A Calúnia de Apeles e o elogio da leitura – por Paulo Cosín

A Calúnia de Apeles e o elogio da leitura

por Paulo Cosín

Quem visitar a Galeria Uffizi ficará certamente surpreendido com a diferença entre duas pinturas de Botticelli: A Primavera e A Calúnia de Apeles[1]. A primeira é radiante. De uma beleza celestial, A Primavera quase flutua no ar, com os pés a roçarem ligeiramente a relva de um bosque frondoso em flor, onde dançam as Três Graças. Em contrapartida, a segunda é terrível: a Inveja, acompanhada pela Fraude e pela Malícia, envoltas em vestes sombrias, aprovam a Calúnia, que, agarrando os cabelos da vítima, arrasta pelo chão o Apeles seminu, enquanto a Ignorância e a Suspeita sussurram palavras venenosas ao ouvido do rei. À distância desse conjunto maléfico, solitária, apontando para a justiça celestial, encontra-se a Verdade, nua, porque não tem nada a esconder.

Retirei este fragmento de um artigo publicado recentemente em defesa de uma pessoa caluniada[2] e, com esta descrição do quadro alegórico de A calúnia de Apeles  proponho-vos analisar todas as emoções que entram em ação quando alguém difama ou calunia.

Devemos começar a descrever esta obra de arte pela direita e terminar pela esquerda, embora leiamos da esquerda para a direita — o que se reflete na publicidade, nas capas dos livros e na arte —, mas esta direção de leitura nestas obras do Renascimento ainda não se tinha estabelecido dessa forma[3].

Luciano descreve que, à direita, se encontra o rei Ptolomeu I, que tem orelhas de burro, e isto podemos compreendê-lo com o que aconteceu ao rei Midas; vais perceber porquê. De certeza que se lembram do conto do rei Midas, tão avarento; eu não me esqueço de quando o li em criança, lembro-me da ilustração em que ele aparecia com os olhos abertos de ganância e, em primeiro plano, os dedos compridos das suas mãos avarentas saíam do livro. E que belo castigo, pensei eu, que tudo o que ele tocasse se transformasse em ouro; isso sim é justiça, disse a mim mesmo. Lembro-me disso como se fosse hoje, e devia ter menos de 10 anos! Conseguiu que a simples ideia da ganância me aterrorizasse, mas sobre a ambição não há nenhum mito punitivo? A ambição de um objectivo desafiante sempre me pareceu interessante. Mas voltemos a Midas: não sabia que ele tinha orelhas de burro; disso só tomei conhecimento com o mito de Apolo e Marsias.

Ovídio[4], em As Metamorfoses, conta-nos o duelo musical entre Apolo, deus da música, e Marsias[5], um sátiro que encontra no chão um aulos que a sua inventora, Atena, lá tinha deixado. Trata-se de um instrumento de sopro da Grécia Antiga semelhante a um oboé duplo. O que se passa é que Marsias aprende a tocá-lo e fá-lo muito bem. Isto não agrada a Apolo, a quem acontece o mesmo que a alguém que certamente nos vem à memória com a seguinte cena[6]:

Diz-me apenas uma coisa: quem é a mais bela deste reino?

—Vós sois belíssima, Majestade, mas, ah, existe outra ainda mais bela. Uma criatura que, mesmo coberta de trapos, é mais bonita do que uma estrela; nem mesmo vós superais a sua beleza.

—Desgraçada, quem é ela? Diz-me já o seu nome.

—Os seus lábios são como carmim, o cabelo negro como ébano e a pele branca como a neve.

—Arg! Branca de Neve

A única maneira de continuar a ser a mais bonita do reino era eliminá-la. O mesmo padrão de todos os narcisistas com poder e, portanto, do comportamento de Apolo, que organiza um concurso musical com Marsias, tendo as musas como júri. Todos bajulam Apolo (soa familiar?) e dizem-lhe que é o melhor; ah, não! Nem todos; Midas inclina-se a favor de Marsias.

Os deuses, quando contrariados, são terríveis[7] e é melhor que não vejam a sua vaidade ameaçada. Lembras-nos das feridas do narcisismo humano? Pois não há comparação se o que é ferido é o dos deuses do Olimpo, liderados por Zeus.

A primeira coisa que Apolo fez foi alterar as regras do concurso, como se se tratasse de um novo decreto real que lhe pudesse trazer benefício. Assim, introduziu a obrigatoriedade de cantar enquanto se tocava o instrumento, algo que ele próprio conseguia fazer, já que tocava a lira, enquanto Marsias tinha dificuldade em soprar e cantar ao mesmo tempo. Derrotado, Marsias seria pendurado numa árvore e esfolado vivo. O que acontece quando alguém vaidoso e poderoso se apercebe de que alguém faz algo melhor do que ele? Vai aproveitar-se dele ou esfolá-lo vivo. Esta ideia foi retratada com grande precisão por José de Ribera, que, em 1637, pintou o quadro intitulado «Apolo e Marsias», no qual Marsias, pendurado de cabeça para baixo num pinheiro, olha para nós implorando que intervenhamos em seu auxílio, enquanto Apolo o está a esfolar, ao mesmo tempo que nos mostra o seu sadismo, pois vê-se que ele está a desfrutar, sereno e satisfeito com o seu triunfo.

Por isso, alguém que for muito bom em alguma coisa tem de ter cuidado se se e te deparar com um narcisista! Deve lembrar-se do mito de Apolo e Marsias.

O castigo que o rei Midas recebeu foi um pouco mais ridículo; aconteceu-lhe o mesmo que ao Pinóquio, pois acabou com orelhas de burro. Ou seja, o único que dizia a verdade acabou ridicularizado com tal adorno na cabeça! Assim, todos pensariam que ele era um ignorante. Bem, o que se passa é que, no quadro de Botticelli, o rei tem essas orelhas[8] tal como o rei Midas.

Voltando novamente ao quadro A calúnia de Apeles, vemos que duas figuras muito belas, que são a ignorância e a suposição, sussurram ao ouvido do rei, essas preciosas orelhas de burro. Em A Semente da Discórdia, bastava a Perfectus Detritus semear a dúvida, introduzir suposições falsas para gerar o caos na aldeia dos gauleses Astérix e Obélix, entre os romanos e entre os piratas, que acabaram por afundar o próprio navio! Quebra-se a confiança, o principal laço da verdadeira amizade. Ser capaz de formular suposições, de estabelecer hipóteses, por si só, reflecte uma excelente capacidade mental, mas o seu uso para a calúnia é devastador para um rei ignorante.

Na ilustração, o rei olha para baixo, para os seus pés; parece que apenas ouve e não repara na Inveja, que, com a mão esquerda, apontada para os seus olhos, o aponta, tentando chamar a sua atenção. É a Inveja que dinamiza a cena, é o motor que levou Antífilo a denunciar Apeles, Apolo a esfolar Marsias, e que aqui agarra a Calúnia pelo pulso.

O que é o ciúme senão inveja?

A inveja está representada no quadro como um homem pálido, não é bonito, tem olhos penetrantes, anda descalço, com um hábito semelhante ao de um monge, com vestes castanhas escuras esfarrapadas; não se preocupa com a sua aparência, mas sim com o facto de o rei reparar na bela Calúnia, a quem puxa na direção do monarca com a mão direita.

Duas belas donzelas penteiam e embelezam a Calúnia: são a Malícia[9], vestida de vermelho, e o Engano, vestida de ocre. O escritor grego Luciano, aquele que descreve o quadro de Apeles, conta-nos que ambas as donzelas estão em movimento, adornando a Calúnia à medida que a inveja a leva na direção do rei, e procuram, até ao último momento, que ela esteja o mais sedutora possível aos seus olhos, embora ele não olhe para ela, pois continua atento a ouvir a Ignorância e a Suposição, que talvez sejam suficientes para aceitar a calúnia que a Inveja lhe traz e, ignorante, não é capaz de perceber nem a malícia, nem o engano.

A Calúnia é representada como uma bela mulher, vestida de azul, sensual, atraente, sexual. Segura uma tocha acesa na mão esquerda, que a Inveja lhe atira, e com a direita arrasta Apeles pelos cabelos, que, seminu, com as mãos juntas em atitude de súplica, clama aos deuses do céu como testemunhas da sua inocência, enquanto o seu rosto mostra raiva, com a testa franzida pela injustiça.

À esquerda do quadro, equilibrando a cena, encontram-se mais duas figuras: uma mulher mais velha com um hábito preto, de cabelo solto e roupa também esfarrapada, que representa o Arrependimento, que olha com lágrimas nos olhos para trás, para o passado, observando a outra mulher, nua[10] e bela, que é a Verdade, que olha e aponta para o céu.

O arrependimento é doloroso, daí o luto; implica admitir a verdade de um ato cometido contra outro ser, tê-lo caluniado, difamado e condenado sem motivos, olhando para trás, para o passado, para a última figura da cena.

As cenas de dor estão muito presentes na nossa vida; as de arrependimento, talvez não tanto, porque implicam enfrentar essa dor que aqui nos é mostrada. Com as leituras, aprendemos a antecipar-nos; sem dúvida que a leitura condiciona os nossos actos, diminui a nossa ignorância, que já não nos pode sussurrar ao ouvido: «de burro?», não, de burro não!, fortalece a confiança da amizade perante as falsas suposições, ou, pelo contrário, ajuda-nos a saber como as confirmar; enfim, é assim que vamos conhecendo a nossa condição humana: o narcisismo, a inveja, os medos. No quadro «Olhar para a verdade», isso leva-nos a um arrependimento doloroso; sair daí implica reinventarmo-nos, tal como os jovens do centro de detenção de menores para quem a leitura, segundo diziam, lhes permitia imaginar-se de outra forma, fora dos muros daquela prisão. Estas são apenas algumas razões, mas creio que sejam suficientes para continuarmos a apostar neste cavalo vencedor: a leitura enriquece-nos.

NOTAS

[1] https://poesia-pintura.blogspot.com/2012/06/la-calumnia-de-apeles-de-santiago-elso.html
Não sabemos por que razão o fez; talvez quisesse assim imitar o mestre, já que também ele foi alvo de críticas, como as do cruel Savonarola, um frade irascível que, do seu púlpito, condenava a sensualidade que emanava das suas telas.
[2] Marilena Chaui. Professora de Filosofia. Universidade de São Paulo, Brasil. https://aviagemdosargonautas.net/2025/08/23/contra-a-calunia-em-defesa-de-boaventura-de-sousa-santos-por-marinela-chaui/
[3] Descrição do quadro na Biblioteca do Congresso Nacional em
https://youtu.be/yam-0Zz0_Nk?si=N7RmUhNLYnEgxb-8, onde se explica que se trata de uma obra renascentista alegórica — cada personagem representa um conceito —, não muito conhecida na obra de Botticelli.
[4] Existem outras versões na Wikipédia, segundo as quais: Na versão do mito relatada por Higno Apolo não mata pessoalmente o seu rival, mas amarra-o a uma árvore e encarrega um scythia de o torturar, o qual, após esfolá-lo membro a membro, entrega os seus restos mortais a um discípulo de Marsias chamado Olimpo.
[5] https://es.wikipedia.org/wiki/Apolo_y_Marsias
[6] Cena do espelho da Disney https://youtu.be/PaBm6W2E7bw?si=2_Y40jndoest-tie
[7] https://es.wikipedia.org/wiki/Apolo_y_Marsias
[8] No «Juízo Final» de Miguel Ângelo, que se encontra na Capela Sistina, em baixo à direita, há um juiz do inferno que também tem orelhas de burro.
[9] Noutros contextos, traição, negligência.
[10] A «Verdade Nua» é semelhante à Vénus do quadro «O Nascimento de Vénus», de Botticelli. Está inspirada numa escultura romana, cópia de uma grega, em que a mulher cobre os seios e as partes íntimas com as mãos, ocultando a nudez e chamando a atenção do espectador precisamente onde se cobre. Chama-se «postura da Vénus pudica».

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Paulo Cosín é director editorial e proprietário da Edições Morata. Criou o podcast «LEER TE DA MÁS» e é também autor de Para que ler. Promover a leitura entre jovens e adolescentes (Morata, 2022), A emoção de ler. Ler as emoções (Morata, 2023), Artilectura. A arte da leitura para a transformação social (2025) e Leer te da más (2026). Participa como especialista no plano de promoção da leitura 2026-2030 do Ministério da Cultura de Espanha e ministra palestras e conferências relacionadas com a importância da leitura como ferramenta de emancipação pessoal e social.

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