Nota de editor:
Este texto é o segundo de uma mini-série composta por cinco textos onde é abordada a crise que atravessa as universidades e o sistema de ensino mais em geral, de que o caos criado pelo ministro da educação em torno da avaliação dos exames nacionais do secundário é tão só mais um sintoma.
O último texto da série é uma troca de pontos de vista entre o autor da mini-série e o robô de conversação Claude Sonnet 4.6.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
4 min de leitura
Porque é que os universitários não querem ir às aulas?
Deserção nas salas de aula: porque é que um universitário não quer ir às aulas — isto é, à universidade que «livremente» escolheu?
Publicado por
em 28 de maio de 2026 (original aqui)
Os sábios professores não sabem nem conseguem explicar, mas o estudante, sim. É a síndrome da sala de aula vazia.
No entanto, este não é o único problema. Os estudantes, além de não quererem ir às aulas, não votam nas eleições universitárias. E isto é algo muito mais revelador para o nosso presente e muito inquietante para a geração dos seus pais e avós, convertidos hoje em espectadores de um mundo, juvenil, que lhes escapa das mãos.
Apenas 13% dos universitários de Vigo foram votar no passado dia 6 de maio nas eleições do reitor. Dito de outro modo, 7 em cada 10 alunos — na linguagem dos seus pais — “não ligaram” para votar. Muitos deles nem sequer sabiam que havia eleições.
Factos como estes revelam o absoluto desinteresse dos atuais universitários pela democracia. A mais de um ouvimo-los dizer que “votar é obedecer”. Se a isto acrescentarmos o crescente absentismo discente, ou seja, que os alunos não vão às aulas, o futuro revela-se incompatível com o passado da geração que desenhou a democracia. E a sua universidade.
Estudar na universidade de costas voltadas para as salas de aula e para as urnas é algo que a geração dos boomers [nascidos entre 1946 e 1964, pós 2ª guerra mundial] jamais compreenderá. No entanto, esta é a realidade do século XXI. Os seus netos não têm interesse pela democracia e não consideram útil assistir às aulas. Surpreendente? Não.
A explicação é muito simples: os jovens nascidos nos últimos anos do século passado não veem hoje soluções para os seus problemas pessoais e profissionais nem na democracia nem na universidade. Se isso inquieta os boomers, perguntem-lhes porquê. Mas perguntem-lhes, sobretudo, o que é mais surpreendente: a perplexidade, ou o alheamento, dos seus pais e avós, ou as adversidades de um mundo que os mais velhos lhes destruíram?
Os boomers desenharam um regime político e um sistema educativo — isto é, uma democracia e uma universidade — que, duas gerações depois, não convencem (quase) ninguém.
O absentismo dos estudantes universitários não é a causa do problema, mas sim a sua consequência, porque o verdadeiro problema é a degradação institucional da universidade contemporânea. E essa degradação é obra dos boomers. Os jovens já encontraram a universidade completamente destruída.
A alma mater, idealista e endogâmica, deixou de exigir intelectualmente aos estudantes quase tudo, porque converteu o ensino em pedagogia e a ciência em ideologia, e quando uma instituição deixa de exigir conhecimentos úteis, perde autoridade e perde os seus estudantes, que procuram a sua segurança vital e profissional noutros lugares e instituições.
O aluno não assiste às aulas porque sabe que, em muitos casos, pode titular-se igualmente, dado que a ausência não tem consequências reais quando o conteúdo do que se expõe na sala de aula é totalmente dispensável. O sucesso do ensino universitário foi sempre um autodidatismo encoberto.
A universidade de Bolonha já não seleciona nem forma minorias intelectuais, antes administra recursos humanos para os colocar ao serviço do mercado, não do Estado. A globalização exige trabalhadores muito submissos e consumidores pouco ou nada exigentes, tudo isso muito afastado dos serviços públicos estatais.
Não se fala em saber, mas em saber ensinar, tudo segundo “métodos didáticos”, “dinâmicas participativas”, “emotividade educativa” e demais palavras inventadas para a ocasião, a fim de temperar o “ecossistema universitário” com mil tolices, cada qual mais apetitosa e vazia do que a outra. Confesso que a história do “ecossistema” me toca a alma.
O segredo do sucesso de quem não domina uma matéria que se vê obrigado a explicar baseia-se em dizer, de quem a domina, que não sabe ensiná-la. Assim, o professor deixa de ser uma autoridade científica para se tornar uma figura administrativa encarregada de entreter o pessoal, facilitar as aprovações e obedecer a todo ser vivente, sobretudo se não tiver razão, mas tiver poder e consenso.
Observo também, como consequência de tudo isso, que muitos estudantes não vão às aulas porque não reconhecem no professor um conhecimento superior ao seu próprio. Em muitos casos, as aulas são uma recitação de apontamentos, notas e “coisas” que estão mais claras e acessíveis na internet, cuja oferta na elaboração de resumos e materiais didáticos se sofisticou de maneira superlativa nos últimos anos.
E acrescentaria algo mais direto: grande parte da universidade atual teme mais a reprovação do que a ignorância, ou seja, prefere reduzir o nível académico a assumir os conflitos decorrentes do insucesso estudantil: reprovações, reclamações e abandono. A universidade teme sobretudo, por razões estatísticas, o fracasso do estudante, e não quer expor publicamente as suas vergonhas, isto é, ter uma taxa de abandono superior ao número de diplomados.
A aprovação falsa é uma forma de tornar invisível a frustração académica, que denuncia a impotência de uma universidade mais atenta ao idealismo democrático do que à realidade dos serviços públicos — ou seja, do que atenta às verdadeiras necessidades da política, do mercado e do património cultural de um Estado.
Em suma, a minha resposta e conclusão perante a pergunta que dá título a este artigo não é psicológica nem geracional («os jovens não se querem esforçar»), mas institucional: a universidade perde interesse e frequência porque renunciou a exigir e a oferecer conhecimentos úteis, menosprezou a autoridade académica e substituiu a ciência pela ideologia. E para satisfazer as ideologias das pessoas, as instituições são dispensáveis.
Deserção nas salas de aula? A solução é muito clara e está nas tuas mãos: dá conhecimentos úteis aos teus estudantes e não terás lugar na sala de aula para todos eles.
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O autor: Jesús G. Maestro [1967 – ] é um professor catedrático espanhol especializado na Teoría de la Literatura y Literatura Comparada na Universidade de Vigo, que trabalhou como teórico e crítico da literatura e como editor e tradutor. Jesús González Maestro é um académico, teórico literário e professor espanhol de Literatura Comparada na Universidade de Vigo. A sua obra sobre literatura é considerada uma das mais prolíficas do século XXI. Licenciou-se na Universidade de Oviedo entre 1985 e 1990, tendo defendido a sua tese de doutoramento em 1993. É autor de três obras de referência: Crítica de la razón literaria (2017-2025, 25 vols.), Ensayo sobre el fracaso histórico de la democracia en el siglo XXI (2024) e Una filosofía para sobrevivir en el siglo XXI (2025). Recentemente publicou El fracaso de la felicidad (2026) e Fronteras invisibles. La nueva desigualdad en la era de la globalización (2026).



