ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE UMA CONFERÊNCIA A QUE ASSISTI NA CULTURGEST, de JÚLIO MARQUES MOTA

Parte I 

Dia 11 de Dezembro, parto para Lisboa, para colaborar  numa conferência sob o tema Futuro do Euro: explosão ou reconfiguração. Vou acompanhado de um amigo meu, francês de boa cepa, que se prestou a colaborar graciosamente na realização da conferência com a Luisa Feijó e que, em conjunto,  assegurariam o trabalho da tradução simultânea.

Vestidos de forma casual, cada um com uma canadiana da mesma marca e de cores diferentes passeámos-nos pelo cais da estação de caminhos-de-ferro de Coimbra. Num dos bancos do cais estava um sujeito razoavelmente bem vestido, de forma casual, igualmente. Passeámo-nos pelo cais a conversar sobre o drama da austeridade na Europa e sobretudo conversámos sobre o silêncio brutal de François Hollande que durante os tempos da campanha eleitoral transportou o archote da esperança no crescimento económico e no fim da austeridade e que, de imediato, se transformou em ajudante de campo da senhora Merkel e do grupo de fanáticos que a rodeiam.

De repente, ouço o referido sujeito de forma bem casual vestido dizer, políticos, políticos. Ali vão dois políticos, dois pavões. Primeira classe, primeira classe.  Ouço, o referido sujeito, reparo que está com uma cara de embriagado e sinto que as suas palavras pretendem ser um agressão verbal contra os dois sujeitos que lhe passavam à frente, e por estar a vê-los como políticos de peso significativo. Percebe-se, dois sujeitos aos seus olhos muito bem vestidos, num país já de miséria feito e cheio, só os políticos poderiam andar assim! Claramente um homem que perdeu a alegria da vida a viver com os outros e que escolheu como defesa o caminho para dentro de si-mesmo à procura da sua própria destruição.

Afastámo-nos um pouco. Perguntei qual o sítio onde pararia a carruagem número três e disseram-me que seria um pouco mais à frente. Avançámos ao longo do cais para a zona indicada e sentei-me na ponta de um banco, com o meu amigo, garboso, de pé. A mim, já me pesam os anos, é isso. Eis que o “nosso bêbado” se aproxima, fica meio deitado no banco e continua com a sua lenga-lenga; Europa, Bruxelas, Berlim, agora com um acento de quem se está a querer expressar-se em inglês. Veio um homem da segurança, privada da CP. Pergunta-lhe o que está ali a fazer. Coimo resposta, ouve dizer que está à espera do comboio. O outro pergunta-lhe se tem bilhete e este “nosso bêbado” dispara: mas com os diabos que autoridade tem o senhor para me estar a perguntar tudo isto ; Não respondo, tenho direitos, ouço dizer num tom tão duro quanto a macieza do muito vinho lhe permitia ser duro. Afastámos-nos e deixei-me sorrir por dentro. Salvo a tristeza da fuga para dentro achei piada ao pequeno incidente e tinha por base ironicamente a Europa. Para ele eu e o meu amigo, de canadiana Burberry’s  fardados, equipados,  seríamos dois eurocratas, a caminho de Bruxelas, a caminho de prestar vassalagem a Durão Barroso, ou a caminho de Berlim, a caminho de prestar uma vassalagem ainda maior a Schauble ou à senhora Merkle. A Europa vista pelos olhos de um bêbado, uma tristeza total. E eu que ia a caminho de uma conferência sobre a Europa, sobre a crise do euro, sobre a falta de perspectivas que aos cidadãos europeus já está garantido e por muitos anos.

Deparo-me em Lisboa e na Culturgest com uma organização milimétrica, de um sentido de profissionalismo e de respeito pelos outros a que já não estou desde há anos habituado, tal o cuidado e a ternura que eram os todos os detalhes explicados a toda a gente, tudo isto capitaneado por um General das Ideias e da Eficiência igualmente, o Miguel Lobo Antunes.

A sessão que aqui não descrevo começou pela intervenção de Christophe Ramaux com um texto fabuloso a que, na minha opinião faltava a última parte. Eu explico-me, depois de explicar a lógica inexorável do capitalismo sob a égide dos neoliberais ao levar-nos à crise profunda que atravessamos, como algo que é consequente com o mundo deles mas não com o nosso, ele explica-nos que a solução para a crise exigiria uma política de inflação interna. Inflação interna? Ouvira ou lera eu bem?  Claro, a saída seria fazer o contrário do que está a fazer, quando o que se está a fazer é a desvalorização interna, ou deflação interna. Na Alemanha, a inflação atinge os 1% ou seja, num universo em que a média ponderada nos dá um por cento isto significa que muitos dos preços estarão em queda. Mas preços em queda significa salários  reais em alta, mas a política de desregulação do mercado de trabalho leva  a que muitos dos salários estejam eles em baixa e portanto que estejam a salário real mais ou menos contante com os preços a descerem, mesmo que os salários elevados, menos pressionados, possam estar sujeitos a uma subida real. Um outro mecanismo joga aqui: os preços em baixa, significa as receitas em baixa, as receitas em baixa significa menos capacidade de liquidação das dividas anteriormente contraídas ao nível das empresas e desencadeia-se uma espiral da dívida com os preços a descer e as dívidas a aumentarem.  Trata-se do fenómeno do aumento da dívida, em termos reais. Ora, o que Ramaux nos propõe é o inverso de tudo isto, é uma alta generalizada dos salários à escala europeia, mesmo em países em dificuldade como Portugal, Espanha, Grécia, Chipre, Malta, Itália, França, Irlanda, e outros que se lhes seguirão na zona euro ou na União Europeia, mas com uma subida mais acentuada nos países excedentários  como a Alemanha, Holanda, Áustria, embora eu duvide dos excedentes externos enormes da Holanda que podem ser pura manipulação estatística pela sua situação de paraíso fiscal e de ser porto de passagem de muitos produtos que na verdade não são aí produzidos.

(continua)

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