Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Piketty versus Marx: os dois economistas têm muito em comum mas as suas diferenças são também importantes
Russell Jacoby
New Republic, 7 de Junho de 2014
Parte III
(CONCLUSÃO)
…
Dez mil economistas marxistas e cinquenta mil de outros economistas tentaram actualizar ou rejeitar esta análise, mas olhando para o mundo à distância a noção de trabalhadores excedentários e em quantidade crescente parece ter compreendido uma verdade. Do Egipto para El Salvador, ou da Europa para os Estados Unidos, a maioria dos países sofre de graves ou urgentes níveis de sub- ou de desemprego. Para colocar isso de forma diferente, a produtividade capitalista eclipsa o consumo capitalista. Não importa quão vastos são os seus desejos, os 25 gestores de hedge funds não podem consumir os seus 21 mil milhões, embora eles possam tentá-lo. O capitalismo é atormentado pelo que Marx chamou de “os monstros” do “excesso de produção, excesso de população e excesso de consumo.” A própria China pode provavelmente fabricar suficientes bens não só para a Europa e para a América do Norte, mas também para África. Mas então o que acontece com a força de trabalho do mundo? De facto as exportações da China de têxteis e de mobiliário para a África Subsariana diminuíram os empregos para os africanos. (Ver Kaplinsky, “What Does the Rise of China do for Industrialization in Sub-Saharan Africa?”) .Do ponto de vista do capitalismo, temos um exército crescente de gente permanentemente sub- e desempregada, exemplares vivos da desigualdade que estão a bater às portas desesperadamente à procura de trabalho. “O mundo inteiro será ele composto de condomínios fechados ?” pergunta Branko Milanovic no seu livro sobre a desigualdade do mundo, sobre os ricos e os pobres, The Haves and the Have-Nots.
Na medida em que Marx e Piketty olham em diferentes direcções, assim são igualmente diferentes as suas soluções. Consistente com o seu alarme sobre a desigualdade e a distribuição, Piketty propõe um imposto progressivo global sobre o capital, que vai “parar o aumento indefinido da desigualdade na riqueza.” Ele admite que a ideia é “utópica”, mas mantém que é útil e necessária. “Muitas pessoas irão rejeitar o imposto global sobre o capital como uma ilusão perigosa, tal como o imposto sobre o rendimento foi rejeitado no seu tempo, há pouco mais de um século atrás.” O Capital de Marx não oferece reais soluções. O penúltimo capítulo alude a “novas forças e a novas paixões” naquela primavera que irá até transformar o capitalismo, que acabará por nos levar a uma era de “cooperação e posse em comum das terras e dos meios de produção.” A agência para efectuar essa tarefa é a classe trabalhadora. Em 2014, isto também é uma utopia — ou pior ainda, dependendo de como se interpreta a experiência soviética.
Não é preciso escolher entre Piketty e Marx. Ou, talvez, para usar a linguagem que Piketty emprega regularmente, devemos, isso sim, clarificar as suas diferenças. A utopia de Piketty possui uma vantagem prática na medida em é expressa na linguagem familiar dos impostos e da regulação; requer uma cooperação global, na verdade, um governo mundial, para uma taxa global que irá acabar com “uma espiral infinita da desigualdade.” Oferece algo tangível, um capitalismo [mundial] de estilo sueco que anule ou amacie as situações económicas extremas. Ele não aborda o problema da mão-de-obra redundante, do trabalho alienante ou de uma sociedade impulsionado pelo dinheiro e pelo lucro. Piketty aceita todas estas características e quer que nós as aceitemos também. Em troca, ele dá-nos algo que nós já sabemos, o capitalismo com todas suas vantagens, mas algumas menos das suas desvantagens.
Marx dá mais — e dá menos. A sua acusação é bem mais profunda e mais vasta, mas não vem com um capítulo “como”, em forma de conclusão. Ele pode ser chamado um anti-utópico do utópico. Num dos seus posfácios para O Capital ele despreza aqueles que querem escrever “no futuro receitas de cozinha para as lojas de venda de refeições ao domicílio.” Uma visão ou ideia emergem dos seus escritos económicos, porém, tem muito pouco a ver com o igualitarismo. Marx sempre rejeitou uma igualdade primitiva de pobreza partilhada, que seria acusada de “mediocridade universal.” Mas mesmo uma ideia mais expansiva da igualdade era pouco atractiva para Marx. Ele abraçou a riqueza do capitalismo, mas não a sua essência antagónica em que todo o trabalho — toda a sociedade — existe apenas como um instrumento para a obtenção de lucro. Mais igualitarismo só iria democratizar o mal. Ele reconheceu o poder da “cadeia de ouro”, mas também a possibilidade de romper essa cadeia. O que viria depois da cadeia ser cortada? Isso não ficou claro. Talvez o melhor que ele nos ofereceu nos seus primeiros textos em que ele também escreveu sobre uma cadeia..–e da religião como uma flor fantasiosa:
A crítica perdeu as flores imaginárias que cobriam a cadeia, não para que o homem levasse a cadeia prosaica e desoladora, mas de modo a que ele agitasse a cadeia e colhesse a flor viva. A crítica da religião desilude o homem, para que ele pense, aja, forme a sua própria realidade como um homem desiludido, que se tem tornado razoável para que se mova à sua volta e consequentemente à volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que se move à volta do homem , enquanto que não se move à volta de si-mesmo.
A história tem por conseguinte a missão, uma vez que a vida futura da verdade se desvaneceu, de estabelecer a verdade da vida presente. E a primeira tarefa da filosofia, que está ao serviço da história, consiste, uma vez desmascarada a imagem santa que representava a abdicação do homem à si-mesmo, em desmascarar esta abdicação sob as suas formas profanas. A crítica do céu transforma-se assim em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, a crítica da teologia em crítica da política.
Marx. Introduction à la Contribution à la critique de La philosophie du droit de Hegel. Traduzido da edição francesa.
Russell Jacoby, Piketty versus Marx, The two economists have a lot in common, but their differences matter too.
Russell Jacoby is the author, most recently, of Bloodlust: On the Origins of Violence from Cain and Abel to the Present (Free Press). He is a professor of history at UCLA.
http://www.newrepublic.com/article/118024/piketty-and-marx-where-they-disagree
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Para ler a parte II deste artigo de Russell Jacoby, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
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Ver o original em:
http://www.newrepublic.com/article/118024/piketty-and-marx-where-they-disagree


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