HOLLANDE, UM REI SEM DIVERTIMENTOS. QUINTA CARTA À MINHA PRIMA DA PROVÍNCIA – por PATRICK MANDON

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Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

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 Hollande um rei sem divertimentos. Quinta carta à minha prima da província.

François Hollande - III

Patrick Mandon, Hollande, un roi sans divertissement. Cinquième lettre à ma cousine de province.

Le Causeur, 10 de Setembro de 2014

Parte II

 (conclusão)

Mas, objectar-me-ão, a Koajélère não é Saint-Simon! Com efeito, minha querida e bonita prima, o seu estilo prova-o bastante. Isto não impede que a sua publicação impúdica revele perfeitamente a presunção, o desgosto contrafeito dos amigos de confiança, comprometidos, e  de outros instrutores inscritos no registo da polícia moral. De resto, o que é que se aprende e que até aqui se ignorava? Que o nosso soberano não gosta dos pobres? Mas alguém, de entre todos os da camarilha do poder, ama os pobres e procura a sua companhia? A incrível ministra dos hospitais, que se mostra por toda a parte com ar afectado e um sorriso de amedrontado, gosta dos pobres? Ajuda-os? Vai esvaziar as bacias dos necessitados, nos asilos? E o Sr. de Labius, o divertido detentor da pasta dos Negócios Estrangeiros, que lança perdigotos em prata vai, pela noite fora, caminhar pelos passeios das ruas de Paris a fim de distribuir o caldo quente e o bocado de pão, que darão alma aos miseráveis?

As Excelências do partido daquela cambada de gente são, realmente, bem mais responsáveis ainda que o monarca saído das suas fileiras, ainda que estes acabem arrasados nos bastidores. Desprezavam Gouda. Desde os tempos do barão Grosse Cana, na base de muitos artigos de adulação a seu respeito e apoiados pelos media das revistas de massa e pelas campanhas de propaganda que estavam no zénite, que os príncipes de toda esta partilha de poder não tinham utilizado palavras tão duras a gozarem com as ideias, as maneiras e até com a aparência, é verdadeiramente desprovido de graça, o nosso pretendente ao trono da França. O actual presidente da câmara municipal de Lille, matrona extremamente maldosa, tinha assinado um pacto com Grosse Cana, a fim de facilitar a subida deste último. Estava pronta para governar com o campeão dos poderosos, os capitães de indústria e os detentores de casas de prostituição. Actualmente, pretende dar voz aos sem abrigo, os amaldiçoados da terra, do mar e às vezes do próprio Céu! Sob a sua máscara de madona do Norte, esconde-se a figura de uma mulher de cabeça-quente, que sonha com a vingança. Todos, enfim, zombavam deste pequeno homem barrigudo. Ora, logo que o viram tão próximo de poder passar a reinar, juntaram-se imediatamente atrás dele, depois deste ter retomado a posição que lhe era a habitual, que é estar de cócoras, acompanhados dos maiores sinais de grande servilismo. Hoje, ele está por terra , hoje, está de rastos e fingindo quererem levantá-lo, eles precipitam-se mas é para o espezinhar e os seus rivais marcharão sobre o seu ventre para o içarem depois até ao seu trono.

Guardei-vos o melhor desta palhaçada ambiente para o fim. Imaginem que, no gabinete Valstar 2, deslizou lá para dentro um personagem totalmente surpreendente, o ministro do comércio, Augustin Cacheçéssous. Esta maneira de Gaudissart 2.02, feliz, vestido pelos melhores alfaiates mostrava por toda a parte o rosto de auto-satisfação . No plano da moralidade, não apresentava ele as melhores referências? Imaginam que este Sr., parentes de Morlebourg, tinha sido nomeado Vice-Presidente da comissão sobre a fraude fiscal, na Câmara! Tinham observado a sua veemência e as suas caretas de insulto, aquando da negociata do cavaleiro de Lordanlsac, este mosqueteiro energético e de perjúrio, que tinha deixado fugir para o estrangeiro os seus lingotes, enamorado pela liberdade. Entenda isto, minha querida e bela prima: este mesmo ministrozinho, a esperança do seu partido, sempre a rir às gargalhadas pelos corredores e dar com voz forte verdadeiras lições de moralidade, já não declarava os seus rendimentos desde há três anos! É evidente, e certamente é uma questão momentânea mas é a mais cómica das desventuras do gabinete Valstar II. Este homenzinho Cacheçéssous é o perfeito representante de uma classe política, que se acredita inocente porque se imagina intocável.

Ah, minha querida prima, temo mesmo que o nosso desafortunado monarca deixe de ter a cabeça virada para o tipo de divertimentos que a minha querida prima me oferece em cada um das minhas visitas .

Patrick Mandon, Revista Causeur, Hollande, un roi sans divertissement-Cinquième lettre à ma cousine de province,

10 de Setembro de 2014

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Texto original disponível em :

http://www.causeur.fr/hollande-un-roi-sans-divertissement-29182.html

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Para ler a Parte I deste texto de Patrick Mandon, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/09/18/hollande-um-rei-sem-divertimentos-quinta-carta-a-minha-prima-da-provincia-por-patrick-mandon/

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