O cérebro humano é, porventura, o órgão mais extraordinário de que temos conhecimento. Mais do que complexo, é um universo de possibilidades, uma estrutura admiravelmente sofisticada, cuja capacidade de aprender, interpretar, sentir, recordar, imaginar e decidir continua a surpreender a própria ciência. Conhecemos já muito do seu funcionamento, mas estamos longe de lhe desvendar todos os segredos. É nele que se cruzam a razão e a emoção, a experiência e a expectativa, a memória e o esquecimento, a consciência e os mecanismos, tantas vezes inconscientes, que influenciam o nosso comportamento.
Não nascemos, porém, com uma maneira definitiva de olhar o mundo. Vamos construindo-a ao longo da vida, moldados pela educação, pelo ambiente familiar, pela sociedade em que crescemos, pelas experiências que nos marcam, pelas pessoas que encontramos e também pelas circunstâncias que nos ferem. Os afectos, os medos, as frustrações, os recalcamentos e as ambições participam nessa construção. Tanto podem fazer florescer sentimentos da mais elevada nobreza, como a solidariedade, a generosidade e a fraternidade, como alimentar outros menos dignos, entre os quais a inveja, o ressentimento, o ódio e o desejo de vingança.
É assim que, pouco a pouco, podemos construir uma espécie de couraça intelectual e emocional, uma estrutura de convicções que, em determinadas circunstâncias, deixa de nos proteger e começa a aprisionar-nos. As ideias, inicialmente adquiridas como referências para compreender a realidade, transformam-se, por vezes, em certezas inquestionáveis. Deixamos de as submeter ao exame da razão e passamos a submeter a própria realidade à obrigação de confirmar aquilo em que acreditamos.
Eis um dos grandes perigos da condição humana: não é apenas possível enganarmo-nos; é possível convencermo-nos tão profundamente de uma falsidade que acabamos por a defender como verdade absoluta. Mais grave ainda, podemos perder a capacidade de reconhecer os sinais que contrariam as nossas convicções. Seleccionamos aquilo que queremos ouvir, afastamos o que nos incomoda e atribuímos intenções condenáveis a quem pensa de maneira diferente.
A partir daí, instala-se uma forma de cegueira que nem sempre é reconhecida por quem dela sofre. O adversário deixa de ser alguém com uma opinião diferente e passa a ser alguém que julgamos necessário combater. A divergência transforma-se em ofensa, a crítica em hostilidade e a discussão em confronto pessoal. Chega-se, por vezes, ao extremo de romper amizades antigas, afastar familiares e destruir relações construídas ao longo de décadas, não por uma incompatibilidade de carácter ou por uma ofensa real, mas pela incapacidade de aceitar que duas pessoas que se estimam possam interpretar diferentemente o mundo.
Se isto acontece no espaço íntimo das relações humanas, imagine-se o que pode suceder quando o mesmo mecanismo é deliberadamente explorado por quem dispõe de poder político, económico, religioso ou mediático.
A História oferece-nos exemplos demasiado eloquentes. Quando o poder se apropria das ideias, manipula os medos, fabrica inimigos e transforma a propaganda em instrumento de condicionamento colectivo, deixa de procurar cidadãos capazes de pensar e passa a desejar populações disponíveis para acreditar. A repetição sistemática de uma falsidade, a simplificação de problemas complexos, a exploração de ressentimentos e a divisão da sociedade entre os que estão connosco e os que estão contra nós podem produzir consequências devastadoras. É assim que se alimentam fanatismos, se legitimam perseguições, se enfraquecem democracias e se abrem caminhos para conflitos sociais e guerras.
Mas haverá uma maneira de evitar esta formatação das consciências e preservar a liberdade individual de pensar?
Não existe uma fórmula milagrosa, nem um caminho único. Existe, contudo, um princípio fundamental: educar para a liberdade de pensamento, e não para a obediência intelectual.
Esse caminho começa na educação, desde a infância, ensinando a fazer perguntas, a procurar provas, a distinguir factos de opiniões, a reconhecer manipulações e a aceitar que mudar de opinião, perante argumentos melhores, não constitui uma fraqueza, mas uma manifestação de inteligência e honestidade.
Continua na família e na sociedade, através do exemplo e do diálogo. É indispensável aprender a escutar sem preparar imediatamente uma resposta, a discordar sem humilhar e a reconhecer no outro um interlocutor, mesmo quando as suas ideias nos parecem profundamente erradas. A tolerância não exige concordância, tal como o respeito não obriga à renúncia das nossas convicções.
É igualmente necessário cultivar o pensamento crítico, desconfiar das verdades demasiado fáceis, confrontar fontes de informação, procurar perspectivas diferentes e resistir à tentação de acreditar apenas naquilo que confirma as nossas preferências. Uma pessoa verdadeiramente livre não é aquela que nunca tem convicções, mas aquela que não permite que as suas convicções a dispensem de pensar.
Nas sociedades democráticas, esta responsabilidade deve ser acompanhada por instituições independentes, liberdade de imprensa, pluralismo, cultura científica, justiça autónoma e cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres. O poder deve ser escrutinado, qualquer que seja a sua origem ou orientação, porque nenhuma autoridade pode reclamar para si o monopólio da verdade.
Talvez o exercício mais difícil seja, afinal, o de cada um de nós olhar para dentro de si próprio e admitir que também pode estar errado. É muito mais confortável encontrar defeitos nos outros do que reconhecer os nossos. É mais fácil defender uma certeza do que enfrentar uma dúvida. Mas é precisamente nessa disponibilidade para questionar as próprias ideias que começa a verdadeira emancipação intelectual.
Não devemos confundir convicção com fanatismo, coerência com obstinação, nem fidelidade aos princípios com incapacidade de os rever. As convicções são importantes quando iluminam o caminho; tornam-se perigosas quando nos impedem de ver tudo o que existe para além delas.
Afinal, talvez a maior conquista da inteligência humana não seja a capacidade de acumular conhecimentos, mas a humildade de reconhecer quanto ainda temos para aprender.
E talvez a melhor vacina contra a manipulação das consciências seja uma educação que ensine a pensar, uma sociedade que permita questionar e uma cultura democrática que não tenha medo da diferença.
Porque uma sociedade de cidadãos livres não se constrói com milhões de pessoas a pensar da mesma maneira, mas com milhões de pessoas capazes de pensar por si próprias, sem deixarem de respeitar quem pensa de maneira diferente.
E termino com uma ideia que me parece essencial: não precisamos de pensar todos da mesma maneira para podermos caminhar juntos. Precisamos, isso sim, de preservar a liberdade de pensar, a coragem de duvidar e a dignidade de continuar a reconhecer no outro um ser humano, mesmo quando as nossas ideias nos separam.