VENHO DE UM JARDIM DISTANTE – por Adão Cruz

VENHO DE UM JARDIM DISTANTE

por Adão Cruz

 

Pintura de Adão Cruz

 

Venho de um jardim distante

florido de memórias ou de um sonho qualquer

entre risos e lágrimas caindo de um céu de chumbo

ou de um céu de magnólias.

Venho do seio do orvalho da madrugada

num punhado de vida libertada em qualquer rumor de passos

brincando nos telhados acesos pela luz do dia.

Venho de um jardim distante

onde grinaldas de flores abrilhantam a festa do azul dos tempos

no incêndio do crepúsculo

ou no ardor da manhã do meu berço de mistério e universo.

Venho das esquinas do tempo

em recordações avulsas ao sabor das pontes da vida

cavalgando o vento que assobia nas ruas estreitas

mordendo as pedras com punhais de silêncio.

De onde venho ninguém sabe…

Venho talvez da intimidade salgada do mar

ou de um jardim distante com um rio de passos e palavras

e pedaços de sol num rosário de pérolas

abrindo a neblina do nascer da vida.

Venho… quem sabe…

da nudez adormecida no silêncio do tempo

destinado à simplicidade da morte

pelo sinuoso caminho das recordações perdidas

no chão fundo das angústias ou nos retalhos da esperança.

Venho talvez das sombrias entranhas

prenhes de fulvos e ilusórios tesouros

que emergem do fundo do mar sublimados de luz

à superfície das águas bordadas de espuma.

Ou então…

Ou então serei filho de um mundo sem resposta

sujeito a ventos e marés que enrugam as veias

e quebram o voo das artérias

rompendo o fluir da vida no interior do sonho.

Não.

Eu não venho de lugar algum fora da mente

nem trago comigo a erva daninha.

Eu venho de um jardim distante entre a razão e o sonho

onde o pensamento se agiganta contra as trevas e a ilusão.

 

 

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