Espuma dos dias — A Transição Energética e os Centros de Dados . Por Manuel Ramalhete

Seleção de Júlio Marques Mota

9 min de leitura

A Transição Energética e os Centros de Dados

As contradições e os limites criados com a IA

 Por Manuel Ramalhete

Em 25 de Setembro de 2026

 

Habitualmente, muito instituições, quer a nível nacional, quer a nível internacional, escolhem a palavra do ano, normalmente uma palavra muito utilizada ou associada a um acontecimento muito relevante [1]. Curiosamente duas das expressões mais utilizadas, pelo menos nos meios mais técnico-científicos, e mais propaladas na Comunicação Social, nunca ganharam, talvez por se restringirem a um âmbito mais erudito, embora ainda estejam a tempo. Referimo-nos às Alterações Climáticas e à Transição Energética. A justificação para a sua frequente utilização é, na nossa opinião, simples: os desastres climáticos chegam rapidamente às nossas casas, através das TVs, e a justificação mais simples é essa, em parte por ser, muitas vezes, verdade e, em parte por, mesmo não sendo a causa, cair bem no actual “simplismo” mediático que domina a cultura prevalecente. E, claro, os desastres climáticos são imediatamente associados às alterações climáticas, mesmo que, eventualmente, a causa principal esteja na incúria humana, e as alterações climáticas sejam apenas circunstâncias favoráveis; daí a necessidade de fazer referência à transição energética, entendida esta como a passagem para formas de energia descarbonizada. Neste artigo não vamos abordar o problema climático, mas a transição energética e as novas necessidades de energia decorrentes do desenvolvimento da Inteligência artificial (IA).

A transição energética não é fenómeno novo, pois o Homem, desde a fase inicial de simples primata, tem procurado melhorar o seu bem-estar e a utilização da energia tem sido fundamental para essa evolução. A partir da descoberta do fogo, o Homem começou a utilizar a lenha (biomassa vegetal) para aquecimento e confecção de alimentos. Durante a maior parte da história da humanidade foi a lenha a principal fonte energia primária, embora fosse, progressivamente e em menor escala, utilizada energia da água e do vento, por exemplo nos moinhos, ou as velas nas caravelas (foi a energia eólica que permitiu a deslocação das caravelas portuguesas na saga dos descobrimentos). Foi assim até finais do século XVIII e início do século XIX, em que o carvão passa a ser utilizado como grande fonte de energia primária, e é o carvão que está na base energética da Revolução Industrial. Aliás, a Europa e o Reino Unido, em particular, já revelavam escassez de madeira tendo sido o carvão a alimentar as máquinas a vapor utilizadas na indústria e nos transportes.

Como em todas as transições, estas não ocorreram por substituição total linear, mas por acumulação e adição tecnológica. O carvão não substituiu totalmente a madeira, as duas foram, e ainda são, utilizadas conjuntamente durante muito tempo, registando-se um processo de adição e substituição.

No final do século XIX, emerge o petróleo como fonte de energia primária e começa, da mesma forma, em adição e substituição do carvão e, ainda hoje, são utilizadas ambas, em grande escala, embora outras fontes se tenham juntado, como o nuclear,  o gás natural e as renováveis “modernas”[2].

Enquanto as transições anteriores foram comandadas por razões económicas e tecnológicas, estando associadas a grandes aumentos de produtividade, a actual transição que, por enquanto, tem mais de adição do que de substituição, é comandada por razões ambientais e pela preocupação em descarbonizar, uma vez que o CO2, emitido no processo de queima dos combustíveis fósseis (a principal base da matriz energética mundial), vai aumentar o efeito de estufa e, assim, contribuir para o aquecimento progressivo do planeta e ser responsável pelas alterações climáticas – esta é pelo menos a versão dominante nos meios científicos.

No entanto, não é apenas a preocupação para formas de energia sem carbono que está a limitar as escolhas e a tornar a transição tão difícil e com resultados tão modestos até agora (ver gráfico em anexo, no fim). E dizemos resultados modestos, baseando-nos na evidência empírica disponível. Com efeito, segundo dados do Financial Times (FT), em 2025, foi atingido um novo record de emissões, com 38,1 mil milhões de tons, tal como, em 2024, já tinha sido atingido um novo record e, em 2023, por sua vez tinha sido registado o máximo até então. O relatório anual do Global Carbon Budget confirma que os recordes são batidos, consecutivamente, ano após ano, devido ao crescimento contínuo da procura energética global que supera o ritmo de expansão das energias renováveis, apesar dos esforços titânicos da UE, ao ponto de estar a arruinar as suas principais indústrias, como é o caso da indústria automóvel, outrora uma “inveja” da indústria mundial respectiva.

As emissões devidas aos combustíveis fósseis têm vindo a aumentar:  carvão, +0,8%, petróleo, +1,1% e gás natural +1,3%, e também por isso muitos especialistas falam em adição energética e não substituição, pois o acréscimo nem sequer é compensado pelas energias renováveis, como se disse. Tudo isto porque o consumo de electricidade está a crescer de forma desmesurada.

Entretanto, a juntar a um desejo, por vezes obsessivo, de querer tudo eléctrico, o desenvolvimento da IA veio criar uma necessidade adicional, mesmo explosiva, de mais electricidade, estável e contínua, com a corrida à criação e expansão de centros de dados (data centers, em inglês). Como se sabe, estes equipamentos são essenciais para armazenar e processar informação, mas consomem enormes quantidades de eletricidade, continuamente [3], para além de água, para arrefecimento, e ocupam extensas áreas de terreno.

Esta situação está a criar muita ansiedade, em muitos países ocidentais, nomeadamente na Europa, provocando outros problemas críticos, como sejam o da habitação, indústrias em declínio, em parte devido ao elevado custo da energia, gerando conflitos de prioridades difíceis de gerir e contestação também difícil de encobrir.

Acresce que na Europa, devido à muita rigidez na política ambiental, de querer satisfazer “à força” toda a procura através de massivos investimentos, em fontes renováveis intermitentes, essa contestação já chega às zonas rurais do interior, onde pretendem instalar parques gigantescos, eólicos e solares, sacrificando, praticamente, tudo à sua volta [4].

Como referem João Jesus Ferreira e Luís Mira Amaral, “as áreas metropolitanas concentram uma parte importante do consumo, da decisão política, das sedes empresariais e dos benefícios económicos; os territórios rurais e do interior recebem, em contrapartida, parques eólicos, grandes centrais fotovoltaicas, linhas de transporte, subestações, acessos e parques de baterias. Esta assimetria não é apenas geográfica. É também política: os benefícios e as decisões tendem a concentrar-se, enquanto os impactos permanentes ficam nos territórios que dispõem de menor capacidade institucional para influenciar as opções nacionais” [5].

Ou seja, o crescimento exponencial do consumo de electricidade, associado à necessidade de a mesma ser obtida a partir de fontes sem emissão de carbono, vieram levantar problemas novos e dificultar ainda mais a transição, dificuldades que aumentam devido à muita relutância, por parte dos movimentos ambientalistas e partidos “verdes”, no uso de energia nuclear, restrições que têm vindo a ser eliminadas por força de uma realidade que se impõe (a Itália acaba de anunciar o retorno ao nuclear, depois de algumas décadas de divórcio com essa fonte energética [6], e o Japão reactiva Kashiwazaki-Kariwa, citado pela Lusa, a maior central do mundo, parada desde o acidente de Fukushima, para citar apenas dois exemplos).

As grandes tecnológicas estão a investir e a proceder a acordos para garantir energia constante e estável. Apenas a título de exemplos, (i) a Microsoft fechou um acordo de longo prazo com a Constellation Energy para reativar o reator da central nuclear de Three Mile Island (Pensilvânia), com o objetivo de alimentar os seus centros de dados de IA até 2028; (ii) a Google firmou uma parceria com a Kairos Power para comprar energia de pequenos reatores modulares (SMR), inovando na pegada tecnológica nuclear; (iii) a Amazon investiu em projetos de energia nuclear e adquiriu ‘campuses’ de centros de dados diretamente ligados a centrais já existentes. No dia 14 de Agosto, a mesma Amazon confirmou que vai investir numa central eléctrica, de grande escala, movida a gás natural, como parte de um enorme centro de dados no Texas, e que poderá tornar-se a maior fonte individual de emissões nos Estados Unidos, segundo o New York Times (NYT). A Microsoft, a Alphabet, a Meta, etc., estão exatamente na mesma, umas contra as outras e todas elas contra as chinesas.

Em muitos países, o problema está mesmo a tornar-se crítico, e o FT, em extenso artigo, alertava para a situação em Londres, já que o mesmo estava a gerar forte oposição por parte das populações locais. Um dos casos descritos é o de Potters Bar, nos arredores da capital britânica, onde residentes contestam a construção de um dos maiores centros de dados da Europa. Os argumentos giram à volta dos seguintes temas: aumento do ruído permanente, crescimento do tráfego rodoviário, perda de espaços verdes e elevado consumo de eletricidade, suficiente para abastecer centenas de milhares de habitações. Ou seja, argumentos na linha dos da contestação aos projectos Sofia e do Polvorão/Margalha (Gavião).

Mas Londres não é caso isolado. Com efeito, Amesterdão suspendeu novas licenças para centros de dados até 2030, na Escócia discute-se uma moratória e vários estados norte-americanos, incluindo Nova Iorque e Texas, estudam limitar novas construções.

É perante esta onda de contestação que surgiram os CBA, acrónimo de Community Benefits Agreements, ou Acordos de Benefícios Comunitários em português. Estes acordos são contratos, legalmente vinculativos, celebrados entre os promotores de grandes centros de dados (como a Microsoft, Google ou Meta) e as comunidades locais ou municípios que os acolhem. Tornaram-se uma ferramenta fundamental para mitigar o forte impacto ambiental, energético e social destas infraestruturas devido à explosão da Inteligência Artificial.

Os CBAs servem para equilibrar a balança, forçando as tecnológicas a dar contrapartidas diretas em troca da autorização para construir. Os acordos cobrem habitualmente:

  • Consumo de água e energia: Limites rigorosos ao uso de recursos hídricos para refrigeração e exigências de investimento em redes de energia renovável.
  • Poluição sonora e ambiental: Restrições ao ruído contínuo dos sistemas de ventilação e ao uso de geradores a diesel de emergência.
  • Contrapartidas financeiras: Criação de fundos comunitários substanciais para investir em escolas, parques ou infraestruturas públicas locais. 
  • Emprego e formação: Compromissos de contratação local e financiamento de programas de capacitação digital ou técnica para os residentes.

São exemplos de CBAs os seguintes: Lancaster AI Hub (Pensilvânia, EUA), San Antonio (Texas, EUA) – “Community-First AI Infrastructure” da Microsoft, Memphis (Tennessee, EUA) – Enquadramento por Portaria de IA, para citar os mais recentes. Na mesma linha, Estados como o Illinois adotaram estruturas que exigem a assinatura de CBAs como condição obrigatória para que os operadores possam aceder a incentivos fiscais. Da mesma forma, no Massachusetts, ordens executivas recentes proíbem acordos de confidencialidade (NDAs) entre promotores e agências, exigindo processos transparentes alinhados com os padrões estaduais antes da emissão de licenças. De um modo geral são fixadas restrições diversas para minimizar os impactos negativos que tais investimentos implicam, restrições do tipo financeiro, energético, ambiental, uso de recursos (nomeadamente água), ruído, protecção de infraestruturas, apoios sociais, etc.

Acrescente-se, contudo, que, segundo alguns especialistas, o principal problema é que não existe capacidade nas redes eléctricas para abastecer centros de dados com procura crescente e as restantes necessidades, tanto mais que, a juntar a isso, existe a pretensão de tornar tudo eléctrico – veículos eléctricos, bombas de calor, ar condicionado, aquecimento eléctrico e indústria -, ingredientes suficientes para alimentar a combustão da contestação.

A juntar às dificuldades físicas resultantes de os centros de dados de IA estarem a ser construídos a uma velocidade que supera largamente o tempo necessário para expandir linhas de alta tensão ou construir novas centrais elétricas, temos o conflito com as outras prioridades, um dilema difícil de gerir e há quem faça a pergunta simples de resposta não tão simples: deve a eletricidade disponível ser utilizada para construir mais habitação, ou deve ser canalizada para alimentar centros de dados que sustentam a economia digital e a inteligência artificial?

Finalmente, a transição energética afinal enfrenta desafios físicos tecnológicos, ambientais e sociais que, a juntar aos problemas anteriores, novos estão a surgir com o desenvolvimento da IA: eletricidade suficiente, redes de transporte de energia, terrenos adequados, sistemas de arrefecimento, aceitação por parte das comunidades locais.

Terminamos com uma pergunta que, talvez, ajude a explicar o relativo fracasso da chamada transição energética: como conciliar o crescimento da economia digital com as necessidades de habitação, ambiente e energia para uma economia sem carbono?

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Notas

[1] Por curiosidade, em Portugal, a entidade promotora é a Porto Editora, e, em 2025, a palavra escolhida foi Apagão. Por exemplo, a Merriam Webseter, a mais antiga editora americana de dicionários e livros de referência, escolheu, no mesmo ano, a palavra Slop, conteúdo de baixa qualidade gerado por IA, isto é, lixo digital.

[2] Como se disse, a utilização das chamadas renováveis “tradicionais”, como a biomassa, eólica dos moinhos e das caravelas, energia da água, principalmente, é muito antiga.

[3] Segundo o National Energy System Operator (NESO), só na Grã-Bretanha os centros de dados consumiram cerca de 7,6 TWh em 2025 e até 2050 poderão consumir 71 TWh, ou seja, quase dez vezes mais. A nível global, os valores são infinitamente superiores. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o consumo mundial dos centros de dados ronda os 415 TWh anuais. Estima-se que a procura global em 2030 atinja os 945 TWh e, até 2050, as projeções globais apontam para valores acima dos 2 300 TWh.

[4] Refira-se a esse propósito a contestação ao projecto Sofia na zona de Penamacor, ou mais recentemente a contestação à instalação de megaparques do Polvorão/Margalha (Gavião).

[5] O centralismo da Politica Energética em Portugal, ACEC – Associação Círculo de Estudos do Centralismo.

[6] O senado italiano aprovou definitivamente, por 81 votos contra 51 e sete abstenções, a lei-quadro que permite à Itália regressar à produção nuclear, quase quatro décadas depois do referendo que levou ao encerramento dos reactores existentes (Internazionale).

 


ANEXO

Nota. Em termos de fontes de energia, as três renováveis (eólica, solar e hídrica) representam, segundo o gráfico, 8,88%. Em termos de consumo final, devido à menor eficiência das restantes fontes de energia, da ordem dos 35%, em média, chegaríamos a valores na faixa dos 25%, para as renováveis, que é o valor habitualmente referido, para 2025, na União Europeia.

 

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