SE UMA GAIVOTA VOASSE… E VIESSE…LEMBREI-ME E TIVE SAUDADES DE CARLOS DO CARMO!
por Carlos Pereira Martins
Carlos do Carmo e Carlos Pereira Martins
Se uma gaivota viesse pousar à minha janela, talvez lhe contasse que há homens que passam anos a construir muros e outros que passam a vida a tentar derrubá-los. Contar-lhe-ia também que há quem atravesse oceanos à procura de uma vida melhor e há também quem tenha nascido junto ao mar sem nunca ter aprendido verdadeiramente a olhá-lo.
A gaivota ouviria tudo com aquele ar ligeiramente insolente que só as gaivotas conseguem ter.
E teria razão.
Porque, vistas do alto, muitas das nossas grandes preocupações devem parecer-lhe pequenas.
Os carros presos no trânsito parecem formigas zangadas.
As filas parecem riscos desenhados no chão.
As fronteiras desaparecem.
As cidades tornam-se manchas de luz.
E os homens, que cá em baixo se julgam tão importantes, ficam reduzidos a pequenas figuras que andam depressa sem saber muito bem para onde.
Talvez seja por isso que gosto das gaivotas.
Não porque sejam particularmente delicadas — algumas são até bastante atrevidas — mas porque possuem uma liberdade que nós invejamos.
Não precisam de passaporte para atravessar o horizonte.
Não perguntam a ninguém se podem partir.
Não levam malas.
Não fazem reservas.
Não precisam de saber onde vão dormir.
Levantam voo.
E pronto.
Se uma gaivota viesse conversar comigo, eu talvez lhe pedisse um conselho.
Perguntaria:
— O que devemos fazer para sermos um pouco mais livres?
Ela provavelmente abriria as asas.
E eu perceberia que a resposta estava ali.
Talvez a liberdade não seja uma coisa que se explique muito.
Talvez seja uma coisa que se pratique.
Talvez seja aprender a partir sem fugir, regressar sem medo e olhar o mundo sem a permanente necessidade de o possuir.
E talvez devêssemos aprender alguma coisa com as gaivotas: elas conhecem o vento, mas não tentam prendê-lo.
Nós, pelo contrário, queremos controlar quase tudo.
Queremos prever o amanhã, organizar o futuro, dominar a natureza, calcular riscos, fazer planos, estabelecer horários e, quando finalmente julgamos ter tudo organizado, aparece uma gaivota que nos rouba uma batata frita.
E lá se vai a nossa ideia de controlo absoluto.
Talvez seja bom que assim seja.
Porque uma gaivota que nos rouba uma batata lembra-nos, com uma certa insolência marítima, que a vida também precisa de imprevistos.
Se uma gaivota viesse hoje à minha janela, não lhe pediria que me levasse para longe.
Pedir-lhe-ia apenas que me ensinasse a olhar.
A olhar para o mar sem lhe procurar um fim.
Para o céu sem lhe procurar fronteiras.
Para as pessoas sem lhes perguntar primeiro de que lado estão.
E para a vida sem estar constantemente a exigir-lhe explicações.
Depois, provavelmente, ela levantaria voo.
Eu ficaria a vê-la desaparecer.
E talvez sorrisse.
Porque há coisas que não precisam de ficar.
Basta passarem por nós para nos deixarem qualquer coisa.
Até uma gaivota.


