2. FORÇAS DE DIVERGÊNCIA – SERÁ QUE A ONDA DE DESIGUALDADE SE ESTÁ A TORNAR ENDÉMICA AO CAPITALISMO? Por JOHN CASSIDY

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota 

Falareconomia1

2.FORÇAS DE DIVERGÊNCIA

Será que a onda de desigualdade se está a tornar endémica ao capitalismo?

JOHN CASSIDYNew Yorker, 31 de Março de 2014.

Parte II

(continuação)

A pergunta é o que está a gerar esta  tendência ascendente. Piketty não considera que as explicações habituais  dos economistas sejam  convincentes, principalmente  porque não deram  bastante atenção à acumulação de capital- ao processo de poupar,  de investir e de acumulação de riqueza como o fizeram os economistas clássicos, tais como David Ricardo, Karl Marx, e John Stuart Mill  o tinham já  sublinhado. Piketty define o capital como todo o activo que gera um retorno monetário. Esta definição abrange o capital físico, tal como os bens imobiliários e as fábricas; capital intangível, tal como marcas e patentes e activos financeiros,  tais como acções e obrigações.

Na economia moderna, o termo “capital” foi expurgado do seu fogo  ideológico e é tratado como sendo apenas um outro “factor de produção,” de tal modo que, como o trabalho e a terra, dá direito a ter uma competitiva  taxa de rentabilidade  baseada na  sua produtividade. Um modelo popular do crescimento económico desenvolvido por Robert Solow, um dos anteriores colegas de Piketty no M.I.T., pretendeu  mostrar como é que a  economia progride ao longo “de um trajecto do crescimento equilibrado,” com as proporções do rendimento nacional recebidas pelos proprietários do capital e do trabalho a permanecerem  constantes ao longo do tempo. Isso não combina com a realidade dos tempos de hoje. No Estados Unidos, por exemplo, a proporção do rendimento  que vai para  salários e outras formas de compensação salarial tem estado a cair desde  sessenta e oito por cento em 1970 a sessenta e dois por cento em 2010, uma descida de perto de um milhão de milhões de dólares.

Piketty acredita que o aumento na desigualdade não pode ser compreendida independentemente da política. Para este seu novo livro, escolheu um título a evocar claramente Marx, mas não pensa que o capitalismo está condenado, ou que a desigualdade crescente seja uma inevitabilidade. Há  circunstâncias, admite Piketty,  em que os rendimentos podem  convergir e as condições de vida das massas podem aumentar de forma sustentada, como acontece  com a chamada Idade de Ouro que vai desde 1945 até 1973. Mas Piketty discute que esta situação, que muitos de nós consideramos  como o que é normal, pode  bem ter sido uma excepção histórica. As “forças da divergência podem em qualquer momento recuperar as vantagens, como parece  estar a acontecer  agora, no início do século XXI,” escreve Piketty. E, se as tendências actuais continuam, “as consequências para a dinâmica a longo prazo da distribuição da riqueza são potencialmente terríveis.”

Até por volta dos anos 50, o director-executivo americano médio era pago aproximadamente como vinte vezes o salário do empregado típico da sua empresa. Actualmente, nas empresas  do índice  Fortune 500, a relação dos salários entre os directores  e os empregados  de uma qualquer  estabelecimento  da mesma empresa é de duzentos para  um, e muitos C.E.O.s  têm mesmo rácios de remunerações mais elevados ainda.  Em 2011, Tim Cook, director da  Apple recebeu 378 milhões de dólares como salário, acções e outros benefícios, o que significa seis mil duzentas e  cinquenta oito vezes ( 6258) o salário de um empregado médio de Apple. Um trabalhador típico a trabalhar na  Walmart ganha menos de 25 mil dólares por  ano; Michael Duke, director-executivo anterior de Walmart teve como remunerações globais  vinte e três milhões de  dólares em 2012. Esta  tendência é evidente em toda parte. De acordo com um relatório recente publicado por Oxfam, as oitenta e cinco pessoas  mais ricas no mundo- como Bill Gates, Warren Buffett  e Carlos Slim —possuem mais riqueza do que os aproximadamente 3,5 mil milhões de pessoas que compõem a metade mais pobre da população do mundo.

Eventualmente, diz Piketty, nós poderíamos ver o reaparecimento  de um mundo familiar aos europeus do século XIX; ele cita  os romances  de Austen e de Balzac. Nesta “sociedade patrimonial,” um pequeno grupo de rentiers ricos vive prodigamente dos frutos da sua riqueza herdada, enquanto a restante população luta para sobreviver. Para os Estados Unidos, em particular, este seria um cruel e irónico destino. “O pioneiro ideal igualitário desvaneceu-se no esquecimento,” escreve Piketty, “e o Novo Mundo  pode estar  à beira de se transformar na velha  Europa da economia globalizada  do século XXI.”

O que são estas  “forças da divergência” que produzem  riquezas enormes para alguns e deixam  a maioria a esgaravatar para conseguir ter   uma vida aceitável? Piketty é claro dizendo-nos que há diferentes factores  por detrás da estagnação no meio e com ricos, muito ricos mesmo,  no topo da escala de rendimentos.  Mas, durante períodos de crescimento económico modesto, tais como aquele que  muitas das economias avançadas experimentaram nas últimas décadas, o  rendimento  tende a deslocar do trabalho para o capital. Devido à complexa combinação das pressões  económicas,  sociais, e políticas, Piketty receia  os “níveis de desigualdade como nunca foram antes vistos.”

Mas voltemos aos  seus argumentos, uma vez que nos apresenta  um tesouro de dados. Piketty e  Saez foram  pioneiros  na construção de gráficos simples, mostrando a proporção do  rendimento total recebido pelos dez por cento mais ricos, pelos um por cento mais ricos e até pelos 0,1 por cento mais ricos. Quando os dados são apresentados desta forma, sublinha Piketty, é fácil para as pessoas “verem a  sua posição na hierarquia contemporânea (é sempre um exercício útil, particularmente quando se pertence a centis  superiores  da distribuição e se tende a esquecê-lo, como é frequentemente o caso com os economistas).” Qualquer um que leia  o jornal estará ciente de que, nos Estados Unidos, os “um por cento” estão a obter uma proporção  cada vez maior do bolo económico, que é o rendimento do país. Mas será que se  sabe, hoje, que a proporção do rendimento obtida pelo percentil mais rico é  superior  ao que  era na África do Sul na década de sessenta- princípio de 70  e acontecendo o mesmo relativamente à  Colômbia, outra sociedade profundamente dividida, hoje? Em termos de rendimento gerado  pelo trabalho, o nível de desigualdade nos Estados Unidos é “provavelmente maior do que em qualquer outra sociedade no mundo  em todo e qualquer  momento no passado, escreve Piketty.

Algumas pessoas afirmam que a decolagem no percentil de topo,os um por cento,  reflecte o aparecimento de uma nova classe de “super-estrelas” — empresários, artistas, desportistas, autores e afins — que exploraram novas tecnologias, como a Internet, para ampliar os seus lucros à custa de  outros, concorrentes nos mesmos campos.  Se isto é verdade, as altas taxas de desigualdade podem reflectir uma realidade dura e inalterável: ganhos descomunais  estão a ser obtidos por  Roger Federer, James Patterson e outros. Piketty rejeita esta leitura.  O principal factor, insiste ele, é que as grandes empresas estão a dar aos seus principais executivos, esquemas de  remunerações  bem bizarras  e astronómicas. A sua investigação  mostra que “os super-gestores”, mais do que as  “super-estrelas”, representam  para cima de  setenta por cento dos  0.1 por cento dos rendimentos mais altos  na  escala da  distribuição do rendimento. (Em 2010, era  necessário  ganhar pelo menos US $1,5 milhões para ser considerado estar a pertencer a  este grupo de elite.). O aumento da desigualdade de  rendimentos é  em grande parte um fenómeno empresarial.

Os defensores dos altos valores auferidos como remunerações globais  gostam de reivindicar que os altos dirigentes empresariais  ganham os seus elevados salários  com o  aumento dos lucros e com a subida do valor das acções das suas empresas.. Mas Piketty aponta e responde contra esta argumentação afirmando que é muito difícil medir a contribuição (a “produtividade marginal”) de qualquer um destes indivíduos numa  grande empresa. A remuneração dos gestores de topo normalmente é definida pelas comissões de remunerações, geralmente compostas por outros altos executivos que ganham remunerações  comparáveis. “Só é razoável supor que as pessoas em condições de estabelecerem os  seus próprios salários tenham  um incentivo natural para se tratarem generosamente, ou pelo menos,  para serem  sobretudo muito  optimistas na determinação da  sua produtividade marginal” escreve Piketty.

Muitos executivos recebem um enorme volume de acções e de opções de  compra de acções. Ao longo do tempo, eles e outras pessoas ricas ganham muita dinheiro a partir do  capital que eles acumularam: estes rendimentos  são obtidos sob  a forma de dividendos, de ganhos em capital, juros, lucros das empresas privadas e de  rendas. Os rendimentos de  capital  sempre desempenharam  um papel fundamental no capitalismo. Piketty afirma que este  papel está a crescer e é pois cada vez maior sendo isto que isto que nos  ajuda a explicar porque é que a  desigualdade está tão rapidamente a aumentar . Na verdade, argumenta Piketty,  o capitalismo moderno tem uma lei interna do movimento que leva, não inexoravelmente, mas geralmente, em direcção a resultados menos iguais. A lei é simples. Quando a taxa de rentabilidade do  capital — ou seja esta expressa os ganhos anuais que com ele se obtêm    dividido pelo valor de mercado do mesmo capital — é maior do que a taxa de crescimento da economia, os rendimentos de capital tenderão   a aumentar mais rapidamente do que os salários e os vencimentos, que raramente crescem mais rápido do que o PIB.

(continua)

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Para ler a Parte I deste trabalho de John Cassidy, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá :

2. FORÇAS DE DIVERGÊNCIA – SERÁ QUE A ONDA DE DESIGUALDADE SE ESTÁ A TORNAR ENDÉMICA AO CAPITALISMO? Por JOHN CASSIDY

 

2 Comments

  1. Diferença e desigualdade são conceitos distintos. A diferença é necessária, aliás, é mesmo condição sine qua non para o desenvolvimento.
    Não me incomoda a diferença religiosa, nem a diferença de nacionalidades e das suas idiosincrassias.
    Já no que toca à desigualdade imposta por um feroz sistema de classes… Isso incomóda-me!

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