UTOPIA E DISTOPIA NO UNIVERSO POÉTICO DO NEO-REALISMO (NOTÍCIAS DO BLOQUEIO, DE EGITO GONÇALVES E A INVENÇÃO DO AMOR, DE DANIEL FILIPE) – 2- por Carlos Loures

(Continuação)

A utopia

A utopia constrói-se por antinomia relativamente a uma dada realidade. É um sonho onde a realidade é idealmente corrigida. Configurando o conceito de perfeição de uma época, descreve um lugar ou um estado onde a organização é modelar. Não é por acaso que o Renascimento, apoiando-se na Antiguidade Clássica, neste caso em Platão, criou este tipo de literatura onde sociedades ideais eram contrapostas à imperfeição da realidade da época – estruturas sociais à beira da ruptura, flageladas pela barbárie das guerras religiosas. Ao mesmo tempo, as navegações continuavam a descobrir terras ignotas, o mundo alargava-se.

Quem poderia impedir que, perante o caos, a injustiça, a imperfeição, do mundo real, se sonhasse que, algures, numa ilha ou continente por descobrir, existia a civilização perfeita? E quando todo o planeta foi sendo conhecido, a utopia não morreu. Por exemplo, Savinien Cyrano de Bergerac (1619-1655), idealizou a vida na Lua e no Sol – História Cómica dos Estados e Impérios da Lua (1657), seguida de História Cómica dos Estados e Impérios do Sol (1662). Foi depois Jonathan Swift (1667-1745), com As Viagens de Gulliver (1726), que tem sido adaptada como história infantil, mas que é principalmente uma violenta sátira à sociedade britânica da época. O próprio Jules Verne (1828-1905) criou utopias – mundos subaquáticos, intraterrestres, extraterrestres.

O conceito de utopia é conhecido pela generalidade das pessoas e usado com frequência na linguagem coloquial. Utopia, como se sabe, foi o nome dado a um país imaginário pelo humanista Thomas More (1480-1535) e o título da obra publicada em 1516. Usou os elementos gregos οὐ, (não) e τόπος, (lugar), de onde temos não-lugar ou lugar não existente. Na mesma esteira vai A Nova Atlântida (New Atlantis), de Francis Bacon (1561-1626), editada em 1627. Ambas se inspiram em A República, de Platão. Outra famosa utopia foi a de Tommaso Campanella (1568-1639) na sua A Cidade do Sol (Civitas solis), publicada em 1602. Mas de Campanella voltarei adiante a falar. Utopia é, portanto, palavra com cinco séculos. O conceito que lhe é inerente está assimilado e integrado na bagagem cultural das pessoas comuns. Para quem vivia num país cinzento, num estado policial, numa ditadura liderada por um homem que, perseguindo um sonho mesquinho, moldou o país à semelhança da sua aldeia e do seminário que frequentou, as utopias eram um refúgio – para muitos o socialismo que (acreditávamos piamente) se cumpria numa vasta área do planeta, era essa fascinante utopia.

A utopia no neo-realismo português

Num certo sentido toda a arte é utopista.

O neo-realismo não foge à regra. Parece ser uma contradição, pois então realismo não é um conceito situado nos antípodas da utopia? Não recusa liminarmente a utopia, fincando os dentes na realidade crua, descrevendo-a tal e qual ela é? – Não, não é assim, pois, no meu entender, essa imagética dura e cruel tem por debaixo a esperança numa sociedade justa, na terra sem amos de que fala “A internacional”. Como num palimpsesto, raspando a tinta cinzenta que cobre a superfície, encontramos as cores vivas e luminosas da sociedade futura, a sociedade socialista, «os amanhãs que cantam», para empregar sem sorrir a expressão tão gasta e nem sempre usada com as melhores intenções.

Num exemplo, escolhido quase ao acaso, se nos detivermos no poema de Manuel da Fonseca “Domingo”, verificamos que entre os três primeiros versos, «Quando chega o domingo/faço tenção de todas as coisas mais belas/ que um homem pode fazer na vida/ », e os três últimos – «Domingo que vem,/ eu vou fazer as coisas mais belas/ que um homem pode fazer na vida», perpassa todo um universo de frustrações, oportunismos, sujeições, exploração – a sociedade capitalista descrita cruamente: «Há mais amargura nisto/ que em toda a História das Guerras,/Partindo deste princípio,/ que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,/ eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo» . O círculo, aparentemente vicioso que, com estes seis versos se abre e se fecha sobre uma realidade monótona vestindo uma sociedade injusta e mesmo antropofágica, pode ler-se uma leitura optimista – no futuro tudo será diferente.

Refiro o caso de Manuel da Fonseca porque já nos poemas do seu primeiro livro, editado em 1940, e portanto antes de a lírica surrealista ter alastrado e influenciado os neo-realistas, usava uma linguagem rica, gongoricamente ornada de metáforas que não fora influenciada por Éluard, mas por Federico García Lorca. Existe, aliás, um excelente estudo sobre a intertextualidade dos dois poetas, realizado por Manuel Simões . No pórtico desta obra surge-nos uma exemplar afirmação de Manuel da Fonseca –«O aparecimento de um escritor sem influências é anti-dialéctico por natureza».

A utopia parece-me ser uma constante na literatura e na arte neo-realistas. Utopia que, ao descrever quase sempre com crueza formal, a vida dos pobres, dos humildes, dos trabalhadores, no Portugal de Salazar, assume quase sempre um tom distópico. Embora a distopia mais não seja, a meu ver, que um pórtico para a utopia. E vice-versa.

(Continua)

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