David Mourão-Ferreira (1927- 1996)
Escritor, nasceu em Lisboa, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Considerado um dos grandes poetas do século XX.
Colaborador de jornais e revistas, tais como o Diário Popular e a Seara Nova, foi um dos fundadores da revista literária Távola Redonda Entre
1963 e 1973 foi secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores.
Depois de 25 de Abril de 1974, foi director do jornal A Capital e director-adjunto do O Dia, de 1976 a Janeiro de 1978, e em 1979 desempenhou o cargo de Secretário de Estado da Cultura. Foi director do Serviço de Bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian.
Na televisão, destaca-se o seu programa Imagens da Poesia Europeia, para a RTP. São famosos alguns dos poemas que compôs para a voz de Amália Rodrigues, como Sombra, Maria Lisboa, Nome de Rua, Fado Peniche e sobretudo Barco Negro.
Apresentamos o seu conto “Agora que nos encontrámos”
Agora que nos encontrámos, nunca mais nos vamos perder, pois não? E precisamos tanto de conversar! Precisávamos de fazer uma viagem de comboio, daquelas que se faziam antigamente, muito longas, em que se gastavam treze horas num percurso de trezentos quilómetros. Mas nem isso chegava… Precisávamos, sim, era de ir de comboio através de toda a Europa, de toda a Ãsia, até Pequim ou Vladivostok. E pernoitar em todas as estalagens que já não existem. Ficarmos a conversar ao canto do fogo, durante a noite; e viajar continuamente durante o dia…
Pensas tu que foi há vinte anos? Quem te garante que era eu? Podia ser, no fim de contas, qualquer das minhas irmãs. Mas assim nua, à torreira do sol, sempre a entrar e a sair da água, devia ser eu com toda a certeza. Agora (sabes?) odeio o Verão. O Inverno é muito melhor para a gente se conhecer. E preciso de roupa, de muita roupa — de camisolas de lã, de collants de malha, de saias compridas, de gorros de pele —, para sentir as outras pessoas. Preciso mesmo de estar com luvas (estas ou outras, tanto faz) para conseguir acariciar-te. E sobretudo isto: os pés, os joelhos. De qualquer modo, como vês, só assim por cima dos cobertores.
Hoje em dia, quando me dispo diante de alguém, é principalmente para ver se me escondo. Ou se me esqueço. Ou se me disfarço. Nunca reparaste? Numa praia, por exemplo… Quanto mais despidos ficamos, mais temos a sensação de que ninguém nos reconhece. Há vinte anos? Aos vinte anos era diferente.
Não estremeças. Não te assustes. Este comboio, a esta hora, todas as noites aqui passa. Não; daí não o vês… Terás de contentar-te em ouvi-lo passar. Mas eu encarrego-me, se quiseres, de te dizer como ele vai. É enorme, sabes? Compridíssimo… Parece que não tem fim. E leva as carruagens todas às escuras, quase que se confunde com a própria noite. Todas, não… A última (só agora a vejo, só agora está a passar aqui diante da janela) , a última vai iluminada. E que bem que se vê tudo lá por dentro! É um vagão-restaurante, com cortinas vermelhas, com madeiras enceradas, com pequenos candeeiros — também vermelhos — em cima de cada mesa. Mas vêem-se apenas os vultos de duas pessoas — uma mulher e um homem —, que certamente não se conhecem: vão abancados em mesas separadas, com três ou quatro de permeio, e olhando, a distância, fixamente um para o outro.
Regressas (lembras-te?) daquela praia da Costa Brava, onde passaste um mês de férias. Ias quase jurar que conheces essa mulher muito nova, que vai sentada ali adiante e que também não tira os olhos de ti. Não é a mesma que vias, todas as manhãs, a entrar e a sair da água, inteiramente nua, lá no fundo da praia, naquele extremo em que os rochedos, tortos e desgarrados, encenavam ainda a ilusão de uma última praia? Se é realmente quem te parece, também ela te reconheceu. E havia outras duas, da mesma idade, mas sempre vestidas, que permaneciam no alto das rochas e como que por acaso se conservavam, de onde quer que as olhasses, invariavelmente de costas para ti.
Já reparaste como escureceu, aqui dentro, depois de o comboio ter passado? Agora, imagina, até me resolvo a descalçar as luvas: basta que a noite se apresse em me cobrir as mãos, desde as pontas dos dedos até aos pulsos… E toco-te os joelhos (sentes?) assim por cima dos cobertores, do lençol e dos cobertores, mas a película de noite que me envolve os dedos atravessa e desfaz todos esses tecidos. Conheço finalmente a forma dos teus joelhos, e muito melhor do que se estivesse a vê-los. É bom saber, por outro lado, que não conseguirás fazer nenhum movimento brusco. E que permanecerás aí, estendido, enquanto continuo a acariciar-te.
A rapariga, no vagão-restaurante, começa lentamente a desabotoar a blusa, não deixando, nem por um momento, de te fixar a direito nos olhos. E tudo isto sem um sorriso, sem uma sombra de provocação. Mas tu sentes os nervos crispados, os ossos e os músculos a entrechocarem-se, ao ritmo desengonçado do comboio que avança, às cegas, por uma Espanha de pesadelo. Terra vermelha, Lua vermelha, nem com o pôr do Sol o incêndio do dia se extinguiu. As rodas parecem, por vezes, soltar-se dos carris, como se o calor acumulado, nas pedras e no aço, as repelisse e por instantes as fizesse pairar. Nas tuas mãos, o copo de cerveja, ainda há pouco gelada, vai ficando tão quente como o suor da tua testa, como a saliva na tua boca, como a transpiração que te cola as calças à pele das coxas e do ventre. E a rapariga, ali defronte, três ou quatro mesas mais adiante, tem já a blusa inteiramente aberta: os seios, grandes e firmes, bronzeados como os ombros, como o resto do torso, acabaram, por sua vez, de afastar por completo as duas bandas da blusa desabotoada. O que mais te admira é que não estremeçam independentemente do tronco; que só oscilem, pelo contrário, em conjunto com ele, como se talhados, em conjunto, no mesmo bloco de pedra. E parece-te, além disso, que toda ela se mantém muito mais hirta do que tu, que muito menos se desconjunta a cada solavanco do comboio. É então, de repente, que tudo voa pelos ares.
Estava a fazer-te impressão o meu gorro de pele? Agora, pronto, já o tirei da cabeça. Mas mal consegues dar por isso, e não admira: tenho hoje os cabelos da mesma cor; e, para mais, estão curtos, eriçados, em tudo semelhantes à pele do gorro. Ou será que a noite os torna ainda mais escuros? Confessa que não descobres onde os cabelos terminam, onde a noite começa…
E ainda compreendeste, num relâmpago, do que se tratava: que tinha havido um descarrilamento. Mas só horas depois, nem sabes quantas, é que vagamente te apercebes da posição em que te encontras: não sentes as pernas, não sentes os braços; sentes apenas um peso escaldante em cima do peito e do pescoço. O mais pequeno esforço, o esboço de um grito — e pressentes que logo terás a garganta cortada. Parece-te que uma lâmina descomunal te comprime o tórax, desde o estômago até às carótidas, enquanto a cabeça, mais abaixo, se terá afundado entre outros destroços. Mas esses são menos pesados, com terra à mistura: só te impedem de ver; não de ouvir nem de raciocinar. O que sobretudo te preocupa é o peso da grande placa, a ameaça da enorme lâmina. Julgas, a princípio, que se trata do tampo de uma das mesas, talvez da própria mesa a que estavas sentado. Só muito mais tarde saberás que não: que era um pedaço do tejadilho. E distingues, de súbito, um rumor de passos por cima dessa placa. Dir-se-ia que executam um leve sapateado. Ocorre-te a imagem da rapariga. Voltas de novo a perder os sentidos. E deve ter sido pouco depois que finalmente te descobriram os da equipa de salvamento.
Porque há-de espantar-te o pormenor com que sei tudo isto? Não o tens tu próprio contado a tanta gente? Também aos meus ouvidos havia de ter chegado… Mas vês? Já passaste por momentos muito piores. Em que se compara esta banalíssima operação, a que ontem à tarde foste submetido, com esse desastre de há vinte anos? E quem pensava, nessa altura, que tu virias a salvar-te? Desta vez, pelo contrário, não é caso para preocupações. Uma úlcera! Uma úlcera no estômago! Só se fosses muito piegas é que estarias inquieto por uma coisa tão simples.
Claro está que não é nada agradável todo este aparato. Sobretudo esses tubos, aí metidos na boca e no nariz, a impedirem-te de falar… E aqui o soro, gota a gota, a entrar-te nas veias… Mas hás-de concordar que da outra vez foi muito pior. De qualquer modo, saíste de todo aquele pesadelo apenas com essa cicatriz na cara, com uma barra de alumínio enfiada na coxa esquerda, com a perna desse lado um pouco mais curta. Passaste, é certo, a partir daí, a correr o mundo mais devagar do que desejarias; mas passaste também, em compensação, a vê-lo de maneira mais atenta.
Não te inquietes. Descansa que ninguém me viu entrar. E que vissem? Já sabes como posso circular à vontade nesta casa de saúde. No entanto, só ontem à tarde, quando te dei a anestesia, é que principiaste a reconhecer-me. Foi pela cor dos olhos? Ou por outra coisa? Com o rosto quase todo coberto, apenas pelos olhos me podias conhecer… E disseste-me ainda uma frase amável, amável e ambígua, justamente a respeito dos olhos, já depois de teres levado a primeira injecção. Mas no próprio momento em que falavas dos meus olhos (ou julgas que não percebi?) olhavas-me fixamente para o desenho do peito, como se desejasses, com os teus próprios olhos, avaliar o exacto peso dos meus seios. Naquele momento, juro-te, se fosse possível… Se não estivessem ali as outras pessoas à nossa volta, os outros médicos, as enfermeiras, eu mesma teria desabotoado a bata, um instante que fosse, para que me visses os seios à tua vontade.
E sabes porquê? Porque nem te apercebias do teu desejo. Porque tinhas voltado, de repente, a uma espécie de infância. Estavas deitado de costas, amarrado, já meio adormecido, inteiramente à mercê dos cuidados dos outros… E de súbito falaste na tua mãe: mais uma vez a propósito dos meus olhos. Mas não percebi se afinal se tratava de uma semelhança; ou de um contraste. É que a frase ficou a meio, no preciso momento em que parecias hesitar entre um tom de gracejo e um registo mais sério. E mesmo nesse instante, em que estavas a perder os sentidos, ainda os teus olhos procuravam o meu peito.
Agora (vês?) já posso finalmente fazer-te a vontade. Foi para isso mesmo que surgi assim, às escondidas, a esta hora precisa em que tenho a certeza de que ninguém virá. E desculpa se ainda há pouco te dei a entender que trazia muita roupa. Era mentira. Só tenho, em cima da pele, este casaco de peles: exactamente como tu preferes, desde há muito, que te apareçam, ou te aguardem, as mulheres que tu amas. De um momento para o outro, num instante, é só eu querer… Repara: até já o fui desabotoando… E bastar-me-á destraçá-lo de repente para que logo me vejas nua.
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Estás agora numa cave do Bairro das Janelas Vermelhas. Ou melhor: estás neste momento a descer as escadas. Em cima, na sala ao nível da rua, o espectáculo de strip-tease terminou há poucos minutos: não foi melhor nem pior do que todos os outros a que tens assistido. Mas, à saída, uma rapariga magra, que se tinha sentado a teu lado durante a sessão, alicia-te, em francês, num francês correctíssimo, para outro espectáculo mais privado que terá lugar na cave dentro de momentos. A quantia que te pede — ou quase te exige — é de tal modo exorbitante que terás de renunciar, no caso de a satisfazeres, a algumas outras tentações que Amesterdão te oferece. Mas é essa exorbitância que logo te inflama a curiosidade. Abres a carteira, e é ela mesma, com os dedos magros, quem se encarrega de retirar as três notas de cem florins. O sorriso vagamente profissional de que se acompanha este gesto acende-te a suspeita — que até certo ponto, sem dúvida, te agrada — de que vai ser ela a protagonista do espectáculo. Vendo melhor, é realmente magríssima como a princípio te pareceu, e sobretudo extraordinariamente alta, mais afilada ainda pelo casaco preto, de peles, que lhe desce quase até aos pés. E só então reparas que ela se encontra descalça; e te apercebes, ao mesmo tempo, de que deve estar nua, inteiramente nua, sob o casaco de peles.
(Continua)

