Espuma dos dias — Francisco Guerreiro (1917-2004) , por Helena Pato

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Francisco Guerreiro (1917-2004)

 Biografia por Helena Pato

Publicado por Antifascistas da Resistência em 8 de Março de 2026 (ver aqui)

 

Algarvio destemido, ferreiro e poeta popular, assumiu desde jovem a luta contra o regime de Ditadura, que o levou à cadeia de Caxias e a julgamento no Tribunal Militar Especial (fascista). Depois de estar preso durante 10 meses, continuou a ser perseguido pela polícia política, mas nunca cedeu a pressões. Até 1974 participou nas grandes lutas da Oposição. Depois de instaurada a Democracia, assumiu com grande empenhamento diferentes cargos autárquicos, para os quais foi sucessivamente eleito.

 

1. Francisco Guerreiro, nasceu em Pechão (Olhão) a 29 de Janeiro de 1917, filho de Francisco Guerreiro Júnior e de Esperança de Jesus Reis. Terminada a 4ª classe do Ensino Primário, não pôde prosseguir os estudos por falta de posses na família. No entanto, a sua ânsia de saber e de compreender a realidade social e política do país e do mundo, levou-o a procurar esse conhecimento, quer em leituras quer através do diálogo com outros. A observação directa da pobreza e do analfabetismo que o rodeavam contribuiu para que, cedo, se apercebesse da natureza do regime de ditadura salazarista e para assumir a consciência social que veio a determinar a sua vida. Com 19 anos foi chamado ao Administrador do Concelho, na sequência de, com outros jovens, dar aulas de alfabetização. Em 23 de Fevereiro de 1938, já com a profissão de ferreiro, foi preso “para averiguações”, por ocasião de uma vaga de prisões efectuada no Algarve. Da PSP de Faro, seguiu para a sede da polícia política (PVDE), em Lisboa, e dali para o Forte de Caxias. Seis meses depois (13/8/1938) foi transferido para o Forte de Peniche e, em Novembro desse ano, foi julgado no Tribunal Militar Especial e condenado (em multa e perda de direitos políticos por 5 anos). Libertado em 31 de Dezembro de 1938, casou com Domicília da Conceição, com quem teve dois filhos: Domitila e Vladimiro Miguel Guerreiro.

 

2. Em 1945, após o final da II Guerra Mundial, as forças oposicionistas criam o MUD (1) e Francisco Guerreiro participa na recolha de assinaturas de adesão, integrando a sua Comissão local como secretário. É então afastado da mesa eleitoral da freguesia e, em 1947, exonerado do cargo de escrivão da Junta.

Faz parte do grupo de jovens algarvios que, em 1947, organizam e participam numa Jornada de convívio e protesto levada a cabo pelo MUD Juvenil em Bela Mandil (2), e que terminou com diversas prisões. Em 1949, volta a ter intensa actividade política, ao integrar como secretário a Comissão de freguesia de apoio à candidatura do General Norton de Matos a Presidente da República; intervém então como orador em comícios e sessões. Em 1958 a sua participação na campanha eleitoral do General Humberto Delgado obriga-o a uma posterior semi-clandestinidade temporária, para evitar ser preso, mas acaba por ser detido pela PIDE e interrogado.

Entre 1950 e 1952, e entre 1962 e 1964, esteve emigrado na Argentina. Em Buenos Aires denuncia a repressão salazarista, em testemunho que foi publicado.

 

3. Depois do 25 de Abril de 1974, retoma o lugar de escrivão (de que tinha sido afastado na Ditadura), faz parte da Comissão de Moradores e integra a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Olhão. Em 1975, nas eleições para a Assembleia Constituinte, é candidato do MDP/CDE (Círculo do Algarve). Nas eleições autárquicas de 1979 é candidato pela APU e eleito Presidente da Junta de Freguesia de Pechão, cargo para o qual foi sucessivamente reeleito nos três mandatos seguintes.

Nos diferentes cargos que veio a desempenhar no regime democrático, evidenciou sempre a dedicação, a determinação e a honestidade que tinham caracterizado a sua luta política contra a ditadura fascista, tornando assim possível a satisfação de aspirações básicas das populações. O seu interesse pelas áreas de História, Arqueologia e Numismática aproxima-o de pesquisas sobre a sua terra natal e, em 1989, com o apoio da Câmara Municipal de Olhão, publica “Pequena Monografia de Pechão”, um significativo contributo para o conhecimento desta povoação.

 

4. Em 1991, a Câmara Municipal de Olhão (CMO) concede-lhe a medalha de Bons Serviços Grau Ouro. Em 1999, na celebração dos 25 anos do 25 de Abril, é homenageado pelos órgãos autárquicos da sua freguesia, em sessão pública, presidida pelo Ministro Mariano Gago e que contou com a presença de representantes políticos e autárquicos de diferentes quadrantes políticos. Nesse mesmo ano foi dado o seu nome a uma rua de Pechão e a CMO atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Grau Ouro.

A sua obra poética “As minhas quadras singelas” foi editada em 1992 (com apoio da CMO), e já depois da sua morte, em 2004, um segundo volume de poesia, com o título “Quadras sentidas”, teve apresentação na CMO.

Faleceu no Hospital de Faro, a 17 de Março de 2004, e foi sepultado em Pechão.

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Notas:

(1) Herdeiro do MUNAF, o MUD foi criado em 8 de Outubro de 1945, para reorganizar a Oposição, prepará-la para as eleições, proporcionar um debate público em torno da questão eleitoral, exigindo eleições livres. Conseguiu em pouco tempo grande adesão popular (principalmente entre intelectuais e profissionais liberais) e começou a tornar-se uma ameaça para o regime. Salazar ilegalizou-o em 1946, sob o pretexto de que tinha fortes ligações ao PCP.

(2) Festa da Juventude Algarvia, em Bela Mandil. No dia 23 de março de 1947 jovens do MUD Juvenil reúnem-se numa mata privada, mas a concentração foi interrompida pela GNR e PSP; e, quando os jovens seguiam a pé, para Olhão, foram interceptados com disparos de tiros e alguns deles presos.

 

Fontes:

  • ANTT ficha prisional nº 9458
  • Livro “Quadras Sentidas”

https://www.olhaocubista.pt/FestaBelamandil.htm

  • Entrevista

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/lugar-ao-sul-

 

Biografia da autoria de Helena Pato, com colaboração de Maria João Dias

Fotografia da ficha prisional da PVDE.

 


Helena Pato [1939 – ] é uma professora de matemática, militante antifascista e sindicalista portuguesa. Foi presa política durante o Estado Novo e uma das fundadoras do Movimento Democrático de Mulheres. Desde 2013 é autora da página Antifascistas da Resistência.

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