QUARTA PARTE
(CONTINUAÇÃO)
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Quais seriam as consequências económicas de violar o tecto da dívida?
Um pormenor do famoso quadro de Hieronymous Bosch “Furando o tecto da dívida” (Wikipedia)
Nada de bom. Uma quebra prolongada pode resultar numa dose maciça de austeridade orçamental, o que leva a colocar-se um travão no crescimento económico. E um incumprimento da dívida quase que certamente iria criar grandes perturbações nos mercados financeiros.
Lembremo-nos, se o Congresso se recusar a levantar o tecto da dívida, o governo federal só pode então pagar exactamente no montante das suas receitas fiscais, isto é, só pode pagar tanto quanto cobra em impostos. As despesas totais cairiam em 32 por cento ao longo do próximo mês. Goldman Sachs, pela sua parte, considera os cortes nas despesas públicas estimados em cerca de 4,2 por cento do PIB – uma queda muito mais acentuada do que, digamos, os cortes derivados do sequestro orçamental ou das ausências causadas pelo paralisação do governo.
A resposta financeira é mais difícil de prever, especialmente se o estabelecimento de prioridades é impossível de levar avante. O Departamento do Tesouro pensa na perspectiva de que a falta de pagamento da dívida poderia ser desastrosa: “Poderia congelar os mercados de crédito, o valor do dólar pura e simplesmente caia, as taxas de juro poderiam disparar nos Estados Unidos, as repercussões negativas poderia ressentir-se em todo o mundo, e poderia haver uma crise financeira e a recessão faria imediatamente lembrar os acontecimentos de 2008, ou ainda ser bem pior”. Na mesma linha se situa Mohamed El-Erian, um dos dirigentes de PIMCO, o maior fundo obrigacionista do mundo quando à pergunta de um jornalista: “Isso pode ser pior que a crise financeira global desencadeada pela situação desordenada com o incumprimento de Lehman há 5 anos? Nos responde:
Sim, muito pior, talvez. E quanto mais cedo o Congresso perceber isso, maior é a probabilidade de que a América passe ao lado de uma crise totalmente evitável e que a existir será de proporções históricas.
Outros analistas concordam igualmente com esta posição. Veja-se Fedwire, o sistema informático de compensação central que os bancos na América usam para efectuar pagamentos, para movimentar títulos e outros activos financeiros, é um sistema que trata milhões de milhões de dólares por dia. Mas como nos diz uma recente nota de RBC Capital Markets, se Fedwire não está configurado para manipular títulos que foram sujeitos a uma situação de incumprimento e então todo o sistema iria ficar bloqueado. “Deixem-nos ser perfeitamente claros”, diz a nota, “ultrapassar o tecto da dívida seria catastrófico.”
Da mesma forma, uma avaliação recente feita pelo analista do Deutsche Bank, David Bianco, em que este estimou que o mercado de acções dos EUA poderia perder cerca de 45 por cento do seu valor se o governo dos EUA não liquidasse um pagamento que seja em juros.
(Para saber mais sobre outras potenciais consequências financeiras de um incumprimento, a maioria delas más, veja-se Kevin Roose.)
(continua)
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Para ler a Terceira Parte deste trabalho do argonauta Júlio Marques Mota, publicada ontem, dia 15, vá a:


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