O CALOR QUE NOS CERCA por Carlos Pereira Martins

O CALOR QUE NOS CERCA

por Carlos Pereira Martins

Fotografia de Carlos Pereira Martins

 

Há explicações que, de tanto serem repetidas, acabam por parecer dispensadas de demonstração. «É das alterações climáticas», diz-se hoje diante de cada onda de calor, de cada seca, de cada incêndio ou de cada termómetro enlouquecido. A frase tornou-se quase uma resposta automática, uma espécie de mata-borrão científico aplicado sobre tudo o que nos aquece.

Mas o facto de a explicação ser repetida não significa que seja falsa. Pelo contrário: quando se observa com algum rigor aquilo que a ciência efectivamente demonstra, percebe-se que as ondas de calor cada vez mais frequentes não são produto de uma única causa, nem de um misterioso castigo da natureza. Resultam da combinação de mecanismos físicos muito concretos, mensuráveis e, em grande parte, cientificamente demonstrados.

Uma onda de calor começa, geralmente, muito acima das nossas cabeças.

Quando se instala sobre uma região um poderoso anticiclone, o ar desce das camadas superiores da atmosfera. Ao descer, comprime-se e aquece. Simultaneamente, as nuvens rareiam, a radiação solar chega ao solo com maior intensidade e o ar quente permanece praticamente estacionado durante dias. O céu azul, que ao princípio nos parece um simpático convite à praia, pode transformar-se num autêntico tecto de vidro sob o qual a Terra vai sendo lentamente assada.

A atmosfera, porém, não é uma fotografia. É um sistema de correntes, ondas e circulações gigantescas. As chamadas ondas de Rossby, grandes ondulações da circulação atmosférica, podem estabelecer configurações persistentes que favorecem o bloqueio anticiclónico sobre a Europa. Quando isso acontece, as massas de ar ficam quase imobilizadas. O ar fresco não entra; o quente não sai. E, se durante vários dias o vento sopra do Norte de África para a Península Ibérica, recebemos, com a pontualidade de um hóspede que ninguém convidou, ar continental extremamente quente e seco.

Estudos recentes demonstram, aliás, que uma parte importante do aumento dos extremos de calor na Europa Ocidental está associada a alterações na circulação atmosférica, particularmente ao aumento da frequência de fluxos meridionais provenientes de latitudes mais quentes. Noutras palavras: não é apenas o termómetro que está a subir; a própria atmosfera tem trazido com maior frequência o ar que faz subir o termómetro.

Há, contudo, outro conspirador silencioso: a secura dos solos.

Um solo húmido comporta-se, até certo ponto, como um sistema de refrigeração natural. Parte da energia solar é utilizada na evaporação da água. Quando essa água escasseia, a energia que antes alimentava a evaporação passa directamente para o aquecimento do solo e do ar. O mecanismo é simples e implacável: quanto mais seco está o chão, mais depressa aquece o ar; quanto mais quente fica o ar, mais depressa seca o chão.

É uma espiral de amplificação.

Por isso, uma onda de calor raramente chega a uma terra completamente inocente. Muitas vezes encontra o terreno já ressequido por semanas ou meses de precipitação insuficiente. A partir daí, solo e atmosfera começam uma colaboração que ninguém desejaria: o primeiro deixa de arrefecer, a segunda aquece ainda mais, e ambos contribuem para prolongar o episódio.

Na Europa do Sul e no Mediterrâneo, este mecanismo é particularmente importante. A investigação científica demonstra uma forte ligação entre a humidade do solo e a intensidade das ondas de calor. Períodos persistentes de calor no Sudoeste europeu estão especialmente associados à secura do solo anterior ao próprio episódio, enquanto os bloqueios atmosféricos contribuem para manter o calor durante períodos prolongados.

Também o mar deixou de ser apenas o vizinho fresco que amenizava os excessos da terra.

O Mediterrâneo, quando apresenta temperaturas anormalmente elevadas, armazena e transfere enormes quantidades de energia para a atmosfera. Um mar muito quente aumenta a humidade e reduz, sobretudo durante a noite, a capacidade de arrefecimento das regiões costeiras. É por isso que certas ondas de calor se tornam particularmente desagradáveis: não se sofre apenas durante o dia; sofre-se também quando chega a noite e o organismo espera, em vão, aquela pequena misericórdia térmica que antigamente vinha da madrugada.

O calor, portanto, passa a ser um trabalho por turnos: o Sol aquece de dia e o mar quente impede o descanso de noite.

A investigação sobre os grandes episódios de calor europeus mostra precisamente que a combinação de solos muito secos e temperaturas marítimas excepcionalmente elevadas pode acrescentar cerca de um grau Celsius à intensidade de uma onda de calor, além do efeito da própria circulação atmosférica.

E há ainda os ciclos naturais de variabilidade oceânica e atmosférica. O Atlântico Norte, por exemplo, não permanece termicamente imóvel ao longo das décadas. Alterações persistentes nas temperaturas da superfície do oceano podem influenciar a circulação atmosférica, favorecendo determinadas configurações de alta pressão sobre a Europa meridional. Uma investigação publicada em 2025 associou a transição para uma fase quente da Oscilação Multidecadal do Atlântico a uma maior ocorrência de dias quentes no Sul da Europa, através de uma cadeia de fenómenos que envolve o oceano, ondas atmosféricas, subsidência do ar e redução da humidade dos solos.

Não se deve, portanto, confundir a causa de um episódio concreto com a tendência geral observada ao longo de décadas.

Uma determinada onda de calor pode resultar, em grande medida, de um anticiclone excepcionalmente persistente, de uma corrente de ar vinda de África, de uma determinada configuração do Atlântico ou de uma sequência meteorológica pouco habitual. A ciência da atribuição de fenómenos extremos tem mostrado precisamente isto: diferentes causas podem contribuir simultaneamente e em proporções diferentes.

Num estudo recente sobre a extraordinária onda de calor do Mediterrâneo Oriental em Junho de 2024, os investigadores concluíram que aproximadamente metade da anomalia térmica observada esteve associada a forçamentos de origem humana — incluindo o aquecimento provocado por gases com efeito de estufa e a secagem dos solos — e cerca de metade à variabilidade natural, dominada por um anticiclone anómalo ligado a uma grande onda atmosférica proveniente do Atlântico Norte.

É aqui que convém evitar dois simplismos igualmente preguiçosos.

O primeiro consiste em olhar para cada dia quente e decretar, de dedo acusador: «Aí estão as alterações climáticas!» Não. Uma onda de calor não nasce por decreto, nem por slogan. Tem mecanismos atmosféricos próprios, massas de ar, anticiclones, circulação oceânica, radiação solar, secura dos solos e múltiplas interacções físicas.

O segundo simplismo é imaginar que, por existirem causas meteorológicas naturais e ciclos oceânicos, não existe qualquer alteração duradoura do sistema climático. Isso seria igualmente contrário à evidência científica.

O que a ciência demonstra é mais interessante e muito menos cómodo para quem prefere explicações de uma só linha: o episódio extremo tem as suas causas meteorológicas imediatas, mas essas causas actuam hoje sobre um ambiente termodinâmico que, em muitas regiões, é mais quente e favorável aos extremos de calor do que era no passado. No Mediterrâneo, o IPCC identifica com elevada confiança o contributo da influência humana para o aumento da intensidade e da frequência dos extremos de calor, ao mesmo tempo que reconhece a importância das alterações na circulação, da variabilidade natural do Atlântico, da secura dos solos e de outros mecanismos regionais.

Não precisamos, portanto, de transformar as alterações climáticas numa espécie de divindade pagã responsável por cada raio de sol mais forte.

Basta compreender a física.

O calor aumenta quando o ar quente chega; aumenta ainda mais quando um anticiclone o aprisiona; persiste quando o bloqueio atmosférico se prolonga; intensifica-se quando o solo perdeu a água que poderia evaporar; torna-se mais penoso quando o mar aqueceu e já não permite o arrefecimento nocturno; e pode ser reforçado por grandes oscilações oceânicas que reorganizam a circulação da atmosfera.

É uma cadeia de acontecimentos. Uma máquina complexa. Uma orquestra em que cada instrumento tem a sua partitura, embora, ultimamente, pareça que o maestro decidiu tocar sempre fortíssimo.

Portugal e o Mediterrâneo ocupam, neste cenário, uma posição particularmente vulnerável. Somos uma região onde a secura favorece o aquecimento, onde as entradas de ar africano podem elevar rapidamente as temperaturas, onde os anticiclones podem permanecer durante longos períodos e onde o mar, quando excessivamente quente, acrescenta energia ao sistema e rouba às noites a sua antiga função reparadora.

A verdadeira explicação científica para as ondas de calor mais frequentes não está, pois, numa palavra mágica nem numa única causa. Está na sobreposição de fenómenos que se reforçam mutuamente: circulação atmosférica, bloqueios anticiclónicos, transporte de ar quente, secura dos solos, aquecimento do mar, variabilidade natural dos oceanos e alterações de longo prazo na composição e no balanço energético da atmosfera.

O problema talvez seja precisamente esse: a ciência não nos oferece a comodidade de uma única resposta.

Obriga-nos a pensar.

E pensar, nos dias que correm, é ainda mais necessário do que encontrar uma sombra.

 

 

 

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