
III
Estas três partidas, que acabo de indicar e que qualquer pode pôr sem custo em prática, não são comparáveis a outras que poderia aconselhar-lhes, mas que apresentam maiores dificuldades de execução.
Citarei, por exemplo, um rapaz meu amigo que, em chegando o Carnaval, andava depois da meia-noite pelas ruas menos frequentadas e, quando calhava de encontrar um noctívago de boa aparência, metia-lhe uma pistola debaixo do nariz e dizia-lhe, com a pior catadura:
– Ponha para aqui a carteira, o relógio e o que trouxer de valor!
O assaltado executava integralmente o programa aconselhado e, tendo o meu amigo tomado nota do nome e da morada das vítimas, mandava-lhes, na quarta-feira de Cinzas, um bilhete postas nos seguintes termos:
Ex.mo Sr.
Vossa Ex.ª, ao ser assaltado na noite de tantos do corrente imaginou que tinha diante de si um ladrão. Engano! Tratava-se apenas duma brincadeira carnavalesca. Longe de ser um gatuno profissional sou um homem de sociedade e
De V. Ex.ª
At.º, V.or e Obrigado
F…
Aqui o meu amigo punha o nome de uma pessoa bem conhecida em Lisboa, e escusado será dizer que guardava a carteira, o relógio e os outros objectos de arte, senão a graça não teria nenhuma.
Outro meu amigo, que tinha vivido muito tempo na América, punha em prática gracejos com a marca do mais puro «humor» anglo-saxónico.
Assim, usava ele em qualquer restaurante sacar à socapa do bolso um frasco com gasolina, derramar uma porção sobre o chapéu duma senhora, puxar doutro bolso uma acendalha, largar fogo ao chapéu e, quando toda a gente alvoraçada procurava acudir à pobre criatura, ele punha-se tranquilamente a distribuir programas de um extintor de incêndios. O mais engraçado é que o meu amigo não era interessado de modo nenhum na venda dos aparelhos. Fazia aquilo para se divertir.
Mas um certo Carnaval, vi-o ficar com grande cara de parvo. Num dos nossos clubes mais «chics», ele pretendeu recomeçar a sua graça e deitar fogo ao chapéu duma das senhoras presentes. Puxou da gasolina e da acendalha; mas, por mais que fizesse, não havia meio de pegar o lime, até que a dama, com um sorriso muito amável, lhe explicou:
– V. Ex.ª escusa de se cansar porque eu, no Carnaval, já prevendo estas brincadeiras, não uso senão chapéus de louça esmaltada.
E distribui-lhe um prospecto duma casa de artigos de cozinha. O mais curioso de tudo é que a tal senhora também não era interessada na tal loja. Fazia aquilo para se divertir.
4 de Fevereiro de 1923
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Veja a parte II de Manual do Perfeito Carnavalesco, publicada no domingo passado, 1 de Março, em A Viagem dos Argonautas, no link:
OS MEUS DOMINGOS – MANUAL DO PERFEITO CARNAVALESCO – por ANDRÉ BRUN

