PARTE III
Da Faro com amor, de Estoi com horror – uma crónica em duas partes
1. De Faro com amor
(continuação)
…
O Deutsche Bank acabou por confirmar o que aconteceu a seguir: o padre Lucchetti soube que o banco estava disposto a comprar-lhe, de volta, os títulos podres, libertando-o da difícil situação. O Deutsche Bank rapidamente refinanciou a Congregação nos seus 12 milhões, o mesmo acontecendo com o banco regional de Umbria, com a condição de que o padre jurasse nada dizer, que jurasse ficar calado que nem um rato. E esses doze milhões terão sido, possivelmente, reembalados e vendidos depois a outros “investidores”.
Esta é a história que me surgiu de rompante na minha memória. O meu companheiro de conversa estava atónito. Para além de se questionar o que tinha feito o governo alemão e o governo italiano, e se nada fizeram, considera então que estes dois governos foram e são coniventes com estas vigarices, para além de se questionar sobre o caso português em que serão todos demasiado jovens e, o país, o “investidor” demasiado pequeno para aparecerem nos écrans dos quadros de topo dos bancos de topo, para além do desaparecimento das referências de Piazza Navona serem equivalentes às faltas de memória dos nossos actores de contratos de swaps, para além de quem agora tem como tarefa de avaliar as operações desses mesmos swaps em Portugal pertencerem ao circulo de pessoas que esteve na origem da sua criação, estranho é que à Igreja o dinheiro tenha sido devolvido ao passo que aos Estados não. E acrescenta o meu companheiro de ocasião: será que haverá via confissões dos confessionários elementos de pressão, da mesma forma que devo supor que os grande bancos têm mecanismos de chantagem sobre os políticos para nada lhes ter acontecido até agora? Não me parece uma hipótese a excluir, diz ele com um sorriso malandro nos lábios e nos olhos. Respondi-lhe que não acreditava na chantagem a partir da Igreja, nem pensar, acrescentei. Estávamos no princípio da crise e o Deutsche quis o silêncio. Quanto à corrupção com os políticos, a promiscuidade entre a grande banca e a política é hoje um dado e bem denunciado por Vitor Constâncio,curiosamente em Atenas. Mas ele continuou. Repare, que os grandes actores mudaram de sítio. Nada lhes aconteceu. De jovens passaram a mais velhos, de imaturos a gente mais que madura, a refinados vigaristas. Nada lhes aconteceu, ficam a fazer o mesmo mas com mais arte, mas noutro sítio, noutro grande banco e com muito mais capacidade. Mais ainda, mudou alguma coisa, certo, mas para que tudo fique na mesma, como em Lampedusa, como no Leopardo de Visconti. E continuou: da sua história quer o senhor dizer que o país, o governo, tudo isto é um verdadeiro swap altamente tóxico e que ou rapidamente o deitamos abaixo, na companhia do seu responsável mor, o Presidente da República que aceita estas operações e que nomeia estes ministros, ou então que vamos pagar tudo com língua de palmo e até à exaustão total? É isso que me quer dizer, diga-me, pergunta ele ansioso? Se é assim com os swaps em Portugal , digo-lhe eu como resposta, tem toda a razão, razão demais até para todo este silêncio. Digo-lhe apenas: se não é assim, que submetam então à análise da opinião pública todos os contratos swaps activos, sejam eles considerados ou não tóxicos, desde que assinados com entidades públicas. Mais, que se nomeiem entidades independentes internacionais e altamente fiáveis e honestos para análise do processo em vez da entrega à StormHarbour a análise dos mesmos quando até se sabe que alguns dos seus quadros poderão ter estado na criação destes mesmos swaps. Mais ainda, que se exija à Comissão Europeia e a Durão Barroso que se pronuncie sobre o que se passa nesta matéria, quando estão assim a esmagar um Estado membro, por acaso, o seu próprio país .
Calo-me. Ouço a voz segura e serena a interrogar-me. Continuámos. Falámos ainda do 25de Abril, de Salgueiro Maia, da oposição de direita que ele enfrentou, falámos do Brigadeiro Junqueira dos Reis, falámos da documentação que poderia haver arquivada algures, sobre Salgueiro Maia e sobre a alta patente com quem ele directamente se defrontou e que bem poderia ser útil a um historiador que queira embrenhar-se sobre o 25 de Abril. Pelo meio, diz-me uma frase terrível que ainda transporto nos meus ouvidos como um grito alarme, e num momento em que vejo o Rui Tavares falar no Público nos acontecimentos que antecederam à primeira Grande Guerra, quando vejo referir as políticas que antecederam também à segunda Grande Guerra e a frase ouvida e que julgo não mais será esquecida foi: ainda gosto muito de cá estar, senão, disparava alguns tiros e seguramente alguns iam comigo. Bem o mereciam. Mas ainda gosto de viver. Fingi que não ouvi.
Olho de soslaio. Sinto o seu olhar vago sobre a praça Alexandre Herculano, como se pairasse sobre o mundo também, como se pairasse sobre os seus inimigos assumidos. E lembro-me do farmacêutico grego que disparou sobre si-próprio, porque não tinha mais ninguém sobre quem disparar e não queria atingir a barbárie. Olho de novo e vejo-o de peito direito, como se estivesse a enfrentar o mundo ou um Tribunal Militar, tal a rigidez da sua postura física, como se estivesse quase que em parada militar. Sinto, de novo, que estou perante um militar de patente elevada, possivelmente um alto oficial na reserva.
(continua)
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A parte II desta crónica foi publicada ontem em A Viagem dos Argonautas. Ver:
http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/12/nova-cronica-de-faro-no-3-por-julio-marques-mota-2/

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