
Entre ditadura e democracia avançada ou revolução democrática
Convém ter presente que o laboratório latino-americano mantém sempre os dois departamentos e que a visibilidade de um e de outro oscila ao longo do tempo. Os golpes militares no Brasil em 1964, no Uruguai e no Chile em 1973 e na Argentina em 1976 pretendiam confirmar que o capitalismo é incompatível com a democracia. Esta suscita nas classes populares expectativas de melhoria de vida que não se concretizam sem pôr em causa a distribuição desigual da riqueza social, distribuição que a classe capitalista impõe para manter e consolidar o seu poder económico, social e político. A repressão, os assassínios, os desaparecimentos e o exílio não impediram o departamento de libertação de continuar a funcionar, tanto nas ideias como nas práticas.
No plano das ideias, a grande inovação teórica foi a teoria da dependência, proposta por intelectuais muitas vezes no exílio. Limito-me ao caso brasileiro. Na educação destaca-se o trabalho monumental de Paulo Freire. No domínio das ciências sociais, a teoria da dependência do primeiro Fernando Henrique Cardoso, de Theotônio dos Santos, de Vânia Bambirra e de Ruy Mauro Marini. Este último cunhou um conceito que continua em uso: subimperialismo. Com ele, Marini caracterizava o papel do Brasil da ditadura no contexto regional do imperialismo norte-americano.
No plano da luta política, a revolução sandinista da Nicarágua, entre 1979 e 1990, foi o processo de libertação que, depois da Revolução Cubana, mais entusiasmou o continente e o mundo progressistas. Processo inovador, com forte componente do catolicismo progressista ancorado na Teologia da Libertação. Depois de séculos de cumplicidade activa com o colonialismo, o capitalismo e a ditadura, a religião católica assumia os riscos que o Nazareno correu ao ser solidário com os pobres e os oprimidos. Foi também um processo revolucionário que decorreu sob forte intervenção imperialista, na forma dos Contras, os grupos armados que os EUA financiaram e treinaram para derrubar a revolução.
A oposição popular às ditaduras na Argentina, no Uruguai, no Brasil e no Chile conduziria ao regresso da democracia, respectivamente em 1983, 1985, 1985 e 1990. Emergia uma democracia enfraquecida, desvitaminada pelos anos de ditadura e, no caso chileno, nada apostada em alterar a devastação social que o neoliberalismo causara.
A partir do novo milénio, porém, estes países tentaram, sob várias formas, aprofundar a democracia na direcção social-democrática: menos injustiça social, maior intervenção do Estado na economia, políticas sociais mais robustas. Inspiravam-se na tradição europeia do pós-Segunda Guerra Mundial e no seu próprio passado, o peronismo, o getulismo. No Brasil, o processo decorreu nos mandatos do Partido dos Trabalhadores, sob a presidência de Lula da Silva (2003-2010, 2023-) e de Dilma Rousseff (2011-2016). Na Argentina, merece menção particular a presidência de Néstor Kirchner (2003-2007). No Uruguai, a de Pepe Mujica (2010-2015). No Chile, as de Michelle Bachelet (2006-2010, 2014-2018) e de Gabriel Boric (2022-2026). Não esqueçamos o Paraguai e o governo progressista do ex-bispo católico Fernando Lugo, presidente entre 2008 e 2012, nem as Honduras da presidência de Manuel Zelaya (2006-2009).
Alimento dos governos progressistas e animado pelos seus êxitos relativos, o movimento popular fortalece-se no continente a partir da última década do milénio, com destaque para o movimento indígena, que passa a actor político importante em países tão diferentes como a Bolívia, o Equador, a Colômbia, o México e o Chile. Em 1994, o grande levantamento zapatista no sul do México desperta o interesse e a simpatia de todo o mundo progressista e promete formas de activismo novas, para lá do velho dualismo entre reforma e revolução.
Em 2001 nasce em Porto Alegre o Fórum Social Mundial, de que fui activista dedicado durante quinze anos. Foi um movimento de movimentos sociais de todo o mundo, com sede na cidade brasileira porque aí tinham nascido as experiências mais inovadoras de democracia participativa à escala local, por iniciativa do Partido dos Trabalhadores, sob a liderança inspiradora de Olívio Dutra e Tarso Genro.
No bojo desta mobilização progressista polifacetada, a primeira década do milénio conheceu três grandes inovações políticas. Constituíram uma experimentação libertadora particularmente ambiciosa, pelo menos nos objectivos. Assumiram o nome de revolução ou equivalente para vincar a vontade de ruptura com a injustiça historicamente enraizada no continente. Refiro-me à revolução bolivariana na Venezuela, sob a liderança de Hugo Chávez (1999-2013), à revolução cidadã no Equador, sob a liderança de Rafael Correa (2007-2017), e ao Proceso de Cambio na Bolívia, liderado por Evo Morales (2006-2019), o primeiro presidente indígena da época moderna.
Foram processos muito distintos, mas todos se assumiram como ruptura radical com o passado recente. A instauração de assembleias constituintes simbolizou essa ruptura e deu origem a novas constituições que visavam uma autêntica refundação do Estado. Na Venezuela, a Constituição de 1999. No Equador, a de 2008. Na Bolívia, a de 2009. Para que a minha posição sobre elas fique clara, fui consultor tanto da Constituição do Equador como da da Bolívia nos temas da plurinacionalidade, dos direitos dos povos indígenas e do pluralismo jurídico.
O carácter transformador destas Constituições está patente no Artigo 1 de cada uma delas. Cito:
Constituição da Venezuela, Artigo 1: “A República Bolivariana da Venezuela é irrevogavelmente livre e independente e baseia o seu património moral e os seus valores de liberdade, igualdade, justiça e paz internacional na doutrina de Simón Bolívar, o Libertador. A independência, a liberdade, a soberania, a imunidade, a integridade territorial e a autodeterminação nacional são direitos inalienáveis da Nação”.
Constituição do Equador, Artigo 1: “O Equador é um Estado constitucional de direitos e justiça, social, democrático, soberano, independente, unitário, intercultural, plurinacional e laico. Está organizado sob a forma de república e é governado de forma descentralizada. A soberania reside no povo, cuja vontade é o fundamento da autoridade, e exerce-se através dos órgãos do poder público e das formas de participação directa previstas na Constituição. Os recursos naturais não renováveis do território do Estado pertencem ao seu património inalienável, irrenunciável e imprescritível”.
Constituição da Bolívia, Artigo 1: “A Bolívia constitui-se como um Estado unitário, social, de direito, plurinacional e comunitário, livre, independente, soberano, democrático, intercultural, descentralizado e dotado de autonomias. A Bolívia assenta na pluralidade e no pluralismo político, económico, jurídico, cultural e linguístico, no âmbito do processo de integração do país”.
O carácter jurídico-político destas Constituições era tão inovador que deu origem a uma nova concepção de constitucionalismo, conhecida como “novo constitucionalismo latino-americano”, “constitucionalismo transformador” ou “constitucionalismo do Sul”. Propunha-se uma nova organização do Estado, com mais órgãos de soberania para lá dos três tradicionais (legislativo, executivo e judicial), a radicalização da intervenção democrática para lá do cânone liberal e uma concepção forte de soberania, que incluía maior intervenção do Estado na economia e o controlo nacional dos recursos naturais. No Equador e na Bolívia, propunha-se ainda uma presença constitucional forte da identidade nacional indígena, com a adopção na Constituição, pela primeira vez na história latino-americana, de conceitos em língua não colonial, o quéchua e o aimará. A democracia de tradição liberal mantinha-se, mas radicalizava-se com a introdução de formas de democracia participativa e comunitária.
O carácter sociopolítico destes processos pode designar-se, com um conceito do cientista social boliviano René Zavaleta Mercado, como movimentos nacional-populares, de forte ênfase num nacionalismo progressista assente na soberania popular e no controlo nacional dos recursos naturais. A retórica política que os alimentava e as práticas em que se traduziam tornaram credível a recuperação e a reinvenção da memória histórica do socialismo, sob a forma do “socialismo do século XXI”.
A experimentação social e política no departamento de libertação do grande laboratório latino-americano não ocorreu apenas à escala dos países. Foi neste período que os países latino-americanos alcançaram a maior capacidade de se organizarem sem a tutela do grande irmão do Norte, ou seja, fora da Organização dos Estados Americanos, desde sempre dominada pelos EUA. Em boa medida por iniciativa de Hugo Chávez, criaram-se várias organizações de cooperação regional com uma lógica igualitária, assente na complementaridade, como não se vira antes no continente.
Assim surgiram a ALBA, a UNASUL, o Banco do Sul e a CELAC. A ALBA, Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, nasceu como bloco de cooperação política, social e económica da América Latina e das Caraíbas. Fidel Castro e Hugo Chávez fundaram-na em Havana, em 2004, como contraponto e alternativa ao projecto de tratado de comércio livre que os EUA queriam impor à América Latina (ALCA, Área de Livre Comércio das Américas), projecto que gerara forte contestação política e social no continente.
A UNASUL, União das Nações Sul-Americanas, nasceu em 2008 como bloco intergovernamental de integração regional destinado a unir os países da América do Sul por via da concertação política, de projectos sociais e da cooperação em infra-estruturas. O primeiro secretário-geral foi Néstor Kirchner.
O Banco do Sul surgiu em 2009 como organização financeira multilateral com o objectivo de promover a integração regional dos países sul-americanos e reduzir a dependência destes face às instituições multilaterais hegemónicas, o FMI e o Banco Mundial. Assinaram o acordo a Argentina, o Brasil, o Paraguai, o Uruguai, o Equador, a Bolívia e a Venezuela.
A CELAC, Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, nasceu em 2010 como organismo internacional regional que abrange a América Latina e as Caraíbas. A primeira reunião realizou-se em Caracas, em 2011.
Toda esta arquitectura institucional regional respondia à devastação social que o neoliberalismo causara nas décadas de 1980 e 1990, quando os EUA impuseram aos países do subcontinente, sem grandes restrições, a dominação financeira, o comércio desigual e o acesso aos seus recursos naturais. Era uma alternativa corajosa à Doutrina Monroe e à consequente transformação do subcontinente no “quintal” dos EUA. A força dessa alternativa residia na força dos Estados que a promoviam. Foi-se desvanecendo ao longo da segunda década do milénio pela convergência de três factores, que menciono sem ordem de prioridade: erros de liderança, quintas-colunas das classes dominantes inconformadas com a perda relativa de poder, agressão e cerco por parte do imperialismo norte-americano, cada vez mais apoiado, como lembrou Ruy Mauro Marini, no subimperialismo da União Europeia e de Israel.
Entre democracia decente, ditamole ou guerra híbrida
O departamento da opressão do grande laboratório latino-americano, a cargo do imperialismo norte-americano e dos seus cúmplices internos e externos, observava com preocupação os avanços do departamento de libertação. Durante a primeira década do milénio concentrara-se nos trágicos acontecimentos do seu 11 de Setembro, em 2001, e no que a eles se seguiu, sobretudo a guerra ilegal contra o Iraque em 2003. De algum modo, dera menos atenção ao que se passava no subcontinente. Alarmado com a energia progressista e autonomista que emergia no seu quintal, decidiu intensificar a ingerência tutelar. Essa ingerência, que dura até hoje, conheceu duas fases, correspondentes a dois processos complementares de desfiguração da democracia e de conversão desta num instrumento dócil dos interesses imperiais.
A primeira fase consiste em converter, mediante golpes brandos, democracias decentes em democracias truncadas, autoritárias. Não há ruptura violenta com os processos democráticos. Há um reforço dos componentes autoritários dos regimes democráticos, de modo a atingir, pelo menos em parte, os mesmos objectivos que a via ditatorial daria. Para caracterizar esta desfiguração da democracia recorro ao conceito de ditamole, do cientista político Guillermo O’Donnell, por contraposição a ditadura. De facto, dá-se a passagem de uma democracia decente a uma democracia indecente, autoritária, truncada. A desfiguração pode conhecer intensidades diferentes, consoante as “necessidades” da ingerência externa e dos seus aliados internos.
A segunda fase intensifica a democracia desfigurada com recurso a intervenções abertamente antidemocráticas e violentas, que podem incluir tentativas de assassínio, sanções económicas, embargos, confisco de reservas depositadas em bancos internacionais, expulsão da tecnologia digital. Inicia-se assim uma guerra híbrida entre democracia e ditadura. A ditadura entra devagar, gota a gota, até que um dia os cidadãos e as cidadãs acordam e dão-se conta de que já não vivem em democracia. O objectivo é que, no imediato, a grande maioria não dê importância à descoberta.
A ideia das duas fases apenas chama a atenção para a diferente ênfase nos meios utilizados. Na primeira fase pode recorrer-se excepcionalmente aos meios privilegiados na segunda. É o caso da Venezuela, onde desde cedo o presidente Hugo Chávez foi alvo de várias tentativas de assassínio e onde, até hoje, não estão plenamente esclarecidas as causas da sua morte. Cuba é caso particularmente trágico, porque a Revolução Cubana, por muitas razões, entre as quais a de estar demasiado perto das “entranhas do monstro”, não adoptou a viragem democrática liberal dos outros países do subcontinente. Há mais de sessenta anos que está sujeita à ingerência imperial mais violenta, a característica da segunda fase. Além de tentativas de invasão, embargos e sanções de toda a ordem, calcula-se que a CIA tenha feito 638 tentativas de assassínio de Fidel Castro.
A primeira fase (2009-2026)
A memória das atrocidades cometidas durante as ditaduras e a nova legitimidade que a democracia adquirira no subcontinente não permitiam o tradicional recurso ao golpe de Estado e à instauração de ditaduras com a participação activa de Forças Armadas treinadas na infame Escola das Américas, em Columbus, na Geórgia. Optou-se por recorrer aos instrumentos democráticos, manipulando-lhes o uso até obter os resultados desejados. Numa primeira fase, esses resultados consistiam em afastar os líderes das transformações progressistas e em intervir activamente nos processos eleitorais seguintes, de modo que das urnas saíssem governos “amigos dos EUA”.
Este tipo de intervenção recebeu o nome de “golpe brando”, por ocorrer sem violência militar e com fachada democrática, ora centrada nos tribunais, ora centrada nos parlamentos. Os golpes eram brandos apenas para quem os cometia. Para quem os sofria eram violentíssimos. Assim se sucederam o golpe nas Honduras, contra o presidente Manuel Zelaya (2009), no Paraguai, contra o presidente Fernando Lugo (2012), no Brasil, contra a presidente Dilma Rousseff (2016) e, ainda no Brasil, o golpe judicial destinado a decapitar as lideranças do Partido dos Trabalhadores e a inabilitar o candidato favorito às presidenciais de 2018, Lula da Silva. Este golpe brando, sem dúvida o de maior envergadura no continente, atendeu pelo nome de “Operação Lava Jato” e durou entre 2014 e 2021.
Há ainda a referir o golpe brando na Bolívia contra Evo Morales, em 2019, e as perseguições judiciais contra a ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e contra o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, que duram há mais de uma década.
Esta investida de golpes brandos causou danos políticos e sociais profundos aos países visados, bem como danos pessoais aos líderes que a sofreram. Limito-me ao caso do Brasil. Tais golpes levaram à eleição de um presidente de extrema-direita que, entre outros estragos, adoptou uma política negacionista durante a pandemia de Covid-19, a qual, segundo os cálculos da OMS e da Oxfam, causou entre 120 000 e 400 000 mortes evitáveis, caso se tivessem adoptado as medidas de controlo mundialmente aconselhadas. Seria difícil enumerar os danos pessoais. Basta lembrar que Lula da Silva, actual presidente, esteve indevidamente preso durante 580 dias.
Apesar do protagonismo do departamento da opressão neste período, o departamento da libertação não esteve inactivo. O grande laboratório latino-americano continuou igual a si próprio. Três exemplos bastam para ilustrar que a ingerência imperial nem sempre teve êxito total.
Brasil
No caso do Brasil, o golpe brando contra os governos do Partido dos Trabalhadores e sobretudo contra o seu líder histórico, Lula da Silva, não teve o êxito que os golpistas desejavam. A perseguição judicial contra Lula foi desmascarada, ele voltou a ser eleito presidente em 2022 e é hoje candidato à reeleição nas eleições de Outubro. Não se pode, contudo, dizer que o golpe brando falhou por inteiro. O Brasil a cuja presidência Lula regressou é um país diferente daquele que existia quando o prenderam. E a diferença é para pior. É um país muito mais conservador, com um parlamento minado pelas estratégias golpistas e de extrema-direita do período anterior, socialmente mais injusto e com muito menos margem de manobra para reverter a situação a favor das classes populares. Está muito mais entregue ao uso político conservador da religião, sobretudo evangélica neopentecostal, e tem uma população mais desinformada pelas redes sociais e mais vulnerável à política do ódio. O trabalho do departamento de opressão durante quase uma década não foi em vão para os interesses do imperialismo dos EUA e dos seus aliados internos.
O segundo e o terceiro exemplos referem-se a dois países que estiveram ausentes da onda progressista que percorreu o subcontinente durante a primeira década do milénio: o México e a Colômbia.
México
O México, tal como Cuba, tem passado revolucionário, embora bem mais remoto, e está muito perto das “entranhas do monstro”. Ao contrário de Cuba, é um país enorme, com imensos recursos naturais, riquíssima diversidade cultural, uma história pré-colonial impressionante, um desenvolvimento económico, social e cultural complexo e um sistema político que transitou pacificamente do partido revolucionário único para a pluralidade partidária. É também um país com níveis elevados de violência comum e política, nem sempre fácil de distinguir uma da outra, e tem talvez a experiência histórica mais diversa de relações com os EUA, feita de guerra e diplomacia, roubo de terras e tratado de comércio livre, dependência política da diáspora mexicana e deportação de emigrantes.
O México manteve-se ausente da onda progressista da primeira década do milénio. Em 2018, porém, Andrés Manuel López Obrador (AMLO) ganhou as eleições. Já teria ganho eleições presidenciais anteriores, mas a fraude eleitoral bloqueou durante algum tempo, com êxito, o projecto de mudança que anunciava, a 4T. A 4T é a quarta transformação, sendo as três primeiras a Guerra da Independência (1810-1821), a Guerra da Reforma (1858-1861) e a Revolução Mexicana (1910-1920). Como o próprio AMLO formulou, a 4T completaria de forma ordenada e pacífica os processos reformistas levados a cabo pelas transformações anteriores. As mudanças prometidas davam prioridade ao combate à corrupção, ao fortalecimento da democracia por meio de consultas populares, à liberdade de expressão e de religião, à revisão constitucional, à soberania energética e à melhoria das condições de vida das classes populares em matéria de salários, de direitos sociais, com especial atenção à saúde e à educação públicas, e de pensões.
Era um programa social-democrático que aliados e adversários apelidaram de esquerda, de centro-esquerda, de populista. A verdade é que, quando deixou a presidência em 2024, AMLO deixou um país melhor do que aquele que encontrara em 2018. O êxito da sua política está expresso no protagonismo político do MORENA, o partido, inicialmente movimento, que sempre o apoiou. Foi também esse êxito, combinado com o mérito próprio da candidata, que possibilitou a eleição de Claudia Sheinbaum, sua sucessora e continuadora da 4T.
Daqui se conclui que o governo progressista de AMLO floresceu, com dificuldades e ambiguidades incontornáveis, durante o período em que o imperialismo norte-americano voltara a dar atenção prioritária ao seu quintal. Do ponto de vista do império, a estratégia de ingerência da primeira fase não tivera pleno êxito.
Colômbia
A Colômbia foi o outro país importante do subcontinente ausente da onda progressista da primeira década do milénio. Tal como o México, é um país enorme, riquíssimo em recursos naturais, em biodiversidade e em diversidade cultural. Um país que, excepto num curto período (1953-1957), foi sempre governado por um regime democrático, mas onde, tal como no México, a violência comum e política sempre dominou a vida da cidadania. A violência política organizada teve aliás na Colômbia intensidade muito mais elevada do que no México, traduzida na emergência das guerrilhas que condicionaram a vida política e sobretudo a vida das comunidades rurais desde os finais da década de 1950 até hoje, apesar dos sucessivos processos de paz, o último dos quais em 2016. Nas últimas décadas juntou-se à violência da guerrilha, aparentemente para a combater, a violência dos paramilitares, grupos privados de extrema-direita que se designam grupos de autodefesa. A Colômbia é um dos países mais injustos do continente, onde 1% dos mais ricos controla 40% da riqueza nacional.
A Colômbia foi tradicionalmente o mais fiel aliado dos EUA no continente. Por essa razão, e pelo volume de ajuda financeira e militar, chegou a ser considerada o Israel da América Latina. Quando, em Junho de 2021, a Assembleia Geral da ONU votou uma resolução que exigia o fim do embargo económico dos EUA contra Cuba, a Colômbia não votou a favor. Absteve-se, ao lado do Brasil de Bolsonaro.
Em 2000, a Colômbia celebrou com os EUA um ambicioso acordo bilateral militar e diplomático, o Plan Colombia. O plano injectou milhares de milhões de dólares para modernizar as Forças Armadas colombianas, combater cartéis de droga e enfraquecer grupos insurgentes. Até 2015, terão sido investidos dez mil milhões de dólares nas Forças Armadas colombianas sem que se atingisse qualquer dos objectivos, salvo o reforço da força repressiva dessas Forças Armadas, orientada para combater inimigos internos e não inimigos externos, como era a sua vocação inicial. Recorreu-se ainda a medidas altamente problemáticas do ponto de vista da saúde humana e do ambiente, sobretudo a fumigação das plantações com herbicidas proibidos em muitos países, o glifosato entre eles.
O objectivo de desenvolvimento social anunciado no Plan Colombia não teve qualquer realização. Pelo contrário, o país tornou-se mais desigual, cresceram o mal-estar social, a precariedade e a falta de oportunidades, e o desemprego dos jovens agravou-se. Em Abril de 2021 rebentou a explosão popular nos bairros periféricos de Cali, com enorme participação juvenil. Apesar da forte repressão policial e militar, a revolta manteve-se durante meses e ocupou ruas e praças. Deu origem a formas novas de mobilização e de participação intergeracional, como as cozinhas comunitárias em que as cozinheiras eram, na maioria, as mães dos jovens manifestantes, e a ecologias de saberes, como as aulas que professores universitários identificados com a luta deram numa universidade popular criada para discutir temas de interesse dos revoltosos. Foi a Comuna de Cali, que ainda hoje se manifesta, entre outras coisas, na magnífica escultura colectiva de dez metros de altura intitulada “Resiste”.
Este movimento animou outras resistências noutras cidades do país e a acumulação de forças concretizou-se em 2022 com a eleição do primeiro presidente de esquerda da história colombiana, Gustavo Petro. Petro assumiu o compromisso de lutar pela “paz total”, melhorar as condições de vida das classes populares e defender a soberania e a autodeterminação do país, sobretudo no manejo dos vastíssimos recursos naturais. Desde o início revelou o que o mandato viria a confirmar: foi o chefe de Estado que no mundo contemporâneo mais eloquentemente elaborou a consciência ecológica que deve orientar as próximas gerações. Os discursos que fez nas Nações Unidas e noutros encontros internacionais ficarão na história do movimento ecológico.
A Colômbia de Petro foi mais um caso em que o imperialismo norte-americano se viu forçado a concluir que as estratégias brandas da primeira fase tinham falhado ou esgotado a utilidade.
(CONTINUA)

