ALFACINHAS E BEEFS! por Carlos Pereira Martins

ALFACINHAS E BEEFS!

por Carlos Pereira Martins

Houve um tempo, não assim tão distante, em que Lisboa era habitada sobretudo por lisboetas. Parece uma afirmação tão simples que hoje quase soa a descoberta arqueológica. A cidade pertencia a quem nela nascia, trabalhava, envelhecia, resmungava contra o trânsito e conhecia, o vendedor diário de jornais,  a senhora da mercearia, o homem do café do bairro e o vizinho que estacionava sempre um pouco mais próximo do que o bom senso aconselhava.

Depois chegou o turismo. E chegou, convenhamos, com a delicadeza de uma invasão que paga em cartão contactless.

Não me interpretem mal: o turista não é o inimigo. O inimigo, se inimigo houver, é aquela nossa incapacidade muito nacional de encontrar equilíbrio entre receber bem quem chega e permitir que continue a viver na cidade quem cá está. Portugal, como se sabe, recebe as pessoas com enorme simpatia. O problema começa quando, depois de recebermos o visitante, lhe entregamos a chave do prédio, a renda do apartamento, a mesa do restaurante e, ocasionalmente, a nossa própria cadeira no eléctrico 28.

Hoje, em certas zonas de Lisboa, um lisboeta tem de fazer uma investigação quase policial para descobrir onde mora um lisboeta.

— Bom dia, é daqui?

— Mais ou menos.

— O que quer dizer «mais ou menos»?

— Vim ontem, fico até quarta e comprei uma sardinha numa loja com azulejos.

Está, evidentemente, integrado.

A cidade transformada em alojamento

O turismo trouxe riqueza, emprego, movimento, restaurantes, recuperação de edifícios e muitas outras coisas positivas que seria absurdo negar. Mas trouxe também um fenómeno curioso: casas que antes serviam para morar começaram, em grande número, a servir sobretudo para dormir.

Dormir, sim, mas por noites.

E é espantoso como uma casa portuguesa pode render mais quando o inquilino fica três dias do que quando fica trinta anos. O senhorio, que antigamente procurava alguém «de boa família», passou a procurar alguém com cartão de crédito, mala de rodas e uma excelente classificação numa plataforma internacional.

O velho anúncio:

«Aluga-se T2 a família séria.»

transformou-se, pouco a pouco, em:

«Alojamento encantador, no coração histórico de Lisboa, ideal para uma experiência autêntica. Não recomendado a residentes.»

O lisboeta, esse, começou a fazer as malas sem ter decidido viajar.

E muitos dos que querem comprar casa descobrem uma nova modalidade de exercício financeiro: olhar para o preço, fazer as contas, olhar novamente para o preço e concluir que talvez seja mais barato comprar um binóculo e observar Lisboa da margem sul.

O turista compra a experiência. O lisboeta paga a experiência.

O problema dos preços é particularmente interessante. O visitante chega a Lisboa com o poder de compra de quem trocou libras, dólares, francos suíços ou coroas por euros e encontra, apesar de tudo, uma cidade relativamente atraente.

O lisboeta chega ao mesmo restaurante com o seu salário.

São dois visitantes da mesma ementa, mas pertencem a espécies económicas diferentes.

O turista olha para um copo de vinho a sete euros e diz:

— Very cheap!

O lisboeta olha para o mesmo copo e pensa:

— Se calhar compro uma garrafa e bebo-a em casa. Se ainda tiver casa.

A coisa agrava-se quando o turista se apaixona pela cidade. Primeiro vem passar quatro dias. Depois passa quinze. Depois começa a dizer aos amigos que «Lisbon has a special energy». Depois compra um apartamento.

E pronto. Aquilo que começou como um passeio de eléctricos acaba numa escritura.

O lisboeta, que passou cinquenta anos a dizer «um dia tenho de pintar aquela parede», acorda um belo dia e descobre que alguém de Helsínquia, Chicago ou Amesterdão achou a parede tão autêntica que comprou o prédio inteiro.

A peregrinação ao eléctrico 28

Depois há o fenómeno do eléctrico 28, essa instituição nacional que talvez mereça ser inscrita na lista das espécies ameaçadas de passageiros sentados.

Antigamente era um meio de transporte.

Hoje é uma experiência espiritual.

O lisboeta aproxima-se da paragem e vê uma fila com cento e vinte pessoas, algumas equipadas para uma travessia do Evereste. Há máquinas fotográficas, mochilas, garrafas de água, mapas, chapéus e uma senhora que pergunta:

— Does it go to Alfama?

O lisboeta responde:

— Minha senhora, vai. A questão é se nós vamos.

Há dias em que o verdadeiro milagre de Lisboa não é o eléctrico subir a Rua da Conceição. É um residente conseguir entrar.

Imaginemos a cena: um lisboeta de oitenta anos precisa de ir ao médico. Aproxima-se do eléctrico. À sua frente está uma excursão internacional organizada.

O guia explica:

— Ladies and gentlemen, this is one of the most authentic experiences in Lisbon.

O velhote murmura:

— Autêntica era há sessenta anos. Agora isto é um safari.

Quando finalmente abre espaço e alguém pergunta se é para entrar, responde:

— Não. Eu sou parte da decoração. Moro aqui desde 1948 e estou à espera que me fotografem.

O elevador da Glória e o problema de subir uma cidade (infelizmente… “Out of Order !”

Lisboa tem outra característica: sobe e desce. Sempre subiu e sempre desceu. Mas agora há escadas onde os lisboetas antigamente subiam com sacos de compras e que, de repente, se transformaram em passadeiras internacionais.

Há turistas que olham para cada rua inclinada como quem descobriu uma nova cordilheira.

— Oh, my God!

E o lisboeta, carregando um garrafão de água:

— Meu filho, isso é só a Rua da Bica. Espere até conhecer o preço do condomínio.

Os turistas fotografam as calçadas, os azulejos, os varais, as janelas, os gatos, os eléctricos e os idosos.

Há, aliás, idosos em Alfama que já se habituaram.

Quando alguém aponta uma máquina fotográfica, alguns até ajeitam o cabelo.

Uma senhora teria confessado à vizinha:

— Antigamente, quando alguém me tirava uma fotografia, era porque eu fazia anos. Agora basta ir à janela.

A vida autêntica, desde que não incomode

O turista moderno procura «a verdadeira Lisboa». Quer autenticidade. Quer bairros genuínos. Quer ouvir fado numa casa pequena, comer onde comem os locais, descobrir lugares que ainda não estejam «descobertos».

Naturalmente, pergunta na Internet onde estão esses lugares.

Todos.

Ao mesmo tempo.

Na terça-feira, às 19 horas.

Há turistas que desejam viver «como os locais», desde que os locais estejam convenientemente disponíveis para lhes explicar como vivem.

Querem ver roupa estendida nas janelas, mas não gostariam de viver ao lado de quem tem de lavar roupa.

Querem ouvir fado até à meia-noite, mas queixam-se se o camião do lixo passa às sete da manhã.

Querem bairros populares, desde que não sejam demasiado populares.

Querem autenticidade com isolamento acústico.

Um dia, alguém há-de perguntar:

— Onde vivem os verdadeiros lisboetas?

E a resposta será:

— Em Santarém, Barreiro, Montijo, Setúbal, Torres Vedras, talvez Madrid… mas trabalham em Lisboa.

A economia da mala de rodas

Nenhum som caracteriza melhor a nova Lisboa do que o das malas de rodas sobre a calçada portuguesa.

De madrugada:

Rrrrrrrrrrrrrrr…

Às seis da manhã:

Rrrrrrrrrrrrrrr…

À meia-noite:

Rrrrrrrrrrrrrrr…

É o novo canto do galo urbano.

O lisboeta deitado na cama já desenvolveu uma ciência avançada. Pelo som das rodas consegue calcular a origem da mala, o peso e a distância a que se encontra o alojamento.

— Esta é alemã.

— Como sabes?

— Rodas demasiado eficientes.

— E aquela?

— Italiana. Está atrasada e vem acompanhada de quatro pessoas.

Há crianças que já não perguntam:

— Pai, o que é aquele barulho?

Perguntam:

— Pai, chegou mais um voo?

O restaurante e a descoberta do pastel de bacalhau

Também a gastronomia viveu tempos revolucionários.

Há pratos que durante décadas foram comida e passaram subitamente a ser património experiencial.

O pastel de bacalhau deixou de ser uma coisa que se comia e passou a ser uma fotografia.

A sardinha deixou de ser apenas sardinha e transformou-se num conceito.

O vinho passou a ser «uma experiência de terroir».

E o caldo verde, que sempre foi uma sopa com couve, começou a precisar de explicação académica.

— Esta couve foi cortada manualmente?

— Minha senhora, a couve está ali. Se quiser pode perguntar-lhe.

O lisboeta vê o turista pedir uma «authentic Portuguese experience» e, por vezes, sente vontade de lhe dar um verdadeiro prato de realidade nacional:

uma renda de mil e seiscentos euros, uma conta da luz, uma multa de estacionamento e uma espera de três meses por uma consulta.

Isso, sim, seria uma experiência imersiva.

Mas não culpemos o último a chegar

Seria, contudo, profundamente injusto transformar o turista no grande culpado de tudo. O turista veio porque o convidámos. E não só o convidámos: fizemos anúncios, construímos campanhas, prometemos experiências, abrimos portas e, em alguns casos, arrancámos as portas das casas para as transformar em alojamentos de curta duração.

A responsabilidade não está no estrangeiro que chega. Está também nas políticas públicas, na insuficiência de habitação acessível, na transformação da casa em activo puramente financeiro, na ausência de regras eficazes onde elas são necessárias e na extraordinária capacidade portuguesa de descobrir uma fonte de rendimento e explorá-la até ela pedir reforma antecipada.

O turismo não criou sozinho a crise da habitação. Mas, em determinadas zonas e circunstâncias, contribuiu para aumentar uma pressão que já era enorme.

É perfeitamente possível receber turistas sem expulsar os residentes.

É possível promover a cidade sem a vender aos bocadinhos.

É possível proteger o comércio tradicional sem o transformar integralmente numa loja de lembranças onde uma lata de sardinhas custa mais do que as sardinhas que lá estão dentro.

É possível querer uma Lisboa cosmopolita e, ao mesmo tempo, uma Lisboa habitável.

O verdadeiro cosmopolitismo não consiste em transformar a cidade num hotel gigante. Consiste em permitir que nela convivam pessoas diferentes, visitantes e residentes, recém-chegados e antigos moradores, sem que os segundos tenham de pedir autorização aos primeiros para continuarem a existir.

A verdadeira Lisboa ainda mora aqui?

Lisboa sempre recebeu gente. Marinheiros, comerciantes, artistas, estudantes, trabalhadores, emigrantes regressados, gente de todas as partes. A cidade é, por natureza, um lugar de chegada.

O problema começa quando deixa de ser um lugar onde também é possível ficar.

Uma cidade sem turistas seria triste. Mas uma cidade sem residentes seria ainda mais triste — e extraordinariamente estranha. Quem serviria os cafés? Quem conduziria os autocarros? Quem abriria as escolas? Quem levaria os turistas de táxi? Quem lhes explicaria, com paciência, que aquela rua se chama «Travessa», embora pareça uma parede inclinada?

Um dia, talvez um turista, sentado numa esplanada, olhe em redor e pergunte:

— Where are all the locals?

E o empregado, depois de colocar a conta na mesa, responderá:

— Alguns vivem a uma hora daqui. Outros a duas. Mas vêm todos os dias para lhe servir o pequeno-almoço.

E talvez então percebamos que uma cidade não é apenas aquilo que se visita.

Uma cidade é, sobretudo, aquilo que permite ser vivido.

Por isso, recebamos bem os turistas — que venham, que admirem Lisboa, que se apaixonem pelas sete colinas, pelos miradouros, pelos eléctricos, pelos azulejos, pelo Tejo e pelas sardinhas.

Mas não esqueçamos que, entre uma fotografia do Castelo e outra da Sé, há pessoas que precisam de acordar cedo para trabalhar, pagar uma renda, levar os filhos à escola, fazer compras e, se possível, apanhar o eléctrico 28 antes que ele seja completamente tomado por uma excursão de setenta japoneses.

Lisboa deve continuar a dizer aos visitantes:

«Sejam bem-vindos.»

Mas deve começar a dizer, com igual firmeza, aos lisboetas:

«Não precisam de ir embora.»

Porque uma cidade cheia de visitantes é animada.

Mas uma cidade sem habitantes é apenas um postal muito caro.

E nenhum lisboeta merece descobrir, um dia, que para viver na sua própria cidade precisa de fazer uma reserva antecipada, deixar caução, pagar taxa turística e apresentar cartão de embarque.

 

 

 

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