Versão portuguesa do texto 1 – B “National Self-Sufficiency” de J. M. Keynes
PARTE III
(CONTINUAÇÃO)
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Contudo, isto é apenas uma ilustração. A grande questão para mim é, hoje, o facto de não haver perspectiva de uniformidade de um sistema económico global para a próxima geração, como existia, de um modo geral, durante o séc. XIX, dado haver a necessidade de nos libertarmos tanto quanto possível das interferências que as alterações económicas noutros locais nos possam afectar, a fim de que nos seja possível executar as nossas próprias experiências preferidas em relação à República ideal do futuro; e em que provocando-se um movimento deliberado para uma maior auto-suficiência nacional e isolamento económico, poderá então facilitar a execução da nossa tarefa, na medida em que os custos económicos implícitos não serão excessivos. Julgo haver mais uma explicação acerca da reorientação do nosso raciocínio. O séc. XIX cunhou de forma vincada a máxima de que se pode chamar de “os resultados financeiros”, como um teste para a conveniência de qualquer curso de acção patrocinada pelo sector privado ou pela acção colectiva. Toda a conduta de vida foi transformada numa espécie de paródia de um contador de pesadelos, [o registo de ganhos contabilísticos]. Ao invés de fazer uso eficiente dos abundantes recursos materiais e técnicos na construção de metrópoles equilibradas, os homens do séc. XIX construíram lugarejos; inclusive eles achavam correcto e aconselhável construí-los, porque na lógica da empresa privada isso era rentável, “pagavam-se a si-mesmos” enquanto ao mesmo tempo atribuíam à construção de uma cidade um acto de extravagância tola, o que, à luz da linguagem imbecil do sector financeiro é “hipotecar o futuro”- embora a construção de grandes e gloriosas obras possa empobrecer o futuro, nenhum homem se deveria guiar e nem permitir que a sua mente seja assediada por falsas analogias resultantes de uma contabilidade irrelevante. Ainda hoje gasto o meu tempo – metade em vão, mas analogamente, devo admitir, a outra metade com sucesso, na tentativa de convencer os meus compatriotas que a nação como um todo formará um escudo mais sólido, será seguramente mais rica se os homens desempregados e as máquinas abandonadas forem usadas na construção das tão necessárias casas, do que contrariamente, se estes se mantiverem na ociosidade. Nas mentes desta geração ainda pairam significativas obscuridades provocadas por cálculos falsos que tentam esconder conclusões óbvias, ou seja, a dependência dum sistema de contabilidade financeira que lança dúvidas sobre se uma tal operação se permite si-mesma ser “paga”. Temos que permanecer pobres! Porque não é rentável, porque não se paga a si-mesmo, o trabalho de nos fazermos ricos . Temos que viver em casebres, não porque não possamos construir palácios, mas porque eles não são rentáveis, porque não se fazem “pagar”.
A mesma regra de cálculo financeiro autodestrutivo governa todos os caminhos da vida. Destruímos a beleza do campo, porque os esplendores da natureza não têm valor económico. Somos capazes de apagar o sol e as estrelas, porque não pagam dividendos. Londres é uma das cidades mais ricas da história da civilização, mas não pode “pagar” os mais altos padrões de realização de que os seus próprios cidadãos vivos são capazes de realizar, porque eles não se “pagam” a si-mesmos, porque esses altos padrões não são rentáveis.
Se tivesse o poder do comando, deliberadamente dotaria as nossas cidades de capital com todos os pertences da arte e da civilização sobre os mais altos padrões de que cada cidadão era individualmente capaz, convencidos de que o que eu poderia criar, poderia então pagá-lo e acreditando que o dinheiro gasto assim, não só seria melhor do que qualquer esmola, como faria com que as esmolas fossem desnecessárias. Com o desemprego contabilizado na Inglaterra desde o início da guerra, poderíamos com essa mão-de-obra ter construído e remodelado as nossas cidades tornando-as as maiores obras do mundo.
Recentemente foi considerado uma vez mais, como se de um dever moral se tratasse, que devemos contribuir para arruinar os cultivadores dos solos e destruir as longas tradições humanas, se com isso podemos obter um pedaço de pão mais barato, nem que seja um só décimo de centavo [a preço mais baixo]. Deveria ser o nosso dever sacrificar esse Moloch e Mammon num só, pois acredita-se fielmente que a adoração tida por esses monstros vence o mal da pobreza e conduzem a próxima geração com segurança e conforto, sentados em cima do juro composto, para a paz económica.
Hoje sofremos desilusões, não porque somos mais pobres do que éramos, pelo contrário, ainda hoje podemos desfrutar, na Grã-Bretanha, pelo menos, dum padrão de vida superior ao de qualquer período anterior, mas porque outros valores parecem ter sido sacrificados e, mais grave ainda, até porque eles parecem ter sido sacrificados desnecessariamente, uma vez que o nosso sistema económico não é, de facto, aquele que nos permite explorar ao máximo as possibilidades de riqueza económica proporcionada pelo progresso da nossa técnica, pois encontra-se muito aquém desse máximo, levando-nos a concluir que os recursos usados poderiam proporcionar uma margem bem superior.
Todavia, dado que nos permitimos ser desobedientes à teoria do lucro de um contador de lucros, [desobedientes à lógica do lucro] começamos então a mudar a nossa civilização. Contudo, precisamos de o fazer muito cuidadosamente, muito cautelosa e conscientemente, pois há um vasto campo de actividade humana onde teremos que ser sábios para que assim nos seja possível manter os nossos resultados pecuniárias habituais. É o Estado, e não o indivíduo, que precisa de mudar o seu critério. É a concepção do secretário de Estado do Tesouro, como sendo o presidente de uma espécie de sociedade anónima, que tem de ser demitido. Agora, se as funções e as finalidades do Estado forem ampliadas, a decisão sobre o que, em termos gerais, deve ser produzido dentro do país e, o que deve ser trocado com o exterior, deve ser uma das grandes prioridades no plano político [não do mercado].
Ainda e partir destas reflexões sobre as finalidades próprias do Estado, regressemos ao mundo da política contemporânea. Tenho procurado compreender e fazer totalmente justiça às ideias que estão na base da vontade sentida por tantos países nos dias de hoje para uma maior auto-suficiência nacional, todos nós temos de considerar com cuidado se, na prática, não nos descartamos com expressiva facilidade da herança e dos valores alcançados no séc. XIX. Nos países onde os defensores da auto-suficiência nacional alcançaram o poder, a meu ver, sem excepção, muitas coisas absurdas estão a ser feitas. Parece-me então que a Mussolini, por exemplo, só agora é que lhe estão a aparecer os dentes do sizo. Mas a Rússia apresenta, hoje, o pior exemplo que o mundo alguma vez já viu de incompetência administrativa e do sacrifício de quase tudo o que torna a vida digna de ser vivida, feito por aquelas cabeças que mais parecem feitas de madeira. Já a Alemanha está à mercê de irresponsáveis e das irresponsabilidades sem limites – embora seja ainda precoce julgá-la. O Estado livre Irlandês, um país muito pequeno para um alto grau de auto-suficiência nacional, excepto a um grande custo económico, encontra-se a discutir planos que poderiam, se fossem realizados, ser ruinosos. Enquanto isso, os países que mantêm ou estão a adoptar o proteccionismo directamente surgido com o antigo modelo, remodelado com a adição de alguns detalhes do novo plano de quotas, estão a construir muita coisa que é impossível serem racionalmente defensáveis. Porém, se a Conferência Económica Mundial conseguir uma redução mútua de tarifas e uma abertura para o caminho de acordos regionais, será matéria para merecer um grande e sincero aplauso. Porque, pessoalmente, não deve ser considerado que aprovo todas estas medidas que estão a ser feitas no mundo político contemporâneo em nome do nacionalismo económico. Longe disso. Não obstante, mantenho as minhas críticas, como a de um coração amigável e simpático, face às experiências desesperadas do mundo contemporâneo, que lhes quer bem e gostaria que alcançassem sucesso, que tem os seus próprios pontos de vista, e que, em última instância, prefere qualquer coisa na terra do que os já clássicos relatórios financeiros que dão pelo nome de “a melhor opinião em Wall Street.” Todavia, procuro destacar que o mundo para o qual estamos a caminhar num movimento inquieto é bastante diferente do internacionalismo económico ideal dos nossos pais, e que as políticas contemporâneas não devem ser julgadas de acordo com as máximas assentes na antiga fé.
(continua)
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