AS NOVE ILHAS E UMA MANEIRA MUITO SÉRIA DE NÃO SER SÉRIO por Carlos Pereira Martins

À minha Querida Amiga Dalila Ribeiro

 

AS NOVE ILHAS E UMA MANEIRA MUITO SÉRIA DE NÃO SER SÉRIO

por Carlos Pereira Martins

Os Açores são um desses prodígios geográficos que a Natureza, num momento de inspiração e talvez depois de um bom almoço, resolveu espalhar pelo Atlântico como quem lança migalhas sobre uma toalha azul. Nove ilhas, cada uma com o seu feitio, a sua paisagem, o seu sotaque, os seus hábitos e a firme convicção de que, naturalmente, a sua ilha é a melhor de todas — embora esta última certeza seja, felizmente, partilhada por todas e, por isso, ninguém se atreva a resolver definitivamente a questão.

Vou fazer por esquecer “as ilhas de baixo e as ilhas de cima”, posso?

O arquipélago é um pequeno paraíso repartido por água. E não por uma água qualquer: pelo Atlântico, esse velho senhor de mau génio que tanto pode acordar numa serenidade de espelho como decidir, de repente, que chegou a hora de testar a resistência moral e digestiva dos passageiros de um barco.

Mas vamos por ilhas, que nos Açores o caminho mais seguro para chegar a todas é começar por uma e aceitar que, inevitavelmente, acabaremos por querer regressar.

 

SANTA MARIA — A ILHA QUE, COMO ALGUMAS PESSOAS, PREFERE NÃO SE IRRITAR COM A HUMIDADE

Santa Maria é a ilha dourada. É a mais solarenga, a mais seca, a mais amarela e, em certos dias, parece estar nos Açores apenas por motivos administrativos, como alguém que pertence a uma família numerosa mas tem maneiras e clima completamente diferentes.

Enquanto as outras ilhas se orgulham das hortênsias, dos pastos verdejantes e das nuvens que passam o dia a tratar da rega, Santa Maria olha para aquilo tudo com uma certa superioridade climática e parece dizer:

— Vocês façam o favor de continuar molhadas. Eu cá, tenho praia.

É uma ilha de contrastes, com belas baías, paisagens suaves e uma luz muito própria. Santa Maria é, em certo sentido, a prima mediterrânica dos Açores. Não chega a ser Algarve, porque ninguém deve exagerar a ponto de provocar uma revolta popular, mas tem um certo ar de ilha que decidiu que, se havia de estar no Atlântico, ao menos que fosse com algum sol.

É também a ilha onde nasceu Cristóvão Colombo… pelo menos segundo a vontade de muitos, a tradição de alguns e a convicção absoluta de quem tiver passado tempo suficiente numa conversa açoriana sobre o assunto.

 

SÃO MIGUEL — O AÇORIANO QUE QUIS SER CONTINENTE E QUASE CONSEGUIU

São Miguel é a maior ilha do arquipélago e, naturalmente, comporta-se como tal.

Tem mais gente, mais estradas, mais movimento, mais cidades, mais automóveis, mais restaurantes e, provavelmente, mais pessoas a dizer:

— Isto antigamente é que era bom.

É a ilha onde Ponta Delgada vive com o ar cosmopolita de uma cidade que sabe perfeitamente onde fica Paris, embora também saiba onde se come a melhor morcela.

São Miguel tem Furnas, lagoas, vulcões, águas termais, plantações de chá e paisagens tão exuberantes que, por vezes, o visitante tem a sensação de estar dentro de um documentário da National Geographic — apenas com menos narrador britânico e mais alguém a gritar:

— Ó homem, tira a fotografia, que está a começar a chover!

Nas Furnas cozinha-se o célebre cozido no calor da terra, um sistema gastronómico extraordinário que consiste em enterrar a panela durante horas e confiar que o planeta não tenha outros planos.

É uma das poucas regiões do mundo onde se pode dizer, com toda a naturalidade:

— Vamos desenterrar o almoço.

E ninguém chama a polícia.

Depois há as lagoas, a das Sete Cidades que me enche o espírito vista cá de cima do miradouro, as fumarolas das Furnas que anunciam sempre um bom cozido com todos mergulhado na terra vulcânica e o cheiro característico de algumas zonas. É enxofre, dizem os cientistas. É o cheiro da Terra, dizem os poetas. É cheiro a ovo cozido muito antigo, dizem os menos diplomáticos.

E todos têm alguma razão.

TERCEIRA — A ILHA ONDE A HISTÓRIA, A TOURADA E O BOM HUMOR DECIDIRAM VIVER JUNTOS

A Terceira é uma ilha de personalidade forte. Muito forte.

Se fosse pessoa, chegaria à sala, sentava-se, pedia uma mesa para dez, tratava toda a gente por tu e, ao fim de meia hora, já estava a organizar uma festa.

Angra do Heroísmo é uma cidade de enorme beleza e importância histórica, mas a Terceira não vive apenas da História com H maiúsculo. Vive também da História com h pequeno, aquela que começa com:

— Lembras-te daquele dia em que…

…e acaba, invariavelmente, numa gargalhada.

A tourada à corda é uma das suas marcas culturais mais conhecidas e uma prova de que o ser humano é capaz de desenvolver tradições que a lógica, por prudência, prefere não analisar.

Há um touro. Há uma corda. Há homens. E há outros homens, aparentemente convencidos de que correr na direcção do touro, provocar o animal e depois fugir rapidamente constitui uma actividade recreativa perfeitamente razoável.

E depois há os Bailinhos de Carnaval — não baixinhos, como alguém poderá dizer por engano, o que seria injusto para os artistas e ainda mais injusto para quem mede um metro e cinquenta.

Os Bailinhos são teatro popular, música, sátira, crítica social, tradição e uma espécie de parlamento sem deputados pagos, onde toda a gente é criticada com grande entusiasmo e, geralmente, muito melhor humor.

Na Terceira, ninguém está completamente seguro.

Nem os políticos.

Nem os vizinhos.

Nem o presidente da junta.

Nem aquele senhor que, há trinta anos, ainda não devolveu uma panela.

GRACIOSA — A ILHA QUE NÃO PRECISA DE GRITAR PARA SER OUVIDA

A Graciosa é mais discreta. E isso, num mundo em que toda a gente parece ter necessidade de aparecer numa fotografia, é uma qualidade quase revolucionária.

É a ilha branca, tranquila, graciosa de nome e de natureza. Não precisa de exagerar para impressionar.

Tem a Furna do Enxofre, uma maravilha natural subterrânea que prova, mais uma vez, que o interior da Terra é muito mais interessante do que certas reuniões de condomínio.

Descer à Furna é entrar num cenário onde o planeta parece ter deixado a decoração a meio. Há vapor, há enxofre, há profundidade e uma atmosfera que faz qualquer visitante perceber que, afinal, talvez a crosta terrestre não seja o melhor sítio para se fazer um piquenique.

A Graciosa tem vinhos, tradição e aquela serenidade de quem conhece bem a vantagem de não andar sempre em competição com os outros.

É uma ilha que parece dizer:

— Vão vocês correr para as lagoas. Eu fico aqui.

E depois oferece-nos um copo de vinho.

É uma filosofia difícil de combater.

SÃO JORGE — A ILHA QUE PARECE TER ESCORREGADO PARA O MAR

São Jorge é longa, estreita e magnífica. Vista de certos lugares, parece uma ilha que, por razões que nunca chegaram a ser devidamente esclarecidas, se inclinou e começou a escorregar para o Atlântico.

É a ilha das fajãs, esses pedaços de terra entre a montanha e o mar que parecem ter sido colocados ali por uma Natureza generosa, mas com algum sentido de improvisação.

Para chegar a muitas delas, é preciso descer.

Depois, evidentemente, é preciso subir.

E é precisamente nesse momento que o visitante compreende por que razão São Jorge tem tanto carácter.

A paisagem é extraordinária, mas não é oferecida gratuitamente. É preciso merecê-la. E suar por ela. Há lugares onde o turismo consiste em tirar fotografias. Em São Jorge, frequentemente, consiste primeiro em sobreviver à subida e só depois verificar se ainda se tem energia para carregar no botão da máquina.

E depois há o queijo.

O queijo de São Jorge é tão famoso que merece ser tratado com respeito institucional. Não é apenas queijo: é património gastronómico, argumento turístico e, para alguns, uma excelente razão para fazer dieta… amanhã.

Quem prova um bom queijo de São Jorge percebe imediatamente por que razão certas pessoas ficam em silêncio.

Não é contemplação.

É mastigação.

PICO — A ILHA QUE DECIDIU PÔR UM VULCÃO DE PÉ E CHAMAR-LHE PAISAGEM

O Pico é impossível de ignorar.

Não é apenas uma ilha. É uma ilha com uma montanha que parece ter decidido levantar-se e vigiar o arquipélago.

A Montanha do Pico domina a paisagem com a autoridade de quem não precisa de falar alto.

Subi-la é uma experiência magnífica.

Dizem os mais optimistas.

Os que acabaram de chegar ao topo dizem que é uma experiência inesquecível.

Os que estão a meio do caminho dizem coisas que não podem ser publicadas num texto literário.

O Pico tem vinhas extraordinárias, protegidas por muros de pedra negra, o “Verdelho”, uma paisagem que parece construída por um arquitecto genial depois de lhe terem retirado todos os materiais convencionais.

— Que temos?

— Pedra vulcânica.

— Só?

— Só.

— Então façamos património mundial.

E fizeram.

Há ainda as baleias, o mar, os baleeiros e a memória de uma relação intensa entre os homens e o oceano.

O Pico é pedra, vinho, mar e altitude. Uma combinação tão poderosa que quase obriga qualquer pessoa a dizer, mesmo que não tenha vocação poética:

— Que terra extraordinária!

E depois perguntar:

— Onde é que se come?

FAIAL — A ILHA QUE TEM UMA CALDEIRA, UMA MARINA E A PACIÊNCIA DE RECEBER QUEM VEM DE TODO O MUNDO

O Faial é a ilha azul, das hortênsias e do mar.

A Horta tornou-se um ponto de encontro de navegadores de todo o mundo. Na marina, os barcos chegam, partem, voltam, desaparecem e deixam pinturas nos muros, como quem diz:

— Passei por aqui. Ainda não naufraguei. Espero continuar assim.

O famoso Peter Café Sport é quase uma instituição atlântica. Vale a pena ir ao Peter´s tomar um gin, ai vale, vale! Há lugares que são cafés. Outros são pontos de encontro. E há lugares que acabam por ser quase estações diplomáticas informais de todos os navegadores que têm tempo para contar histórias e sede para lhes dar continuidade.

Depois há o Vulcão dos Capelinhos.

E aqui a Natureza resolveu fazer uma demonstração pública de poder.

Em vez de criar discretamente mais um pedaço de terra, decidiu entrar em erupção, lançar cinzas, transformar a paisagem e deixar um cenário quase lunar.

É um lugar onde se percebe claramente que o planeta, quando se aborrece, não manda um comunicado à imprensa.

Constrói uma ilha nova.

O Faial é azul, mas também é cinzento, negro, verde e o que for necessário. É uma ilha que olha permanentemente para o mar, talvez porque sabe que, em qualquer momento, alguém pode chegar.

Ou sair.

Ou simplesmente pedir um gin.

FLORES — A ILHA QUE A NATUREZA FEZ COM EXCESSO DE ENTUSIASMO

As Flores parecem ter sido criadas num dia em que alguém disse à Natureza:

— Quanto verde queres pôr?

E a resposta foi:

— Sim.

Há lagoas, cascatas, falésias, pastagens, hortênsias e uma vegetação que, em determinados momentos, parece estar prestes a invadir o visitante.

É uma ilha onde a chuva não deve ser considerada um fenómeno meteorológico.

É um colaborador permanente da paisagem.

Sem ela, as Flores talvez não fossem as Flores. Seriam, provavelmente, as Plantas Com Alguma Esperança.

É uma das ilhas mais belas do arquipélago e uma demonstração quase excessiva do que acontece quando a Natureza decide mostrar serviço.

As cascatas caem de montanhas cobertas de verde, os cursos de água atravessam paisagens magníficas e o Atlântico cerca tudo com aquela majestade de quem nunca teve problemas de espaço.

Quem chega às Flores pode sentir uma pequena vontade de nunca mais partir.

Depois lembra-se de que vive noutra ilha.

Ou no continente.

E começa a procurar os horários dos aviões.

CORVO — A ILHA QUE PROVA QUE O TAMANHO NÃO É DOCUMENTO

E chegamos ao Corvo.

Pequeno no mapa, gigantesco na imaginação.

O Corvo é a mais pequena das ilhas dos Açores e talvez por isso dispense completamente a necessidade de provar seja o que for. Não tem multidões, não tem pressas, não tem a obrigação de impressionar ninguém com avenidas de seis faixas.

Tem uma vila.

Sim, uma.

E, convenhamos, isso simplifica enormemente a vida.

É difícil perder-se quando há poucas direcções possíveis.

O grande símbolo é o Caldeirão, a imensa cratera vulcânica que transforma o centro da ilha numa paisagem de extraordinária beleza.

Chegar ao Corvo é perceber que o isolamento pode ser uma riqueza.

Há quem, no continente, passe a vida inteira sem saber quem mora no apartamento ao lado.

No Corvo, essa possibilidade exige um esforço considerável.

Não porque as pessoas sejam intrometidas — isso seria uma acusação grave — mas porque uma comunidade pequena possui uma capacidade quase científica para manter uma certa noção do que se passa.

No continente chama-se informação.

No Corvo chama-se:

— Ah, já soube.

E AFINAL, O QUE SÃO OS AÇORES?

São nove ilhas, mas não são apenas nove ilhas.

São nove maneiras diferentes de ser açoriano.

Nove personalidades separadas pelo mar e unidas por uma cultura, uma memória, uma resistência e uma relação muito particular com o Atlântico.

São pessoas habituadas a viver com a possibilidade da chuva, do vento, do nevoeiro e, em certos casos, dos aviões decidirem que talvez hoje não seja um bom dia para voar.

Porque nos Açores o tempo não é uma previsão.

É uma sugestão.

O meteorologista pode anunciar sol e chuva para o mesmo dia.

O açoriano olha pela janela e pensa:

— Claro. E?

Há ilhas onde se pode experimentar as quatro estações em poucas horas. O visitante chega de óculos de sol, veste um casaco, abre um guarda-chuva, volta a tirá-lo e, ao fim do dia, já não sabe em que estação do ano vive.

Mas talvez seja precisamente essa a grandeza dos Açores.

Não são um lugar onde a Natureza tenha sido domesticada para facilitar a vida dos homens. São um lugar onde os homens aprenderam, ao longo de gerações, a viver com uma Natureza que pode ser generosa, poderosa, belíssima e caprichosa — por vezes, tudo antes do almoço.

E talvez por isso o açoriano tenha esse humor particular, essa capacidade de rir, de relativizar, de sobreviver ao tempo, ao mar, à distância e às pequenas complicações que, noutras geografias, seriam motivo para convocar uma comissão parlamentar de inquérito.

Nos Açores, a vida aprende-se entre o mar e a montanha, entre o nevoeiro e a claridade, entre a vaca que ocupa a estrada e o avião que não aterra porque o vento resolveu ter opinião.

Santa Maria dá-nos o sol.

São Miguel dá-nos a abundância.

A Terceira dá-nos o riso, a história e o espírito da festa.

A Graciosa dá-nos a tranquilidade.

São Jorge dá-nos as fajãs e o queijo.

O Pico dá-nos a montanha e o vinho.

O Faial dá-nos o mar e o mundo.

As Flores dão-nos a Natureza em estado de entusiasmo.

E o Corvo dá-nos uma lição que o mundo moderno teima em esquecer:

para se ser grande não é preciso ocupar muito espaço.

No fim, cada ilha tem a sua alma, e seria uma imprudência monumental perguntar a um açoriano qual é a melhor.

Porque, dependendo da ilha onde estiver, receberá uma resposta rápida, convicta e, por vezes, acompanhada de uma explicação de vinte minutos.

A melhor ilha é, evidentemente, a sua.

As outras são belíssimas.

Mas a sua…

A sua é que é!

 

 

3 Comments

  1. Que texto extraordinário que mostra eloquentemente que o ser humano e a natureza se pertencem mutuamente! CPM tem uma capacidade mágica de ser um marciano com os pés na terra. A sua perspectiva sobre as pessoas e as coisas tão surpreendente como seria a de um telescópio que permitisse ver com um microscópio. Se alguma agência de turismo descobrir este texto vai ser uma desgraça para as ilhas. Não sobreviverão a tanta gente intrusa. A menos que à maneira de CPM transformem o mar em fortaleza inexpugnável.

Leave a Reply