(Conclusão)
As leis económicas correctas reconhecem que alguns grupos norte-americanos podem ser prejudicados pela dinâmica da livre-troca. Mas as leis económicas correctas justificam a palavra destruição “criadora ” por sua prova [sic] de que os ganhos dos vencedores americanos são suficiente grande para mais que compensarem os perdedores.
O último parágrafo pode ser apenas uma insinuação. Pois é absolutamente errado afirmar que o excedente dos vencedores é necessariamente superior aos prejuízos dos perdedores, como o provei na minha “Little Nobel Lecture de 1972” (1972b) “
Isto foi, senhor ministro e meu antigo aluno, o tipo de aulas que lhe leccionei e a esta situação chamava até o paradoxo de Stuart Mill à escala das nações. Ora, face ao que o senhor ministro mostra saber, há que me acusam de incompetente amigos meus como professor por tê-lo formado assim mas ser eu o causador da incompetência por si mais que uma vez afirmada é coisa que nunca assumi e nessa crítica nunca me reconheci.
A razão de isso passa por múltiplos exemplos como este, como o desta aula e, portanto, do seu comportamento, da sua formação actual, dessa, de ser acusado não posso, assim como ser responsabilizado.
Dessas aulas garantidamente não me envergonho e se ainda me apanhou a falar da formação dos preços a nível mundial ainda se lembrará (?) qual a razão por que abandonei o quadro de análise de Ricardo, e esta razão é simples, porque o teorema se esgotava num conjunto de hipóteses que o esvaziavam, hoje, de sentido económico. E é neles que os neoliberais se fundamentam. E tenho tanta razão que mais tarde, 2004, Samuelson deixa cair apenas uma hipótese também, a de que a existência de progresso técnico se dá sempre no produto em que o país se especializa e os resultados são os que se conhecem: uma fortíssima crítica à política das deslocalizações feita por aquele que durante anos foi o chefe de fila dos neoliberais no que toca à globalização, mantendo ainda “ In this paper, along classical lines, all my free trade equilibria are analyzed under the assumptions of zero net capital movements.” Pela nossa parte se bem se lembra ficávamos pela situaçãoem que Portugal se especializa em tecido para ganhar margem nas taxas de crescimento da produtividade e a isso eu chamava o exemplo de Ricardo ao contrário. Depois passávamos para a análise neo – ricardiana do comércio internacional. Lembra-se?
Mas voltemos ainda ao quadro de Ricardo-Stuart Mill. E se o progresso técnico se desse em Portugal, país menos evoluído, mas no bem em que não está especializado, hipótese contrária ao pressuposto no modelo? É esta hipótese que Paul Samuelson levanta tomando como referência os Estados Unidos e a China. E a que conclusão chega? Leia-se então:
O que é que nos diz a aritmética Ricardo-Mill sobre os efeitos que de modo realista se pode esperar a longo prazo para os Estados Unidos a partir de tais externalizações? Considerámos que as novas produtividades do ponto de vista de Ricardo implicam que, com esta invenção no exterior a dar à China algumas das vantagens comparativas que tinham pertencido aos Estados Unidos, podem levar a que nos Estados Unidos haja uma perda permanente do rendimento per capita. E, pense-se bem, isso poderia não ser um efeito de um impacto de curto prazo. Ceteris paribus, pode ser uma perda permanente. (“Permanente” significa que permanece, enquanto as novas tecnologias instaladas continuam a manter-se.)
Na análise ricardiana do equilíbrio, nunca há qualquer desemprego no longo prazo. Portanto, quer-se com isto dizer que, por hipótese, a prazo não haverá postos de trabalho perdidos, apenas que a nova situação do mercado de trabalho assalariado se equilibra com a redução dos salários reais dada por esta versão do ajustamento dinâmico do livre comércio. (Deve-se aqui esquecer os ganhos nos Estados pelas importações mais baratas? Não. Não há ganhos líquidos, há sobretudo agora novas perdas derivadas dos termos de troca desfavoráveis para os EUA.).”
Mesmo respeitando muitas das hipóteses heróicas de Ricardo, abandonando uma apenas, também ele, Samuelson, eis pois estas as conclusões a que ele chega!
Mas Samuelson vai mais longe e considera que na sua análise ainda manteve uma hipótese que deveria ser abandonada, a da homogeneidade dos trabalhadores no espaço nacional, homogeneidade à Ricardo, como nos referimos atrás, considerando mesmo que com o seu abandono os resultados contrários às teses neoliberais a que chegou ainda viriam ampliados. E francamente vale a pena segui-la nesta longa citação:
“A minha mais importante omissão, em termos de realismo e de política, foi ter aqui tratado toda a gente em cada região como sendo trabalhadores à Ricardo diferentes mas homogéneos. Esta omissão impede a nossa análise de trabalhar com alguns casos mais realistas onde alguns americanos (capitalistas e especialistas qualificados em informática) podem estar a serem ajudados por aquilo que está a dizimar a verdadeira taxa de salário em livre-troca dos trabalhadores semiqualificados ou trabalhadores fabris a que se chamam os colarinhos azuis.
Em vez de enfraquecer as teses deste paper, a heterogeneidade dá-lhe até maior importância.
Imagine-se um cenário em que a “destruição criadora” capitalista de Schumpeter lesa uma fracção realmente ampla da população futura dos EUA e que, digamos, melhora o bem-estar de uma outra fracção populacional; e que isto acontece de tal forma que até fundamente o cálculo de que a fracção ganhadora transfira alguns dos seus ganhos e dessa forma não fique qualquer fracção populacional dos EUA como perdedora líquida da livre troca. Deverão os não-economistas aceitar isto como uma refutação convincente, se não está evidenciado que tenham sido, ou venham a ser feitas transferências orçamentais compensatórias. Maria Antonieta disse: “Deixem-nos comer bolos”. Mas a história não regista qualquer transferência de açúcar e farinha para os seus súbditos camponeses. Mesmo o sábio Dr. Greenspan, por vezes, soa a “Antonietices”. Os escritos dos economistas dos anos 1930’s – Hicks, Lerner, Kaldor, Scitovsky e outros, para não falar dos primeiros textos de J.S. Mill, Edgeworth, Pareto and Viner – fazem uma espécie de “shell game” (N.T.: jogo que usa um truque de confiança para fazer uma fraude), nos debates éticos sobre o conflito entre a eficiência e maior desigualdade.
Deixando de lado a esfera política e as questões éticas, os economistas da corrente do comércio livre não se deram bem conta das alterações drásticas nos rendimentos médios americanos e nas desigualdades entre as diferentes classes dos EUA. Como em qualquer outra sociedade, talvez um terço dos americanos não possua elevados níveis de escolaridade e não estejam suficientemente capacitados para se habilitarem a profissões especializadas. Se a imigração em massa para os EUA de trabalhadores idênticos a eles tivesse sido permitida e fosse efectivada, os economistas da moda não poderiam deixar de prever uma queda substancial dos salários do grupo dos nativos americanos, uma vez que os novos imigrantes teriam beneficiado de um aumento substancial dos seus salários em relação ao que tinham no país de origem.
Assim, em resultado da renovação que fiz em 1948-1949 e dos aperfeiçoamentos de 1919-1933 da tese de Heckscher-Ohlin da quase-igualização do factor preço pela troca apenas de mercadorias, poder-se-ia prever a sequência no fim da Segunda Guerra Mundial. Historicamente, os trabalhadores americanos tinham tido uma espécie de acesso monopolístico de facto aos superabundantes capitais e know – how (científico, engenharia e de gestão) dos EUA. Todos nós, os Ianques, por assim dizer, nascemos com colheres de prata na boca – e isso explicou de forma importante os historicamente elevados níveis de salários reais no mercado dos EUA dos (entre outros) porteiros, empregadas domésticas, donos de pequenos negócios e por aí adiante. Contudo, depois da Segunda Guerra Mundial, este know – how e capital americano começou a espalhar-se rapidamente para fora dos EUA. Isto significou que, em sentido real, as populações estrangeiras escolarizadas – primeiro na Europa Ocidental, depois através da bacia do Pacífico – podiam e genuinamente faziam o mesmo tipo de pressão competitiva sobre os rendimentos salariais da classe média baixa dos EUA que a migração em massa tinha ameaçado fazer.
Sem que seja surpresa, o sucesso do desenvolvimento de nações tais como o Japão, Hong Kong, Singapura, Taiwan, Coreia do Sul, ou mesmo a Tailândia, a Indonésia e as Filipinas, foram capazes, no final do século XX, de reduzir a distância que os separava dos Estados Unidos em termos dos seus próprios rendimentos per capita reais. A mesma coisa aconteceu na Europa Ocidental no período 1950-1980. Não nos poderemos admirar se um ou mais destes ciclistas em fuga sejam capazes de alcançar a bicicleta dos EUA e, em seguida, talvez até mesmo conseguir correr à frente desta. A Penn World Tables e estimativas semelhantes de Angus Maddison parecem não relatar que isto esteja até agora a acontecer. Será que isto possa significar ser um sinal de que as inovações originais dos Estados Unidos tal como se difundiram pelo mundo possam ter sido os factores importantes para explicar a forte diminuição do peso relativo dos Estados Unidos?
Hesita-se em afirmá-lo. Na verdade, há já alguns sinais notórios a indicar que a produtividade por hora em França ou na Alemanha esteja a ultrapassar a dos Estados Unidos Se os franceses e os alemães trabalhassem em média o mesmo número total de horas por semana e por mês as suas bicicletas estariam já a correr à frente da dos Estados Unidos. Evidentemente os gostos subjectivos podem modificar os parâmetros tecnológicos dos modelo como os de Ricardo ou semelhantes para explicar a dinâmica da estruturas actuais da economia global e de cada economia nacional.
Mesmo que as minhas hipóteses sejam exageradas, estas são o que tanto Ricardo-Mill como os modelos mais gerais na linha de Ricardo parece estar a sugerir.”
É pois de Paul Samuelson e da divisão internacional do trabalho que falaremos amanhã, com o texto de Henri Bourguinat. Curiosamente por esta via encontram-se Ricardo e Samuelson. Por esta via aqui falamos de dois homens que no fim da vida questionaram e reviram o que tinha escrito, um, Ricardo, sobre a teoria do valor-trabalho e o outro, Samuelson, sobre as vantagens do comércio internacional fundado nas vantagens comparadas. Até por isso mesmo assumem aqui uma dimensão que nada tem a ver com o espectáculo degradante que vemos hoje, em que economistas para esconderem o erro em que colectivamente participaram preferem insistir em continuar a viver nele. E senhor ministro aconselho-o a seguir o nosso blog, até porque ser-lhe oferecido um texto da McKinsey sobre crescimento e produtividade aquilo que os senhores dizem procurar quando obtêm exactamente o contrário e verá, senhor ministro, que nada do que se diz numa das catedrais do capitalismo, como é o caso da McKinsey se encontra nas vossas políticas. Se ainda for ministro e o primeiro-ministro também ele ainda estiver no activo, é um texto que lhe sugiro levar para o Conselho de Ministros e aí ser merecedor de uma leitura colectiva e atenta. Não se trata, portanto, de nenhum texto de esquerda, como deve perceber. Trata-se de perceber face à globalização quais as políticas que devem ser seguidas para que haja crescimento da produtividade, para que haja crescimento económico, trata-se de perceber também que o vosso caminho é, deste ponto de vista, exactamente o oposto e que com isso é o futuro dos nossos filhos que no altar da vossa ignorância estão a esmagar.
E como a China vem aí e a dar vida aos interruptores deste país, nesta série de textos sobre a globalização e a desindustrialização falaremos também da China, da cidade de Prato, cadinho da alta confecção italiana na mão dos chineses, falaremos da SAAB, falaremos da Foxconn e das suas largas centenas de milhares de jovens, falaremos dos suicídios da juventude chinesa que nesta trabalha, falaremos dos baixíssimos salários que permitem estes excedentes com que estão a comprar a Europa sob a bênção da Comissão Europeia e das leis da concorrência pelas quais esta bem zela.
No artigo em referência de Samuelson diz-nos ele que países de baixos salários como a China ou a Índia, que aumentaram muito rapidamente o seu potencial tecnológico têm a capacidade necessária para modificar os termos actuais do comércio internacional, têm a capacidade de introduzir baixas de rendimento per capita nos outros países, mesmo na hipótese de pleno emprego, e por esta via ele fustiga fortemente as deslocalizações que veiculam uma falsa polémica popular. É pois de Samuelson, de globalização, de deslocalização, de desindustrialização que falará o nosso texto de amanhã.
E a concluir o texto desta hipotética “aula teórica” deixe-me dizer-lhe agora a si, como ministro, que nunca o assumi como incompetente apesar do muito que sobre o assunto já ouvi. Nem a si nem ao Ministro da Educação que até pouco tempo muito respeitava. Não, o senhor ministro não foi, como Nuno Crato também não, não é, nem nunca será incompetente, pois a formação adquirida em bons tempos não se perde assim. Não, o senhor decidiu, tal como Nuno Crato, foi aceitar ser a mão de um regime cego a utilizar um modelo cego de consequências que cegamente se recusa a ver. E em nome de quê, senhor Ministro? Gostava de saber a resposta.
Coimbra, 24 de Dezembro de 2011
Júlio Marques Mota
