Seleção de Júlio Marques Mota
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PISA 2025, um retrato fiel: mudar as mentalidades é urgente
Publicado por
em 23 de Setembro de 2026 (original aqui)
Como comprovam o PISA e os resultados catastróficos dos estudantes, o que temos como política neoliberal, com o aval da OCDE e as suas recomendações, fez-nos chegar aqui. Urge mudar de mentalidades.
Os resultados do PISA (https://www.publico.pt/2026/09/08/sociedade/noticia/alunosocde-voltam-piorar-portugal-regrediuse-20-anos-matematica-leitura-2187133) têm levado, por estes dias, às mais diversas declarações vindas dos mais diversos espectros da política e da sociedade civil. Nos debates televisivos, ministros que foram responsáveis pela governação da pasta educativa apontaram erros, dificuldades e, como se diz, desafios presentes e futuros. Entre a perspectiva de Nuno Crato, que denuncia a falta de exigência relativamente à avaliação dos estudantes portugueses no consulado quer de Tiago Brandão Rodrigues, quer, depois, no de João Costa, e o mea culpa deste último (https://www.publico.pt/2026/09/08/sociedade/noticia/joao-costa-alega-descidaresultados-pisa-segue-tendencia-global-nao-foge-responsabilidades-2187417), o qual, secretário de Estado e depois ministro, tem sido acusado de ter abandonado a anterior política de exigência que Crato incutiu no sistema, entre estas e outras perspectivas, uma há que começa a ganhar corpo na argumentação de muitos. Refiro-me, claro está, ao que — há mais de 15 anos — venho apontando como uma das principais causas da nossa decadência educativa: não há, independentemente das revisões curriculares que se possam levar a cabo, uma cultura humanista na escola e na universidade. Indicarei, de forma breve e incisiva, quatro pontos, ou quatro aspectos de natureza mental, isto é, comportamental (em que valores e visão do mundo, preconceitos e hábitos arreigados se fundem e se perpetuam), que, da tutela aos estudantes, passando pelos professores e até aos pais, me parecem merecer o debate aprofundado em torno do que somos, nós, portugueses, e do para que somos.
Ponto 1 – Que ideia há de estudo e de escola? Esta não é uma pergunta retórica. Como professor, muitas vezes é isso que me pergunto. Que ideia de escola há hoje entre a massa de alunos que a frequentam — sem esforço, sem nada lerem, alienados pelas redes sociais e brutalizados pela sociedade que estamos, a minha geração, a construir — e a massa de docentes e de funcionários que na escola têm o seu posto de trabalho? Não vou falar a partir de percepções, mas tendo em conta factos, constatações.
Os estudantes e os pais, bem como muitos professores, não têm da escola senão uma visão instrumental, funcional. Para a maioria dos pais, a escola é o lugar onde deixam os filhos para mais um dia de trabalho. Depósito, ou armazém, a escola é, ainda, um lugar com certa segurança, não obstante a socialização violenta, a alienação e a formatação que todos observamos e que são indesmentíveis. Uma espécie de “mal necessário”, eis como muitos, pais e filhos, sem o dizerem, vêem e vivem a escola. Por via de aulas “secantes”, de que está ausente quer a curiosidade de quem estuda e em que avultam, não raro, o cansaço e a falta de cultura de quem ensina, o aluno português vive a escola a dois níveis: a) a escola é uma realidade com que tem de conviver, aturando “stôres” que detesta, com uma ou outra excepção; a escola é o lugar da repetição das aprendizagens até à exaustão, aulas-fábrica de onde todos saem iguais a todos os outros; b) a escola, para o aluno português, não significa, salvo quando tem um ou outro professor mais exigente, trabalho e esforço, descoberta e prazer. É o lugar onde se está com os amigos, onde o aluno se diverte nos intervalos, ora aprendendo a socialização positiva por via de amizades saudáveis, ora aprendendo outra forma de socialização, negativa, por via de relações que se traduzem em comportamentos disruptivos e indisciplina.
No fundo, por muito que o discurso político queira dourar a pílula, a escola e mesmo a universidade não são vividas como lugares onde a curiosidade científica e a humanização são consubstanciais a um programa curricular. A relação pedagógica entre professor e alunos, seja por causa do excesso de ecrãs, seja por causa da sociedade violenta e individualista em que todos vivemos, seja ainda pelo peso errado de avaliações maquinais e condicionantes da liberdade e da consciência docentes, é uma relação minada pela artificialidade, pelo facilitismo (o professor não exige para, assim, não ser confrontado com a eventual violência de um pai ou de um aluno, e não exige porque sabe que até o mais indigente dos alunos tem de transitar de ano). O que acontece hoje é que o professor exigente, culto, esse, é até perseguido pelos colegas e malquisto por muitos, preferindo-se o porreiraço, o ignorante que está na moda, o fanático docente que domina o digital e é, por isso, muito considerado no seio da comunidade escolar. António Sérgio, Mário Dionísio ou Maria Isabel Aboim Inglez jamais teriam lugar na escola portuguesa neste tempo de chacais…
Ponto 2 – A escola para os professores e as práticas. Não obstante o trabalho hercúleo de muitos professores, não obstante o papel que a escola tem hoje, e que é semelhante ao papel de instituições de inserção social, o que se exige aos professores é que sejam o pai e a mãe que crianças e adolescentes não têm. É um lugar-comum: a família educa, a escola e a universidade formam. Nem uma nem outra coisa acontece hoje no sistema de ensino, porque a escola é uma extensão da sociedade cruel, da competição desenfreada e estupidificante em que estamos a criar crianças e adolescentes.
A escola, para a maioria dos professores, é, em função da burocratização absoluta (o digital avolumou a burocracia), dos baixos salários, de anos e anos de desmantelamento do edifício público de educação, um pesadelo de relações humanas. Desde o consulado de Maria de Lurdes Rodrigues, a escola proletarizou-se: mil documentos para justificar o injustificável; um estatuto do aluno que permite toda a espécie de ofensas aos professores; a lógica perversa da Avaliação do Desempenho Docente, com um regime de quotas que impede a justiça na atribuição das classificações de Excelente (reservadas só a uns poucos e sempre em função do tempo de serviço e não da competência didácticopedagógica); um sem-número de indicações ministeriais (o projecto MAIA (https://www.publico.pt/2024/09/11/sociedade/noticia/velocidade-leitura-fim-projectomaia-educacao-novo-mudanca-2103824), absurdo, irrealizável, desnecessário) que asfixiam práticas de ensino; mil e um projectos que retiram horas e horas à prática de aulas sérias, sustentadas no estudo e na análise de textos das mais diversas áreas — tudo isto é verdade na escola portuguesa.
Desde 2016 — e Nuno Crato tem razão —, sem exames no final de cada ciclo, o desleixo universalizou-se. Urge que se realizem exames exigentes (fim aos exames com V/F, e cruzinhas, e escolhas múltiplas!), e urgente é, em face da desmemória e do revisionismo, da ascensão dos neofascismos, em face da incultura geral, a presença das humanidades e das artes. Urge fazer do professor um verdadeiro agente multiplicador de cultura e não um mero funcionário ao serviço do Estado, um funcionário público acrítico e acéfalo. Aulas com livros e não com ecrãs, formação séria de professores e estágios remunerados, com professores-estagiários orientados pelos que, numa escola, são considerados os mais competentes (basta de amiguismos nos estágios e basta de a velhice ser um critério: o único critério é a competência científica e a dimensão humana do professor orientador de estágios), não seriam também princípios a seguir?
Pontos 3 e 4 – A escola para a tutela e o desmantelamento da escola pública em tempo de trumpismo educativo. Como provam o fiasco e o caos da avaliação digital dos exames nacionais (https://www.publico.pt/2026/07/01/sociedade/noticia/cartoonrepetido-auditorias-caos-classificacao-cronologia-falhas-exames-nacionais-2179984) e este início de ano lectivo, com milhares de alunos sem escola (https://www.publico.pt/2026/09/14/sociedade/noticia/reuniao-emergencia-encontrasolucao-escolas-lisboa-alargam-turmas-acomodar-alunos-vaga-2188039) e milhares de horários por preencher (https://www.publico.pt/2026/09/07/sociedade/noticia/ministroconfirma-ha-2000-horarios-preencher-escolas-2187310); como provam o fim da Dgeste e a estúpida reforma do actual ministro ao sabor da agenda do Mais Liberdade, sua alma mater, viveiro do obscurantismo na educação em nome dos mamutes digitais e seus negócios; e como comprovam o PISA e os resultados catastróficos dos estudantes, o que temos como política neoliberal, com o aval da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e as suas recomendações nos últimos dez, 15 anos, fez-nos chegar aqui. Urge mudar de mentalidade.
Pergunto-me que experiência de educação “no terreno” — nas escolas, do 1.º ciclo ao secundário — têm os sucessivos ministros e os sucessivos secretários de Estado. Uma equipa ministerial deveria zelar pelo modelo de gestão democrática das escolas, e não fazer uma política de ingerências. Nos Conselhos Gerais não podem estar empresários ou gestores. Nem pode haver ingerência dos partidos, por via de representação nesses conselhos. Isso espartilha o espírito democrático e desautoriza os agentes educativos por excelência: os professores. Deveriam ser os professores a elegerem, de entre os pares, as direcções e nenhum director pode estar ao serviço do ministro x ou y. A educação não é doutrinação.
Nota final: sem valorização a sério do trabalho docente, nada mudará. Quando a palavra central é “sucesso” e não “consciência”, a escola prepara soldados para o futuro de guerra que aí está, jamais cidadãos dignos desse nome. E fartamo-nos de falar de cidadania… O PISA e as políticas da OCDE visam o negócio, não o humanismo.
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António Carlos Cortez (Lisboa, 1976). Doutorado em Ciências da Literatura pela Universidade do Minho, é investigador do CEHUM (Centro de Estudos Humanísticos) pela mesma instituição. É professor de Português e de Literatura Portuguesa, poeta, ensaísta e crítico literário. Escreve no Jornal de Letras, desde 2004, assinando a coluna de crítica «Palavra de Poesia». Escreve também regularmente para o Público, o Diário de Notícias e o Semanário Sol. Foi Consultor do Plano Nacional de Leitura (2009-2015). Organizou e coordenou o volume de ensaios do Plano Nacional das Artes: Artes e Educação (IN-CM, 2024). Na Caminho publicou, em 2022, Um Dia Lusíada (romance) e, em 2024, Cenas Portuguesas (contos). Condor é o seu novo livro de poemas, celebrando 25 anos de poesia.



