(Conclusão)
ÉPOCA – Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?
Eco – Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).
ÉPOCA – Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?
Eco – Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.
ÉPOCA – Como o senhor analisa a literatura contemporânea?
Eco – Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.
ÉPOCA – E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos? Eco – O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé – e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado… comigo mesmo.
ÉPOCA – O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco – Em O Nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.
ÉPOCA – Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco – Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O Pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve – e não posso condená-los.
ÉPOCA – O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?
Eco – Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O Pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O Cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em Maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.
ÉPOCA – Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?
Eco – Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.
ÉPOCA – Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?
Eco – Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.
ÉPOCA – O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?
Eco – Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.
ÉPOCA – O que o senhor faz no tempo livre?
Eco – Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.
ÉPOCA – Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?
Eco – Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante


“Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer?”Triste comentário. Um borrão na entrevista? Não sei, porque ao longo dos dias o texto abraçou a minha desilusão.
Estou de acordo contigo , Ethel . Também fiquei desiludida com essa resposta.
Má tradução? O jornalista brasileiro escreve tão mal como o “homus jornalisticus vulgaris portugalaensis”.No início, a entrevista não ia mal. Mas, depois, percebe-se que as perguntinhas já iam (mal) escritas. O interrogador não tem capacidade para manter uma conversa (então com Eco!), aproveitando o que o entrevistado diz. Limita-se a seguir o “guião”. Lá como cá: os jornalistas, em geral, não estão atentos à resposta do entrevistado, mas sim à pergunta que se segue na cábula deles. Muitas vezes interrompem uma exposição que está a ser interessante e podia suscitar outra(s) pergunta(s), para enfiarem a martelo a questão “programada” a seguir, porque não têm preparação nem cultura para “conversar”, como fazia, p.e., o Joaquim Letria que, com ar meio adormecido, ia conseguindo que os seus entrevistados dissessem o que queriam e o que não queriam… A mim, que tenho seguido as intervenções de Eco em “La Repubblica”, também me causaram estranheza essas respostas.Por outro lado, há muita gente que se considera (ou consideramos) “de esquerda” e aceita esta “inevitabilidade” dos “mercado” e dos seus “mecanismos”, porque as tentativas de construção de alternativas têm falhado estrondosamente.Marx teve razão (e genialmente) em muita coisa (de tal modo que previu o surgimento do tipo de “crises” que dizem que atravessamos, como consequência inelutável do percurso do capitalismo). Mas, no seu tempo (e em termos históricos), a teoria da evolução era recente e os conhecimentos sobre o mecanismo das transmissões genéticas e suas leis (ou falta delas…) muito incipientes. Marx foi ingénuo, curiosamente como Jesus “Cristo”, que também criou uma teoria progressista e humanista, dentro dos condicionalismos da sua época, que os seus próprios seguidores traíram ao longo de vinte sédulos e os que, hoje, se afirmam como tal continuam a trair todos os dias.A Marx terá escapado a resistência (e, até, o apuramento) dos genes da maldade humana: a “construção do socialismo” não trouxe, em nenhum lado, o “homem novo”, antes apurou o “homem velho”, o animal predador que nenhuma civilização conseguiu expurgar. Mas, enfim, dada a evidente falta de nível cultural do entrevistador, fico na dúvida. até porque uma má pergunta pode originar uma resposta “preguiçosa” (do tipo, toma lá e não chateies mais)…
Bom, mas o Eco é o Eco e esta é apenas uma posição política, ainda que lamentável. Quanto à capacidade de muitos jornalistas para entrevistarem pessoas com mais do que conhecimento. com sabedoria, estou de acordo com o Paulo.