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Da alegria de uns à tristeza de outros
Coimbra, em 12 de Julho de 2026
Hoje, os criadores da Nova FEUC festejam a acreditação da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra por uma empresa privada de acreditação, supostamente especializada em cursos de negócios, hoje, o velho que eu sou, reconheça-se ou ignore-se, fui um dos construtores da velha FEUC que desde dezembro de 2022, jaz enterrada no mesmo edifício, mas coberta pela ignorância que agora se produz em massa, ali, como em quase todo o lado, no mundo. Hoje, sinto-me triste, muito triste. E relembro o saudoso Joaquim Feio quando dizia a Álvaro Garrido, já quase no leito da morte, que não foi para isso que sacrificámos muito das nossas vidas.
Aqui vos deixo a expressão da minha tristeza :
Recebo um email da FEUC com a informação do Diretor sobre a acreditação da FEUC pela empresa EFMD (empresa de acreditação do ensino superior na área de negócios), onde se diz:
“É com muito gosto e orgulho que informo que recebi ontem o telefonema da Prof.ª Barbara Sporn, EFMD Programme Accreditation Director, confirmando a acreditação das Licenciaturas em Economia e em Gestão pela EFMD por três anos. A Prof.ª Barbara Sporn teceu largos elogios às nossas licenciaturas, e traçou um quadro muito otimista para o futuro na relação com a EFMD.
Queria agradecer, mais uma vez, a todo o Grupo de Trabalho o contributo e dedicação neste processo exigente e complexo, com uma palavra especial para o colega Tiago Sequeira por todo o empenho que colocou na coordenação do processo.
(,,,)
Gostaria ainda de manifestar reconhecimento à Dr.ª Dina Faim e à Dr.ª Marta Peça, que acompanharam de perto este percurso e cujo profissionalismo, disponibilidade e apoio foram fundamentais para o bom desenvolvimento dos trabalhos. Vamos continuar a nossa caminhada de excelência, e melhorar de encontro às recomendações que foram propostas pela EFMD.” Fim de citação
Depois vejo no portal da FEUC a seguinte informação:
“A certificação das licenciaturas em Economia e Gestão pela EFMD permite à FEUC integrar uma comunidade internacional de referência, garantindo que são cumpridos os mais elevados padrões de exigência, bem como o acesso a um fórum que potencia a inovação e que promove as melhores práticas. Além disso, reforça a visibilidade internacional da FEUC, potenciando novas parcerias internacionais.” (,,,)
“É com grande satisfação que recebemos este reconhecimento internacional da qualidade das licenciaturas em Economia e Gestão da FEUC. Esta acreditação confirma o compromisso da UC com uma formação de excelência, capaz de preparar profissionais altamente qualificados para responder aos desafios de um contexto global em permanente transformação”, afirma o Reitor da UC, Amílcar Falcão.
(…)
Durante o processo de acreditação conduzido pela EFMD, o painel de avaliadores destacou a implementação da unidade curricular FEUC Skills, que permite aos/às estudantes participar em atividades promovidas pela FEUC (nomeadamente, CEOtalks@FEUC, BusinessCases@FEUC, FEUC@Company), de acordo com os seus interesses, proporcionando uma oportunidade para desenvolver soft skills. O painel de avaliadores salientou também alguns pontos fortes das licenciaturas, que incluem, entre outros, o ensino baseado na investigação, a ligação às empresas, e o número crescente de unidades curriculares oferecidas em inglês.” Fim de citação
Quanto às razões que levaram à submissão dos programas da FEUC à EFMD isto expressa claramente a desvalorização da ideia de Estado, ou seja, este próprio pedido expressa a posição neoliberal da ideia do Ensino e tanto mais que qualquer curso superior em Portugal só pode funcionar depois da acreditação oficial da instituição oficial a A3ES . Esta posição da FEUC em solicitar a acreditação privada expressa esta ideologia neoliberal: a acreditação privada vale mais do que a acreditação oficial. E é esta lógica que está a ser predominante no próprio Governo. Como noticia o jornal Público,
“Alberto Amaral, que durante 12 anos liderou a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, contraria Fernando Alexandre e diz que a regulação do sistema compete ao Ministério. E alerta para o risco de quebra do “nível de exigência” ao abrir a acreditação de cursos e instituições a agências estrangeiras.
“Para o ex-presidente da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) se o sistema “está mal regulado essa é uma responsabilidade do ministro”. Acusando Fernando Alexandre de querer “intervir na designação dos membros do Conselho de Administração” (CA). Alberto Amaral lembra que a A3ES é um órgão independente e que a abertura da acreditação de cursos e instituições a agências estrangeiras põe em risco a qualidade”. Fim de citação
Num outro artigo do Público diz-se:
“Ensino superior: abertura de acreditação de novos cursos a agências estrangeiras “é um grande risco”
O ministro da Educação, Fernando Alexandre, anunciou na semana passada que, no âmbito da revisão do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES), os processos de avaliação e acreditação das instituições de ensino superior e dos seus cursos vão deixar de ser exclusivamente feitos pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), criada em 2007. Para o antigo presidente deste organismo de regulação, Alberto Amaral, essa abertura a agências estrangeiras é “um grande risco”, que pode comportar uma diminuição de exigência na aprovação de cursos e instituições, enquanto o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) encara esta mudança como uma “necessidade” no “contexto de internacionalização crescente do ensino superior”. Fim de citação
E já agora: quanto é que terá custado à FEUC o galão com que terá sido presenteada nesta creditação e quanto é que custa igualmente a manutenção anual desse mesmo galão?
E, por analogia relembro aqui o que aconteceu com a crise de subprimes nos EUA em que havia agências de rating para tudo e mais alguma coisa, sendo todas elas altamente creditadas e o que se sabe é que elas foram uma peça-chave na criação e no rebentar dessa crise monumental. Da audição do Congresso presidida por um tipo de homem que se tem cada vez mais dificuldade em encontrar, descobriu-se a “seriedade” com que tudo era feito. Duas referências:
a) No relatório do Senado americano produzido pela audição da Comissão de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos Representantes sob o tema Credit Rating Agencies and the Financial Crisis, presidida por Henry Waxman, em 22 de Outubro de 2008 foi apresentado um email de um analista da S&P onde se dizia que um produto financeiro “poderia ser estruturado por vacas, e nós dar-lhe-íamos notação” (“it could be structured by cows, and we would rate it”) [1].
b) Ainda da mesma S&P um outro analista escreveu que as “rating agencies continue to create an ever bigger monster, the CDO market. Let’s hope we are all wealthy and retired by the time this house of cards falters.”
Isto dito na língua de Camões é: “as agências de notação continuam a criar um monstro cada vez maior, o mercado de CDOs. Esperemos que estejamos todos ricos e reformados quando este castelo de cartas desabar”.
O curioso desta história é que a estas mesmas agências que foram altamente responsáveis pela crise criada foi-lhes atribuído pelos mercados e pelas Instituições lacaias desses mesmos mercados, o papel de controlarem os Estados que tinham de responder à crise, o que era feito pelas notações de crédito da dívida pública. Eu lembro o caso espanhol em que se baixou a notação de crédito de Espanha porque o crescimento antecipado pela agência de rating, creio ter sido a S&P, baixou de uma décima! Os juros subiram, o serviço da divida aumentou, a capacidade de investimento público baixou e numa altura em que o investimento privado estava em baixa e logicamente o crescimento económico baixou. Logicamente assim!!!
E os políticos lacaios são os mesmos hoje, a filosofia é a mesma, a lógica é a mesma, o primado à soberania dos mercados, no caso aqui a soberania da acreditação privada paga é tomada como superior à acreditação pública, quando o responsável último pelo ensino praticado é o Governo. O Estado não conta, e se conta não interessa, é o que se pode pensar disto tudo.
Valida-se até bosta de vaca, é o que escreveram os analistas altamente especializados da S&P, e o que é que o EFMD valida? São claros, valida:
- Os cursos em inglês quando estamos em Portugal e usamos a língua de Camões. Dito de forma simples: os professores não terão um bom inglês e os alunos muito menos. Mas para isso sugiro que se leia Jorge Bacelar Gouveia sobre o tema, onde coloca em ridículo um curso de Mestrado em direito, dado em inglês para estudantes que são portugueses! Tudo dito quanto à mistificação!
- Valida-se uma disciplina dita Soft Skills, ou seja uma cadeira feita de nadas.
- Valida-se uma disciplina que vale por duas (12 créditos) chamada de *Projeto Integrador “ que integra as aprendizagens que não foram adquiridas nem ensinadas!
- Valida-se a ligação às empresas. Não entendo o que é que isto quer dizer no contexto do ensino ali praticado, de licenciaturas efetivamente de dois anos, dadas as disciplinas de coisa nenhuma a que se adiciona uma ideia brilhante, brilhantíssima em estupidez: a existência no interior de cada licenciatura de leque de disciplinas de uma outra licenciatura dito menor e por menor, entende-se conforme se diz no portal da FEUC: “Um Menor é composto por um conjunto de unidades curriculares de uma outra Licenciatura, que permitem alargar as competências adquiridas, reforçando a preparação em áreas específicas”.
Sobre os pontos 2) e 3) escrevi em 2022, ainda a Contra-Reforma neoliberal de Álvaro Garrido estava apenas no papel, uma exposição em que antecipava o fiasco destas disciplinas, disciplinas sem programa!
Sobre a questão da acreditação agora avulsa, relembro a crise dita de suprimes , relembro os analistas de S&P e olho para a justificação da acreditação apresentada na FEUC. Perante tudo isto respondi ao diretor da FEUC, dizendo:
“Caros Professores da FEUC, escola onde trabalhei perto de 40 anos
A história repete-se primeiro como tragédia depois como farsa terá dito Marx na sequência de Hegel, mas prefiro a ideia de Hegel sobre a filosofia da História que nos diz que perante um evento assumido como tragédia, haverá uma repetição desse evento que assume o papel de ratificação do primeiro evento.
No caso em presença temos um evento, em 2022, com a revogação das licenciaturas até aí em vigor e a criação de novas licenciaturas em sua substituição, em suma, a criação da Nova FEUC. Em 2026 temos um segundo evento a ratificar o primeiro, a acreditação pela EFMD.
Ratifica-se assim a transformação da licenciatura em Economia numa licenciatura em gestão com menos disciplinas de gestão, ou seja, transformou-se a licenciatura em Economia numa licenciatura de gestão de segunda classe. E aqui é mais salutar utilizar a expressão de Marx, isto é uma farsa. E o acontecimento de que todos se rejubilam agora, é para mim o símbolo da morte do pensamento crítico e por este entendemos “um pensamento reflexivo e fundamentado, orientado para decidir no que acreditar ou no que fazer”.
Com esta minha opinião, estou em contra corrente com o que se passa na FEUC, naturalmente assim, quando eu comungo da opinião de Owen Yingling da UCLA de que as universidades são hoje o espaço onde se leva a cabo a operação de criação em grande escala de zumbies como se explica no artigo A Grande Zumbificação (original aqui) e podemos sair da UCLA e passar para Harvard, Stanford ou outra qualquer das Universidades de grande nível para o confirmar.
Lamento ter razões para discordar da opinião do diretor da FEUC expressa na nota por ele emitida e por mim recebida, onde ele se manifesta com imensa alegria por esta ratificação a que eu chamo farsa.
Discordar é um direito da Democracia, um direito de que não abdico, um direito que exerço e de que esta curta nota é um exemplo.” Fim de citação
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[1] Para além do relatório referido sugiro sinceramente ao leitor que veja a audição de Alan Greenspan no Congresso dirigida por Henry Waxman. Trata-se de uma audição memorável. no Senado, feita no dia seguinte à audição acima referida (ver aqui). Esta audição foi feita no dia seguinte à audição acima citada onde se falou de bosta de vaca. Da audição a Greenspan, um dos momentos mais simbólicos é o seguinte:
“Senador Waxman: Dr. Greenspan, I want to start with you. You were the longest serving chairman of the Federal Reserve in history, and during this period of time, you were, perhaps, the leading proponent of deregulation of our financial markets. Certainly you were the most influential voice for deregulation. You have been a staunch advocate for letting markets regulate themselves, (…)
You also said, ‘‘those of us who have looked to the self-interest of lending institutions to protect shareholders’ equity, myself especially, are in a ‘‘state of shock, disbelief.’’ Now that sounds to me like you are saying that those who trusted the market to regulate itself, yourself included, made a serious mistake (…)
Well, where did you make a mistake then?
Governador Alan Greenspan: “I made a mistake in presuming that the self-interest of organizations, specifically banks and others, were such is that they were best capable of protecting their own shareholders and their equity in the firms. (…)
So the problem here is something which looked to be a very solid edifice, and, indeed, a critical pillar to market competition and free markets, did break down. And I think that, as I said, shocked me. I still do not fully understand why it happened and, obviously, to the extent that I figure out where it happened and why, I will change my views. If the facts change, I will change” Fim de citação. Vide pags. 44-45 da audição.


