Espuma dos dias — Memorando dos VIPS: Conversa perigosa sobre a ‘derrota’ de Putin na Ucrânia

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

Memorando dos VIPS: Conversa perigosa sobre a ‘derrota’ de Putin na Ucrânia

Publicado por em 28 de Agosto de 2026 (original aqui)

 

O Presidente Donald Trump numa chamada com o presidente russo Vladimir Putin na Casa Branca em Agosto. 18, 2025, antes de o presidente dos EUA se reunir com o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e líderes europeus e da NATO no Salão Oval. (Casa Branca/Daniel Torok)

 

28 de Agosto de 2026

Memorando para: o Presidente

De: Profissionais de Inteligência Veteranos para a Sensatez (VIPS)

Assunto: Conversa perigosa sobre a ‘derrota’ de Putin na Ucrânia

 

Caro Presidente Trump

O New York Times está a relatar que as perspectivas para a Rússia na Ucrânia são “sombrias”. Diz-se que o Director da CIA, John Ratcliffe, explicou isso aos russos na terça-feira em Moscovo. Ele tê-los-ia instado ” a fazerem um acordo antes que sua situação militar e económica piore.”

Nós escrevemos-lhe para o caso de o senhor se estar a deixar levar por esta conversa fiada. Pensamos que é orquestrado pelo mesmo tipo de génios que disseram ao presidente Joe Biden para anunciar em 13 de julho de 2023, num grande discurso em Helsínquia, que os russos “já haviam perdido a guerra” na Ucrânia.

Sugerimos que o senhor avalie bem se eles tentarem vender a mesma história. Nada poderia estar mais longe da verdade. O seu antecessor foi mal servido pelos serviços de inteligência. Suspeitamos que esteja a receber o mesmo tratamento tendencioso dos seus próprios conselheiros. Na verdade, muitos deles parecem absurdamente despreocupados em arriscar uma guerra mais ampla com a Rússia sobre a Ucrânia.

Oferecemos-lhe, como oferecemos a Biden, os seguintes lembretes:

– 3 de dezembro de 2022: “A Rússia está a consumir munições muito rapidamente. É extraordinário. O nosso pressentimento é que a Rússia não é capaz de produzir de forma autóctone aquilo que está a gastar nesta fase”. (Director Nacional dos Serviços Secretos, Avril Haines)

– 18 de março de 2022: “A Rússia perdeu na Ucrânia. O Ocidente deve reconhecer esta derrota russa”. (Anatol Lieven, Instituto Quincy)

– 1 de julho e 7 de julho de 2023: “a guerra de Putin já foi um fracasso estratégico para a Rússia: as suas debilidades militares expostas; a sua economia gravemente danificada para os próximos anos” (Director da CIA, William Burns)

 

A igreja dos especialistas dos últimos dias

Dois jornalistas do NY Times especializados em assuntos de inteligência informaram quinta-feira que esta última versão da história da Rússia já derrotada é “a avaliação atual do diretor da CIA”. Eles alertam com uma certa perplexidade que, apesar disso, o Presidente Putin pode ignorá-la “e optar por continuar a lutar”. Mas porque faria Putin isso?

De facto, a velha dama cinzenta [n.t. o New York Times] e as suas fontes de inteligência parecem bastante perplexas com o motivo pelo qual Putin continuaria a tentar quando, de acordo com autoridades e especialistas dos EUA, ele começou a perder há três anos e meio atrás e continua a perder. Será possível que sejam eles que estavam errados – terrivelmente errados?

Descartando isso como uma possibilidade, eles dão uma cambalhota, endireitam-se e optam por culpar os conselheiros de Putin que, segundo o Times, não “deram a Putin avaliações honestas da trajetória e do custo da guerra”.

Se o humor negro está em ação aqui, não achamos graça a isso. O massacre na Ucrânia faz centenas de vítimas diariamente.

A Rússia está a avançar metodicamente no Donbass ao longo de uma frente de mil milhas, está a resistir a ataques de drones contra as suas infraestruturas de Petróleo e civis com aperfeiçoada intercessão e impôs um bloqueio virtual ao maior porto da Ucrânia, Odessa, com ataques aéreos fulminantes. A escassez de mão-de-obra e de interceptadores na Ucrânia impossibilita-lhe recuperar o seu território perdido, como o senhor reconheceu depois da sua reunião com o Presidente Putin no Alasca.

Senhor Presidente, se lhe fosse dado acesso a informações honestas e baseadas na realidade, seria capaz de decidir por si próprio quais os conselheiros que acertaram nestes últimos cinco anos. E, uma vez informados da realidade em terra (e no ar), poderá optar por fazer o que estiver ao seu alcance para pôr fim ao desastre na Ucrânia.

 

Déjà Vu

Não é a primeira vez que aconselhamos um presidente a procurar aconselhamento imparcial com vista a evitar uma guerra desnecessária e catastrófica. Fizemos isso apenas algumas horas após a apresentação enganadora de Colin Powell ao Conselho de segurança da ONU em 5 de fevereiro de 2003 [n.t. em 5 de março de 2003 iniciar-se-ia a invasão do Iraque].

Hoje, sugerimos vivamente que alargue o seu círculo de conselheiros, como exortámos então o Presidente George W. Bush a fazer, no nosso primeiro Memorando VIPS, que terminou com esta recomendação:

“Depois de assistir ao que disse o Secretário Powell hoje, estamos convencidos de que o senhor seria bem servido se ampliasse a discussão para além do círculo daqueles conselheiros claramente empenhados numa guerra para a qual não vemos nenhuma razão convincente e da qual acreditamos que as consequências não intencionais provavelmente serão catastróficas.”

 

Pelo Grupo Diretor dos Profissionais de Inteligência Veteranos para a Sensatez:

  • Fulton Armstrong, ex Oficial de Inteligência Nacional (reformado)
  • Marshall Carter-Tripp, oficial do Serviço Estrangeiro (reformado); Director da divisão do Departamento de Estado do Serviço de Informações e Investigação
  • Philip Giraldi, C.I.A., oficial de Operações (reformado)
  • Matthew Hoh, ex-capitão, USMC, Iraque e oficial do Serviço Externo, Afeganistão (associado VIPs)
  • Larry C. Johnson, ex-oficial de combate ao terrorismo da CIA e do Departamento de Estado
  • John Kiriakou, ex-oficial de Contraterrorismo da CIA e ex-investigador sénior da Comissão de Relações Exteriores do Senado
  • Karen Kwiatkowski, ex-tenente-coronel da Força Aérea dos EUA (reformada), no gabinete do Secretário de Defesa, observação do fabrico de mentiras no Iraque, 2001-2003
  • Douglas MacGregor, Coronel, EUA (reformado) (associado VIPS)
  • Ray McGovern, ex-oficial de infantaria/inteligência do Exército dos EUA e analista da CIA; informante Presidencial da Cia (reformado)
  • Elizabeth Murray, ex-vice-oficial de Inteligência Nacional/NE, Conselho Nacional de inteligência e analista político da Cia (reformada)
  • Scott Ritter, ex-major, USMC; Ex-Inspector de armas da ONU, Iraque
  • Coleen Rowley, agente especial do FBI e ex-assessora jurídica da Divisão de Minneapolis (reformada)
  • Sarah G. Wilton, CDR, USNR, Agência de Inteligência de defesa (reformada)
  • Ann Wright, coronel aposentada da Reserva do Exército dos EUA e ex-diplomata dos EUA que renunciou em 2003 em oposição à guerra do Iraque

 

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