Confesso a minha inicial rejeição pelo chamado “acordo ortográfico”, considerando o modo como foi aprovado e imposto, evocando-se a Lusofonia como se este conceito político (aliás suspeito de marca neo-colonialista) pudesse impedir a liberdade e a evolução linguística de cada país da CPLP. Além disso, não pude deixar de considerar que nem sempre os anteriores acordos foram cabalmente postos em prática: basta recordar o caso do trema, abolido pelo acordo de 1945 e ainda hoje mantido na ortografia do português do Brasil. Para que serviu o acordo?
À medida, porém, que fui contactando com as motivações avançadas pelos proponentes/responsáveis por este “acordês”, fui-me dando conta das imprecisões, erros e ambiguidades, para não falar das inúmeras excepções, aspecto que, só por si, invalidaria à partida o que, por exemplo, Fernando Cristóvão (ex-presidente do ICALP-Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, actual Instituto Camões), um dos primeiros “ideólogos” do acordo, veio a considerar como «base comum do entendimento gráfico» ou, ainda pior, «um instrumento para todos se compreenderem», como se estivesse em causa o fundamento da compreensão. Fantasias de quem encontra base científica da Lusofonia como o «Quinto Império defendido por António Vieira e Fernando Pessoa», recuperando, assim, o misticismo messiânico e uma perspectiva de império que me deixa perplexo, tanto mais que Fernando Cristóvão foi professor catedrático de literatura brasileira na Faculdade de Letras de Lisboa. E, já agora, e a propósito, como se concilia a posição de José Eduardo Agualusa a favor do acordo, ao mesmo tempo que acusa Portugal de um «enraizado sentimento imperial»?
Mas em matéria de disparates, estas opiniões não estão sozinhas. José António Pinto Ribeiro terá declarado no Brasil, quando era ministro da Cultura, que o acordo resolvia o problema da unificação da língua; e Edite Estrela, a quem são atribuídos créditos em matéria de língua portuguesa, pelos vistos injustificados, declarou que, a partir da aplicação do acordo, os organismos internacionais já não teriam que fazer duas traduções de eventuais documentos, querendo ignorar, de modo incompreensível, as diferenças lexicais e sintácticas entre a norma do português europeu e a do Brasil.
Como não existe justificação válida para uma jogada de carácter político (basta ler o texto integral do acordo onde, exemplo entre tantos, logo na base um se menciona a diferenciação «antropónimos/antropônimos»), servem-se destes argumentos enganadores da “uniformização do português”. Ora melhor seria trabalhar de maneira exigente em defesa do uso linguístico correcto, tão abastardado anda, e não ouviríamos expressões como «depois irá-se ver» (um ministro do actual governo) ou «fará-se» (uma jornalista da RTP), o que atesta a banalização do erro e a falta de rigor quando se trata de usar a língua-mãe.
Quanto a mim, o capital utilizado para engendrar um acordo desnecessário teria melhor aplicação numa política de investimento sério no ensino da língua portuguesa, o que está longe de acontecer. É por isso que não basta a euforia tão apregoada de sermos uma comunidade linguística com mais de 220 milhões de falantes: precisa-se, não de um acordo ortográfico, mas de outra actuação quanto aos meios e processos de aprendizagem da língua, questão primordial que deveria ocupar os órgãos e os especialistas competentes.

O «acordo ortográfico» é isso mesmo: um erro imposto.
Excelente depoimento. Tenho, nestes vinte e tal anos em que, com avanços e recuos, este processo se tem vindo a arrastar, assistido a mudanças de posição. Basta ir aos arquivos e ler as declarações dos principais editores portugueses em 1990 e compará~las com as actuais. Porém, a esperança de ver alargado o mercado brasileiro para os livros portugueses, parece-me vã. Pelas razões que o Manuel Simões tão claramente expôs. A minha posição de indiferença parece ser a que melhor se ajusta à realidade. Sim, foram assinados uns papéis. E o que temos nós a ver com isso?
Com o meu acordo quer quanto ao texto do Manuel quer quanto aos comentários, vejam o que acontece comigo. Na Instituição onde trabalho respeito o «acordo ortográfico», ou seja, cumpro o que me é imposto; em todas as outras circunstâncias em que tenho de escrever, no computador ou em qualquer folha de papel, escrevo sem respeitar este novo «acordo ortográfico». Não fui eu quem assinou os papéis que o Carlos refere e penso que também nada tenho a ver com isso.
A maior falácia é a de que o Acordo vai facilitar o contacto entre os países lusófonos. Temos dois colaboradores brasileiros – Sílvio Castro e Rachel Gutiérrez – há alguém que não compreenda o que escrevem?