Abacate no Alentejo: oportunidade económica ou risco ambiental? – por Carlos Pereira Martins

Abacate no Alentejo: oportunidade económica ou risco ambiental?

por Carlos Pereira Martins

 

O debate sobre o abacate no Alentejo merece alguma serenidade. Há razões científicas para preocupação, sobretudo com a água, mas também há argumentos económicos que explicam por que razão alguns agricultores o estão a plantar. A questão não deve ser colocada simplesmente como «abacate mau, oliveira boa». A comparação tem de considerar água disponível, solo, localização, produtividade, preço, emprego, biodiversidade e horizonte económico.

 

Abacate no Alentejo: oportunidade económica ou risco ambiental?

O abacate tornou-se uma cultura agrícola de elevado interesse económico porque existe uma procura internacional forte e relativamente estável. Para um agricultor, uma cultura não é escolhida apenas pela sua tradição: é escolhida também pela capacidade de gerar rendimento, pela produtividade por hectare, pelos custos de produção e pela possibilidade de comercialização. Nesse aspecto, o abacate pode ser atractivo.

Mas o Alentejo tem uma característica que não pode ser ignorada: a água é o factor limitante. E é precisamente aqui que começa a verdadeira discussão.

O abacate é uma cultura exigente em água e particularmente sensível ao stress hídrico. Isso não significa que qualquer abacateiro seja necessariamente um desastre ambiental; significa que a sua sustentabilidade depende muito mais da disponibilidade e da gestão da água do que de uma simples comparação entre espécies. A própria FAO tem vindo a estudar as pegadas hídrica e carbónica das cadeias de produção de abacate, precisamente porque a expansão desta cultura levanta questões sobre pressão sobre os recursos hídricos. 

E há uma questão particularmente importante: não é correcto dizer simplesmente que o abacate «gasta X vezes mais água do que a oliveira», porque o consumo depende da variedade, densidade de plantação, idade das árvores, tipo de solo, clima, produtividade e método de rega. Até o olival intensivo alentejano, muitas vezes apresentado como cultura de menor exigência hídrica, utiliza quantidades consideráveis de água. Um estudo realizado perto de Évora encontrou necessidades de rega de aproximadamente 3.500–4.000 m³/ha para um olival adulto irrigado em plena satisfação das necessidades hídricas. 

Por outro lado, dados divulgados pela Rede Rural Nacional apontam para um consumo médio de aproximadamente 2.750 m³/ha no olival alentejano, mostrando que a própria oliveira deixou há muito de ser, em muitas explorações modernas, exclusivamente uma cultura de sequeiro. 

Isto é importante porque desmonta uma ideia demasiado simples: não existe, por natureza, uma cultura «ecológica» e outra «gastadora de água». Existe uma determinada cultura, instalada num determinado território, com determinada densidade e sujeita a determinada gestão da água.

E a oliveira?

in: Portal Agronegócios.eu

A oliveira tem, evidentemente, vantagens extraordinárias no Alentejo. Está perfeitamente adaptada ao clima mediterrânico, tolera períodos de seca e constitui uma cultura profundamente integrada na paisagem, na economia e na identidade regional.

Mas também o olival mudou radicalmente.

A expansão dos sistemas intensivos e superintensivos aumentou enormemente a produtividade por hectare, mas introduziu uma agricultura mais dependente de água, fertilizantes, mecanização e investimento. Estudos recentes continuam a investigar precisamente como tornar estes sistemas mais eficientes na utilização da água perante as alterações climáticas. 

Aliás, há um paradoxo interessante: a oliveira é resistente à seca, mas o olival economicamente intensivo procura água para produzir muito mais.

Um estudo sobre o futuro do olival alentejano concluiu que, sem adaptação, as alterações climáticas poderão provocar reduções significativas das produtividades; a rega pode compensar parte importante dessas perdas, embora à custa de uma maior pressão sobre recursos hídricos que já são escassos. 

Então, qual é verdadeiramente o problema do abacate?

Abacate pronto para consumo
in: https://plantae.garden/pt/

Não é o abacate enquanto fruto.

É a possibilidade de transformar uma cultura economicamente interessante numa monocultura instalada em locais onde a água disponível não permite garantir a sustentabilidade a longo prazo.

Se uma exploração dispõe de água devidamente autorizada, recurso sustentável, boa qualidade de solo, rega gota-a-gota eficiente, monitorização da humidade e gestão rigorosa das necessidades da planta, a discussão é uma.

Se, pelo contrário, se instala uma cultura muito exigente em água numa zona já sujeita a forte pressão hídrica, com recurso excessivo a águas subterrâneas, a discussão é completamente diferente.

E há ainda outros aspectos: monocultura, perda de diversidade agrícola, alteração da paisagem, erosão, utilização de fertilizantes e pesticidas e eventual pressão sobre aquíferos e ecossistemas.

Há, contudo, uma questão económica que não devemos esquecer

Também seria errado defender que o Alentejo deve permanecer agrícola exactamente como era há cinquenta anos.

A agricultura tem de produzir rendimento. Sem rendimento, o território perde agricultores, envelhece, abandona terras e aumenta o risco de incêndio e de degradação rural.

O verdadeiro problema económico é, portanto, qual é a combinação de culturas que produz maior valor económico e social por unidade de água e por hectare, e não simplesmente qual produz mais toneladas.

É aqui que a discussão se torna muito interessante.

Uma cultura que produza 10.000 euros por hectare gastando 5.000 m³ de água não deve necessariamente ser considerada melhor ou pior do que outra que produza 6.000 euros gastando 2.000 m³. Temos de calcular o valor económico criado por unidade de água, além do emprego, valor acrescentado, exportações e efeitos ambientais.

E talvez a resposta não seja escolher entre abacate e oliveira

O futuro agrícola do Alentejo poderá estar precisamente na diversificação.

Olival, vinha, amendoal, hortícolas, cereais, pecuária extensiva, culturas permanentes e, em determinadas zonas e condições, abacateiros, podem coexistir.

A própria Fundação Calouste Gulbenkian está actualmente a desenvolver trabalho sobre eficiência da rega no abacate no Alentejo Litoral, utilizando sensores para medir humidade do solo, estado das plantas e necessidades hídricas. 

Isto aponta para uma conclusão importante: não devemos discutir a agricultura do futuro com os critérios agrícolas do passado, mas também não podemos confundir inovação com licença para consumir recursos naturais sem limite.

O princípio deveria ser simples: cada cultura deve ser colocada onde é agronomicamente adequada, utilizando apenas a água que o território pode suportar, e deve ser avaliada pelo valor económico, social e ambiental que produz.

Assim, criticar o abacate não é necessariamente ser contra a agricultura moderna. E defender o abacate não é necessariamente desprezar o ambiente.

A verdadeira pergunta que o Alentejo deve fazer é outra:

Que agricultura queremos para um território cada vez mais quente e seco, capaz de produzir riqueza sem gastar hoje os recursos que farão falta amanhã?

Essa é uma discussão muito mais séria — e muito mais útil — do que a guerra entre o abacate e a oliveira.

Abacate no Alentejo: emprego, ambiente e território

A expansão do abacate pode ter um efeito positivo sobre o emprego, sobretudo porque é uma cultura de maior valor económico e que exige acompanhamento técnico, rega, poda, colheita, selecção, embalagem e comercialização. Em regiões rurais onde existe despovoamento e envelhecimento da população, culturas de maior valor acrescentado podem contribuir para manter actividade económica e criar emprego directo e indirecto.

Mas é preciso distinguir quantidade de emprego de qualidade e permanência do emprego. Uma exploração altamente mecanizada pode gerar bastante valor económico sem necessariamente criar muitos postos de trabalho permanentes. Pelo contrário, actividades como viveiros, manutenção, assistência técnica, transformação, embalagem, logística e comercialização podem multiplicar o impacto económico para além da própria exploração agrícola.

O olival moderno apresenta uma situação semelhante. O olival intensivo e superintensivo permite grandes produtividades e elevada mecanização, mas reduz a necessidade de mão-de-obra por unidade de produção. Portanto, não basta comparar culturas pelo número bruto de trabalhadores: importa saber quanto emprego criam por hectare, por milhão de euros de produção e, sobretudo, que tipo de emprego geram.

O problema ambiental é mais complexo

No ambiente, a água é apenas uma das variáveis.

O abacate necessita de rega regular e, numa região como o Alentejo, isso coloca uma questão fundamental: de onde vem a água e qual é a capacidade de renovação desse recurso?

Uma cultura pode ser tecnicamente eficiente na utilização da água e, simultaneamente, ser inadequada para determinado território se a água disponível for insuficiente. Por isso, a sustentabilidade deve ser avaliada ao nível da bacia hidrográfica e não apenas da parcela agrícola.

Há ainda outros impactos a considerar:

  • consumo de água e pressão sobre aquíferos;
  • alteração da paisagem agrícola;
  • perda de diversidade quando há substituição de várias culturas por monocultura;
  • utilização de fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos;
  • erosão e degradação do solo, dependendo das práticas utilizadas;
  • consumo energético associado à bombagem e distribuição da água;
  • transporte e cadeia de frio para exportação.

Mas também existem possíveis benefícios. Uma plantação permanente pode contribuir para armazenamento de carbono no solo e na biomassa, reduzir determinados processos erosivos quando o solo é correctamente manejado e criar uma actividade agrícola economicamente viável numa região rural. O resultado depende fortemente do sistema de produção.

E a biodiversidade?

Aqui merece atenção especial a comparação com o olival intensivo.

Não é correcto imaginar que um olival é necessariamente muito favorável à biodiversidade. Um olival superintensivo, com árvores muito próximas, mobilização frequente do solo e reduzida vegetação espontânea, pode também apresentar menor diversidade ecológica do que um mosaico agrícola tradicional.

Da mesma forma, uma plantação de abacate não tem necessariamente o mesmo impacto ambiental em todos os lugares.

Uma exploração que preserve sebes, galerias ripícolas, zonas de vegetação natural, corredores ecológicos e cobertura vegetal do solo será ambientalmente diferente de uma monocultura que elimine praticamente toda a vegetação entre árvores.

O ponto essencial: o valor da água

Há uma forma particularmente interessante de olhar para esta questão.

Em vez de perguntar:

«O abacate é melhor ou pior do que a oliveira?»

deveríamos perguntar:

«Qual das culturas consegue produzir mais valor económico e social por unidade de água, mantendo a sustentabilidade ecológica do território?»

Essa métrica muda completamente a discussão.

E acrescentaria outra:

«Quanto emprego e valor acrescentado local produz cada metro cúbico de água utilizado?»

Porque uma agricultura moderna não deve ser avaliada apenas pelos euros que produz por hectare. Deve ser avaliada pelos euros, empregos, alimentos e valor territorial que consegue produzir sem ultrapassar a capacidade ecológica do território.

Uma conclusão equilibrada

O abacate pode trazer investimento, exportações, actividade económica e emprego para algumas zonas do Alentejo. Mas pode também aumentar a pressão sobre um recurso — a água — que será provavelmente cada vez mais precioso.

A oliveira tem a vantagem de uma extraordinária adaptação ao clima mediterrânico e uma enorme importância económica e cultural, mas o olival intensivo e superintensivo também consome água, utiliza recursos e pode reduzir biodiversidade quando mal gerido.

Por isso, o problema não está simplesmente no abacate, nem a solução está simplesmente na oliveira.

O verdadeiro desafio para o Alentejo é construir uma agricultura diversificada, tecnologicamente eficiente e ambientalmente responsável, na qual a escolha das culturas tenha em conta simultaneamente água, emprego, rendimento, biodiversidade, solo, clima e economia local.

E talvez a pergunta mais importante seja esta:

Não devemos perguntar apenas quanto dinheiro uma cultura produz por hectare. Devemos perguntar quanto valor — económico, social e ambiental — consegue produzir por cada litro de água que o Alentejo lhe pode oferecer.

 

 

Leave a Reply