Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
O Desastre Italiano
Perry Anderson, The Italian Disaster*,
London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014
Parte IX
(CONTINUAÇÃO)
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Reunindo as suas tropas, Bersani propôs, em vez disso, Romano Prodi, cujo nome recebeu uma ovação no seu partido. Agora, era necessário apenas uma maioria simples. O centro-direita deserta na votação. Ainda quando os votos foram contados, Prodi tinha recebido apenas 395 – cem votos a menos relativamente ao total dos eleitores do centro-esquerda. Desta vez não terá sido tanto a facção de Renzi mas terão sido, isso sim, os seguidores do seu arqui-opositor, D’Alema, que foram os sabotadores da eleição de Prodi, uma vez que havia um grande rancor contra Prodi desde o tempo da sua rivalidade na década de 1990. O PD ficou exposto e considerado como sendo um partido de gente desunida e desmoralizada, aparentemente incapaz de um mínimo de lealdade política e de unidade. Em lágrimas, Bersani demitiu-se como líder e, no meio de um barulho ensurdecedor de uivos na imprensa sobre os perigos da ingovernabilidade que o país enfrentava, o partido apressou-se a juntar-se a Berlusconi a mendigar a Napolitano que salvasse a Itália com um segundo mandato. Com muitos afirmações suas de que isso era contra a sua vontade Napolitano graciosamente aceitou e no sexto escrutínio obteve a votação que suavemente o levaria de volta para o palácio presidencial, de onde tinha ostensivamente deixado o lugar vago. Com a idade de 87 anos, ultrapassado na idade apenas por Mugabe, Peres e pelo moribundo rei saudita.
Um governo teria ainda que ser formado, mas com Bersani – uma figura demasiado directa e de contacto agradável – fora do caminho, Napolitano poderia proceder para re-criar o governissimo conforme os seus desejos, um governo de centro-esquerda interligado com o centro-direita. Desta vez, poderia fazê-lo mais abertamente, convocando os líderes para conferir com ele e ditar as suas escolhas. Como primeiro encontro escolheu o vice-líder do PD, Enrico Letta, um antigo democrata-cristão cujo tio Gianni Letta foi o mais urbano dos conselheiros de Berlusconi. Alfano, responsável pela legislação confere imunidade sobre Berlusconi e Napolitano, tornando-se vice-primeiro. Um funcionário do Banco Central foi instalado no Tesouro como garantia de continuidade com as políticas do Monti e em conformidade com o Compacto Fiscal. Berlusconi, no entanto, que deveu muito da sua recuperação eleitoral como candidatos à sua promessa de que iria revogar o imposto sobre a habitação criado por Monti, o correspondente ao nosso IMI, e bloquear qualquer novo aumento do IVA, fez do respeito a estas suas duas promessas a condição do parecer favorável à coligação.
O resultado foi um governo zig-zagueante e ineficaz entre compromissos incompatíveis. No final do ano, a economia tinha-se contraído em mais de 1,9 por cento e a dívida pública aumentado para 133 por cento do PIB. O seu registo económico à parte, o governo de Letta rapidamente estava manchado por dois escândalos de um tipo bem familiar. Alfano, que também era ministro do interior, esteve envolvido no transporte da esposa e filha de um dissidente cazaque a fugir das garras de Nasarbajev, enquanto o Ministro da justiça, Anna Maria Cancellieri, foi apanhada a afirmar que a filha encarcerada de um magnata da construção era acusada de fortes ligações à máfia (em tempos passados, uma apoiante do Il Moderno) mas que como uma amiga da família ela, a Ministra, faria o que pudesse pela rapariga e em tempo útil, até porque esta estava a cair numa situação de anorexia. Embora houvesse grande tumulto em ambos os casos, nenhum ministro caiu, Napolitano e Letta defenderam-nos. No Parlamento, o culto do presidente chegou a um ponto tão grotesco que os porta-vozes em ambas as Câmaras proibiam formalmente toda e qualquer menção a Napolitano a partir das intervenções dos deputados como uma afronta à dignidade da República. Naturalmente, l’innominabile terá ele próprio suplicado uma tal excessiva protecção.
O principal objectivo do governo era a reforma eleitoral para acabar com a Porcellum e a alterar a Constituição para acabar com o Senado. Desde que de acordo com as regras existentes este último tema seria um processo demorado, foi introduzido um projecto de legislação para poder reduzir o tempo necessário para conseguir este objectivo. A atenção do público, no entanto, foi rapidamente desviada pelo drama dos infortúnios de Berlusconi. Em Junho, este foi considerado culpado de prostituir menores e condenado a sete anos de prisão. Nada ajudava a sua imagem, o veredicto afectava-o pouco em termos de curto prazo: sucessivos recursos contra isso foram capazes de atrasar a data do julgamento por vários anos. Mas em Agosto foi apresentada a sentença: quatro anos de prisão (três deles renunciada – (three of them waived)) por sonegação do pagamento de impostos pessoais – sobre € 7,3 milhões – e uma proibição de dois anos de ocupação de cargos públicos. A sentença de prisão, por sua vez, desencadeou a aplicação de uma lei aprovada nos meses finais do governo do Monti, que excluía os membros do governo de serem julgados até ao período de seis anos depois de saírem do governo, A aplicação da sentença significava a expulsão de Berlusconi no Senado.
Consciente de que com isso arriscava uma rebelião pelo centro-direita que iria derrubar o seu governo, Letta não tinha pressa para forçar a resolução da questão Berlusconi enquanto este, por seu lado, fez apelos cada vez mais frenéticos a Napolitano para o salvar, na esperança ou na crença, de que a sua compreensão passada , e por ele bem conhecida, se poderia estender à sua situação de agora. Napolitano estava disposto a isso se Berlusconi pedisse perdão, admitindo a sua culpa ( mas ele estava a protestar pela sua inocência ) e somente naquele caso poderia receber o perdão presidencial tendo em conta a sua importância para a vida política do país. Mas não havia nenhuma chance de Napolitano poder ir mais longe. Ele não era sentimental: Berlusconi já não estava a ser reconhecido como antigamente. Furioso com esta frieza, Berlusconi exigiu que os ministros do seu partido se demitissem do governo, preparando-se para o deitar abaixo. Estes seus ministros tinham inicialmente aceite; mas, depois, pensaram nos seus postos de trabalho e no destino provável do centro-direita se, nestas circunstâncias, houvesse novas eleições. O resultado foi uma divisão aberta, Alfano levou bastante parlamentares para fora do controlo de Berlusconi e com o objectivo de formar um novo partido de centro-direita, para assim dar ao governo uma maioria estável que deixaria de estar sujeita aos caprichos de Berlusconi. Dez dias depois, Berlusconi foi expulso do Senado.
A vitória do Letta apareceu como sendo completa. A sua capacidade em termos de diplomacia, temperada numa tradição da democrática cristã, tinha exercido um papel chave em separar Alfano e os que o seguiram do domínio de Berlusconi. Fini tinha sido um outsider. Alfano foi um verdadeiro “insider”, o herdeiro potencial de Berlusconi : a sua deserção era a primeira verdadeira divisão no partido que Berlusconi tinha construído em torno de si mesmo. Mas o triunfo de Letta provou-se ser de muito curta duração. Em poucos dias, depois, Renzi tinha literalmente varrido as primárias para a liderança de PD que estava livre depois da saída de Bersani e limpou a velha guarda do partido, compondo a direcção responsável pelo aparelho do Partido com os seus adeptos e os fãs da sua própria geração. Ainda prefeito de Florença e nem estando mesmo no Parlamento, mas agora ao comando do seu maior contingente de deputados, ele tinha mais poder do que Letta e não perdeu tempo a demonstrar isso.
Berlusconi pode ser um convicto criminoso, mas ele não era nenhum pária – em vez disso, era o interlocutor natural do novo líder, um político que se tinha retirado para a oposição, mas que não se situava colocado fora da política e, mais ainda, estava à frente do segundo maior partido no país. O caminho a seguir seria o de fazer um acordo com ele. Em suma, Renzi estava a ter negociações confidenciais com Berlusconi, e os dois homens tinham chegado a acordo sobre as mudanças constitucionais e eleitorais a serem levadas a um Parlamento ao qual nem um nem outro pertenciam, num pacto que passaria por cortar na maioria de Letta. E então o primeiro-ministro? Em tweets como um adolescente a querer acalmar uma namorada prestes a ser abandonada, Renzi escreveu-lhe: ‘Enrico, está calmo, pois ninguém te quer tirar do teu cargo ”). Um mês depois, ele tinha derrubado Letta e instalou‑se como o mais jovem primeiro-ministro de Itália.
(continua)
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*Ver o original em:
http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster
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