FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – SELECÇÃO E TRADUÇÃO DE JÚLIO MARQUES MOTA

Keynes - I

Versão portuguesa do texto 1 – B “National Self-Sufficiency” de J. M. Keynes

PARTE II
(continuação)

Voltemo-nos para a discussão dessas questões de julgamento duvidoso, onde cada um de nós continuará a ter direito à sua própria opinião, voltemo-nos pois para um debate mais puramente económico. No séc. XIX, o apologista do internacionalismo económico, poderia provavelmente afirmar com justiça que a sua política tinha como objectivo enriquecer vincadamente o mundo, promovendo o progresso económico, e que recusando tal caminho teria como consequência nefasta, tanto o nosso empobrecimento como o dos nossos vizinhos. Isto levanta uma questão de equilíbrio entre a vantagem económica e a não – económica, que nunca é facilmente decidida. A pobreza é um grande mal, e a vantagem económica é um bem real não para ser sacrificada para bens reais alternativos a menos que seja claramente de um peso inferior. Sinto-me disponível para acreditar que no séc. XIX existiam dois conjuntos de condições, tendo como primeira a existência do que causou as vantagens do internacionalismo económico para compensar as desvantagens de um tipo diferente. Numa altura em que as intensas migrações foram povoando os novos continentes, era natural que os homens transportassem consigo para os Novos Mundos os frutos materiais da técnica do Velho Mundo, incorporando as poupanças daqueles que as tinham enviado. O investimento das poupanças britânicas nos trilhos e material circulante instalado por engenheiros britânicos para transportar emigrantes britânicos para novos campos e pastagens, os frutos daqueles voltariam na devida proporção para aqueles cuja frugalidade tinham feito essas coisas possíveis, não era internacionalismo económico, remotamente assemelhado, na sua essência, à  posse de uma parte de uma empresa alemã, por um especulador em Chicago, ou das melhorias municipais do Rio de Janeiro detidas por uma solteirona inglesa. Isto é, o tipo de organização necessária para facilitar o primeiro,  pelo andar das coisas,  acabou por ficar neste último. Em segundo lugar, num momento em que se verificavam enormes diferenças no grau de industrialização e nas oportunidades de formação técnica em diferentes países, as vantagens de um grau de especialização nacional elevado são expressivamente consideráveis.

Mas, não estou convencido de que as vantagens económicas da divisão internacional do trabalho são de todo comparáveis ​​com o que já foram. Não pretendendo levar o meu argumento para além de um certo ponto, contudo, um determinado grau de especialização internacional é necessário num mundo racional onde esta é ditada por grandes diferenças climatéricas, de recursos naturais, aptidões nativas, nível da cultura e densidade populacional. Porém, constato que me deparo com uma gama cada vez maior de produtos industriais e, talvez de produtos agrícolas também, por isso, duvido que a perda económica de auto-suficiência nacional seja grande o suficiente para compensar ou neutralizar as outras vantagens de trazer gradualmente o produto e de manter o consumidor no âmbito da mesma organização nacional, económica e financeira. Empiricamente prova-se que a maioria dos processos modernos de produção em massa podem ser realizados na generalidade dos países, mesmo perante países com características díspares, com uma eficiência próxima. Além disso, em termos de maior riqueza, os produtos primários e manufacturados passam a desempenhar  um papel analogamente menor na economia nacional no que respeita às casas, serviços pessoais e a comodidades locais, que não se encontram igualmente disponíveis para a troca internacional; daí que se tenha como  resultado que  um aumento moderado do verdadeiro custo dos produtos de base e manufacturados, em consequência de uma maior auto-suficiência nacional podem deixar de ter consequências graves, confrontado  esse facto contra as vantagens de uma natureza bem diferente. A auto-suficiência nacional, em suma, tem o seu custo, mas pode estar a tornar-se  um luxo de que podemos dispor, se quisermos que assim aconteça.

Há várias e suficientes boas razões pelas quais nós podemos desejar que assim ocorra? Para vários amigos meus, da velha escola e, razoavelmente ofendidos com o desperdício e perdas económicas contabilizadas com este nacionalismo económico contemporâneo, a tendência destas linhagens serão de dor e de tristeza. No entanto, permitam-me que tente indicar-lhes os termos e as razões que eu observo e com as quais estes meus amigos podem eventualmente simpatizar.

O capitalismo internacional decadente, mas individualista, nas mãos dos quais nós nos encontramos no pós-guerra, está longe de ter sido um sucesso. Não é inteligente, não é elegante, não é justo e não é virtuoso- e não entrega as mercadorias. Resumidamente, não gostamos dele, e começamo-lo a desprezar. No entanto, quando nos interrogamos acerca de como o substituir, confrontamo-nos perante uma situação de extrema dúvida. A cada ano que passa torna-se mais evidente que o mundo embarca numa grande variedade de experiências de mudanças em termos político-económicas, e esses diferentes tipos de experiências ou mudanças  implicam diferentes cenários de cariz nacional e histórico. No séc. XIX o internacionalismo económico do livre comércio cimentou a ideia de que o mundo inteiro era, ou seria, organizado numa base de capitalismo privado altamente competitivo e de liberdade de contrato privado inviolavelmente protegida pelas sanções da lei, em várias fases, é claro, de estágios de complexidade e de desenvolvimento diferentes, mas referentes a um tipo uniforme que teria como pedra angular o aperfeiçoamento do sistema a alcançar  e não a sua destruição. Já o Proteccionismo do mesmo período era uma mancha sobre a eficiência e bom senso deste esquema de coisas e relações, mas não modificou a presunção geral sobre as características fundamentais da sociedade económica.

Porém, nos dias que correm, essas presunções vão-se desmoronando e sendo abandonadas, como o efeito dominó, de país em país. Repare-se que a Rússia encontra-se somente sozinha numa experiência particular, mas, já não está sozinha no abandono das antigas presunções. A Itália, a Irlanda e a Alemanha, focaram-se e focam-se em novos modelos de economia política. Não obstante, prevejo que muitos outros depois iram um a um, procurar novos deuses económicos. Mesmo países como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, países ainda conformes por excelência com o seu velho e antigo modelo, estão-se a esforçar  nesse sentido, sob a superfície, depois de um novo plano económico. Não sabemos qual será o resultado. No entanto, todos nós estamos dispostos, e se necessário, a cometer muitos erros [para encontrar outro rumo]. Ninguém pode afirmar  que os novos sistemas se vão revelar mais eficientes. Mas é este o meu presente ponto de discussão. Cada um de nós tem a sua própria fantasia. Não acreditando que já nos encontramos a salvo, gostaria desse modo ter a oportunidade de reflectir em algo que nos proporcione a nossa própria salvação. Face ao exposto, não queremos, portanto, estar à mercê de forças mundiais externas, ou a tentarem estas adquirir tal estatuto, de um determinado equilíbrio uniforme baseado em, princípios, ideais, se é que o capitalismo do laissez-faire é digno de tal adjectivação. Há ainda aqueles crentes inocentes que se agarram a essas velhas ideias, todavia, perante os fatos, essa força não é politicamente levada a sério em nenhum país do mundo actual. Assim, nós desejamos- pelo menos para a época actual e enquanto a presente fase de transição experimental prevalecer- sermos os nossos próprios mestres e ser tão livres quanto o podermos conseguir por nós mesmos a partir das interferências do mundo exterior.

Tendo como ponto de partida essa transição, a política de aumento da auto-suficiência nacional deve ser considerada, não como um ideal em si mesmo, mas como um quadro que tem como função a criação de um ambiente no qual outros ideais podem ser discutidos e se assim o justificarem experimentados e convenientemente procurados. Permitam-me dar o mais secamente possível, uma ilustração à volta disto, escolhida esta e conectada com ideias com as quais recentemente tenho andado a reflectir e com uma ampla preocupação. No que respeita a questões de detalhe económico, e muito distintamente dos controlos centrais, sou a favor da manutenção tanto quanto possível da iniciativa privada, das empresas privadas, da liberdade de opinião. Mas convenci-me de que a retenção da estrutura da empresa privada é incompatível com o grau de bem-estar material que o progresso técnico nos permite adquirir, a menos que a taxa de juros caia para um valor muito menor do que aquele que é provável vir  a verificar-se e  a ser estabelecida por forças naturais que operam na base das concepções antigas. Na verdade, a transformação da sociedade que nós, preferencialmente encaramos, pode exigir uma redução na taxa de juros como ponto de saída dentro dos próximos 30 anos. Mas encontrar um sistema no qual a taxa de juro encontra um nível homogéneo, para lá da remuneração pelo risco e afins, a operar em todo o mundo sob forças financeiras normais, isso é muito pouco provável de ocorrer. Dessa forma, perante uma complexidade de razões, que eu não posso salientar aqui nem agora, o internacionalismo económico acompanhado pela livre circulação de capitais e de fundos emprestáveis​​, bem como de bens de capital, pode condenar o meu país  a um estádio de prosperidade que fica muito aquém do que poderia ser alcançado com um sistema diferente.

(continua)

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Para ler a Parte I da versão portuguesa de National Self-Sufficiency, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/13/falemos-de-economia-falemos-entao-de-politica-seleccao-e-traducao-de-julio-marques-mota-7/

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