Da luz e das sombras – por Josep Anton Vidal

[Após a leitura de Cuentos de lumbre y pesadumbre

 e El rastro de la herida, de Carmen Plaza]

 

Ouviu: “Sê luz”, e não soube de onde vinha a voz. Procurou por toda a casa, não deixando nenhum recanto por explorar. Levantou os tapetes e as tábuas do soalho. Esventrou os colchões, esvaziou armários perfumados, olorosos a sabonete, a lavanda, a marmelos. Abriu o forno e encharcou os sentidos no cheiro a pão quente… “Sê fogo”, ouviu, mas a voz não apareceu… E desceu à adega, que cheirava a carvalho, a cedro e a mosto, um odor denso que se colava ao palato e deixava na boca o gosto morno da chuva de Verão, da chuva sob o sol, no nariz o cheiro a terra molhada, e nos olhos a penumbra e o esplendor prateado de uma noite estrelada e o manto da abóbada do céu cobrindo as garras sofredoras e torturadas das vides.

 

Veio-lhe à boca um sabor a terra áspera e sentiu na pele uma rigidez de argila, a secreta tensão da terra antes de abrir fendas. “Sê esplendor”, ouviu. E procurou a voz na arrecadação da lenha. Removeu os montões de achas e os seus sentidos foram impregnados pelos nobres aromas da madeira repudiada, com o odor pegajoso a resina orgulhosa nos troncos vencidos, cheiros densos a cogumelo e a remotas humidades numa ignorada floresta.

 

E, como um latejar rítmico, compassado, ouviu o persistente golpear do machado sobre o tronco abatido. Experimentou um calafrio que a percorria interiormente, fazendo-a estremecer. Como se fosse um sopro de morte. Porém, não encontrou a voz.

 

Procurou na lareira , removeu brasas e ciscos… E escavou até arrancar as gramalheiras, limpou, desfazendo as camadas de carvão das paredes e vislumbrando no topo um pedaço de céu, com as unhas raspou, com uma anelante insanidade, o interior da chaminé coberto de secular fuligem …

 

Mas não encontrou a voz..

 

E subiu a sótão , abriu as velhas cómodas e vasculhou em todos os caixotes e nas arcas de antanho, despojos do tempo, memórias esquecidas… E acariciou a velha lanterna de metal coberta de verdete que encontrou num recanto, primeiro com parcimónia, convencida de que se encontrava às portas do mistério e esfregou-a depois tenazmente, quase com fúria, até arrancar reflexos àquele traste inútil, até que e o metal dourado se transformou em brasa ardente e lhe queimou as mãos… E a voz não surgiu.

 

Passou em revista as vigas, sondou os tabiques e levantou as telhas uma a uma…. “Sê vento”, ouviu, mas não soube de onde lhe chegava a voz. E olhou o céu, pois talvez a voz viesse de cima. E chegou-lhe o silêncio do meio-dia, o respirar sonoro da brisa nas searas, onde os grãos venciam já a esbeltez dourada das espigas que alastravam, numa dança lúbrica e atávica, fecundando a terra.

 

“Sê vida”, ouviu. E pareceu-lhe que a voz nascia dentro de si, do mais recôndito do seu interior, do poço de si mesma. E saiu para o campo, arrancou espigas procurando as raízes. Mas não encontrou a voz.

 

E colou-se à terra. Escutou o seu latejar, o correr murmurante das águas profundas, o roer dos vermes, os ecos das mais profundas cavernas, o estrondear que subia como um lamento profundo, do centro da terra… “Sê tempo”, ouviu… E invocou as suas recordações, sonhos, anseios, quimeras. E fez desfilar todos os seus dias, esquadrinhando as suas horas uma a uma.

 

Mas não encontrou a voz.

 

Pregada à terra, escutava a própria respiração: o bater do seu coração ao ritmo da terra, da vida silente das raízes que abriam caminho através da escuridão, debaixo da terra. E esgaravatou, persistente, no seu interior, no sangue, nas veias, nas artérias, nos músculos, nos tendões, nas glândulas, nos ossos, no coração, no ventre…. Escavou com as mãos crispadas a terra para chegar ao coração do mundo. Mas não encontrou a voz. “Sê tu”, ouviu, antes de a luz se lhe apagar nos olhos.

 

E, no silêncio, o sopro da brisa, carregada do aroma de florestas e restolhos, veredas e barrancos, chuva e nevoeiro…, levou as suas cinzas.

 

(Tradução de Carlos Loures)

6 Comments

  1. Josep Anton, uma maravilha de escrita. Vou pedir-lhe que me deixe transcrever este conto num texto que tenho em mente.Um abraço

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