(Conclusão)
Perdoa: esta gargalhada saiu-me sem eu dar por isso. Mas conseguiste fazer um tal trejeito, mesmo com esses tubos aí metidos na boca e no nariz, que não pude deixar de me rir deste modo. Tantas coisas que esse trejeito queria dizer! Creio que eu própria seria capaz de enumerá-las, uma por uma, sem esquecer com certeza nenhuma delas. E não são elas, evidentemente, que podem dar vontade de rir. O que há de cómico é que tantas coisas diferentes se tenham assim acumulado, encavalitado dessa maneira num só trejeito! E havia umas (agora sou ainda mais capaz de as distinguir) que apenas exprimiam surpresa; ou apenas espanto. Mas outras exprimiam mesmo terror.
Claro que sim: também estou descalça. Vês como interpreto bem os teus olhares? Daí não podes, de maneira alguma, ver os meus pés. Mas essa interrogação, com que os teus olhos desceram, já por duas vezes, desde o meu rosto até aos teus próprios pés, foi suficientemente clara para que eu compreendesse. E compreendo igualmente o que perguntas agora… Sim, já vinha descalça quando aqui entrei. Só não compreendo por que motivo também isso te há-de aterrar.
Sossega. Volta de novo a descer até à cave. Enquanto desces, apenas vês os cabelos e a nuca da rapariga. Os cabelos são curtos, curtos e pretos, da cor da noite. Da cor do casaco. Da cor do tecto, da cor das paredes da escada. Em contrapartida, a nuca — inteiramente a descoberto, porque ela vai de cabeça baixa — parece talhada num pedaço de marfim, com vagas sombras mais escuras nos pontos em que os cabelos foram recen- temente rapados. E são essas sombras, e são a cor e a espessura dos próprios cabelos que assim lhe dão, vista de costas, um inquietante aspecto de força animal. Mas ei-la que atinge o fim das escadas: ao rodar o pescoço na tua direcção, é todo etéreo, quase angélico, o sorriso que lhe ilumina o rosto. Dir-se-ia, no entanto, um sorriso que ela acendeu propositadamente para que tu lhe admires a finura dos traços, a pureza do oval muito correcto, o aristocrático recorte das sobrancelhas, das pálpebras, do nariz, da boca. E parece-te que a posse daquele rosto (o corpo, entretanto, deixou de te interessar) não merece apenas as três centenas de florins que ela já recolheu, mas tudo o mais, tudo o mais que ainda queira extorquir-te. Apetece-te de repente que ela então se ajoelhe; que nesse movimento, porém, se mostre mais autoritária que submissa; que melhor te ordene, em suma, do que propriamente se disponha, a ser, ali mesmo, esbofeteada e penetrada pelo teu sexo. Mas, em vez disso, torna de novo a virar-te as costas, encaminhando-te ao longo da cave, através de um comprido corredor.
Esta cave, este corredor encontram-se decorados como uma antiga carruagem de caminho de ferro. Abrem-se, de um lado, larguíssimos janelões de onde se vêem, projectadas em écrans, e à beira de nítidos canais traçados a esquadro, junto de opulentos palácios patrícios, solitárias figuras femininas a vaguearem, nuas, entre uma láctea atmosfera cor de esperma. De outro lado corre uma sucessão de compartimentos, com as portas fechadas, as cortinas corridas; e de cada compartimento vem um arfar de corpos em cópula, de mistura com um ruído estranhamente macabro: parece-te mesmo, sem saberes explicar porquê, que esses corpos agitam gigantescos colares fabricados com ossos. Mas compreendes, a seguir, que se trata de uma trucagem sonora: todos esses ruídos, e ainda um fundo de música concreta a imitar os ritmos de um comboio em marcha, foram habilmente misturados na gravação que estás a ouvir.
A rapariga, à tua frente, vai seguindo muito devagar, como que de propósito para que possas distinguir as diferenças que existem entre os ruídos de cada compartimento; ou para que possas aperceber-te melhor, se assim o preferes, das diferenças que também apresentam as imagens em movimento para lá dos larguíssimos janelões; ou, mais provavelmente ainda, para que saibas sintonizar, a teu gosto, as imagens e os sons que te chegam de cada lado. Mas a verdade é que se torna difícil sintonizá-los: as figuras mostram-se cada vez mais estáticas, os ruídos cada vez mais frenéticos. Dos gemidos entrecortados que emergiam do primeiro compartimento tem-se passado para gritos roucos, para silvos, uivos, obscenidades berradas numas poucas de línguas. E entretanto, do outro lado, as figuras vão-se esbatendo e imobilizando, ao mesmo tempo que os canais aparecem atulhados de lixo, as pontes destruídas, as fachadas cobertas por uma gangrena implacável que transforma os palácios de há pouco em miseráveis pardieiros. Mas apaga-se de súbito o último écran e extinguem-se por completo todos os ruídos, no momento em que vocês atingem o fundo do corredor.
Acalma-te, já te disse. Acalma-te. É outro comboio, sim. Outro comboio que também aqui passa todas as noites, mais ou menos a esta hora. Se tu o visses! Como ele avança penosamente, em velocidade reduzida, a resfolgar por todas as goelas! É por isso que faz muito mais barulho que o de há bocado. E não é só nisto que são diferentes. Este leva as carruagens iluminadas, mas as luzes são tão mortiças e a atmosfera vai tão cheia de fumo que tudo aquilo parece uma enfiada de velórios… Só se vêem vultos e vultos amontoados, quase empilhados até ao tecto. Claro está que não são turistas.
Mas porque hás-de tu acreditar no que eu te digo? Este comboio que só estás a ouvir pode ser tão irreal — ou tão habilidosamente simulado — como o da cave de Amesterdão. Que te importam, de resto, comboios carregados de emigrantes, se nem fazes a mínima ideia do que isso seja? Tens apenas passado na vida como um simples turista, relativamente afortunado; e assim é que estás certo contigo próprio, assim é que deves continuar a ser.
Isso mesmo: olha de novo para mim como se eu fosse a rapariga que te aliciou para o tal espectáculo mais privado. Chegámos agora ao fim do corredor; estamos na cauda da carruagem; e vês neste momento o começo de mais outra carruagem, para lá dos vidros que estão defronte de ti. Descobres logo que se trata do vagão-restaurante; ou melhor: de um simulacro de vagão-restaurante, em perspectiva cenográfica, com as duas filas de mesas, todas desertas, a descerem em declive suave na tua direcção. Julgas compreender que será ali a plateia; mas eu dou-te a entender que não, que é antes o palco; e intimo-te, com um gesto, a que permaneças onde estás. Então, do alto do palco, surge e começa a descer outra rapariga, vestida exactamente como eu estou vestida, exactamente quase despida como eu própria me encontro. Mas, à parte este pormenor de indumentária — ou de escassez de indumentária —, não há mais nada de comum entre nós as duas. Ela é uma fêmea de tipo planturoso, a avaliar pela extrema vitalidade do rosto carnudo, pela indolência felina dos cabelos ruivos e muito compridos, pelos generosos volumes que se adivinham sob o casaco preto, pelo próprio modo ondulante como se desloca sobre a alcatifa daquele cenário. Tu ficaste completamente fulminado diante da sua aparição. E compreendo que doravante nem o meu rosto já te possa interessar.
A rapariga deteve-se agora a meio da cena, a três os quatro metros do lugar onde estamos. E, num relâmpago, destraça o casaco de peles que já trazia desabotoado; mas volta imediatamente a envolver-se dentro dele, ficando com as mãos cruzadas sobre o peito. No entanto, o que só entreviste, nessa fracção de segundo, chegou para de assombro te sufocar. Foi apenas um relance e todavia bastou para concluíres que nunca tinhas visto nada de semelhante em matéria de esplendor sensual, de irradiação erótica. Nada, enfim, que possas traduzir em termos de beleza: a intensa bestialidade, cor de fogo, desse púbis imenso, desse ventre espaçoso mas tão liso, desses peitos pesados e contudo tão erectos, só te acorda o desejo de lutares ofegante, de ficares afogado, de te sentires por fim ressuscitar, aos poucos, entre limos de lume num litoral de lodo.
A um gesto meu, que tu surpreendes, a rapariga, do lado de lá do vidro, começa agora, mas muito lentamente, a entreabrir as bandas do casaco de peles. A luz, entretanto, decresceu; e em vez do fulgor de que estarias à espera, nem consegues, de princípio, ver o quer que seja do que ela entremostra. E só quando as bandas do casaco já flutuam no que deveria ser o contorno das ancas é que a luz, de súbito, rompendo de chapa, te faz ver cruamente, sobre o forro preto e ainda ondulante, a forma desengonçada de um enorme esqueleto. Mas também a cabeça, os cabelos e as feições desapareceram de todo, para darem lugar a uma simples caveira. O que há de insuportável nesta visão é o facto de ser muito mais demorada que a de há pouco, ao mesmo tempo que sobre ti desabam, multiplicadas por ocultos altifalantes, cascatas torrenciais de gargalhadas de troça. Felizmente que à tua direita se entreabre, enquanto isto acontece, uma porta automática: e já te precipitas para a pequena plataforma a que ela dá acesso, e já vais a correr, coxeando, ao encontro da única saída que ela apresenta. Outro corredor, outra escada de ferro. Encontras-te finalmente ao ar livre, mesmo ao lado da porta por onde tinhas entrado para o espectáculo de strip--tease. Mas a rua mostra-se agora inteiramente deserta; já se extinguiram, por completo, nos prédios minúsculos, as «janelas vermelhas», bem como os anúncios luminosos dos cabarés, dos cinemas «porno», das vitrinas dos sex-shops; apenas mais adiante, do outro lado do canal, continua flutuando — balão oblongo somente cheio de ar — um enorme preservativo que pretende criar a ilusão de um falo gigantesco. E aquilo parece-te a caricatura da ilusão do próprio desejo.
É claro que esta experiência, em todos os seus pormenores, nunca depois a contaste a ninguém. Mas sabes, ao menos, que fiquei ainda a chamar por ti? Sabes, ao menos, que não desejava, pela minha parte, que tão depressa tivesses saído? E que o espectáculo — como te hei-de dizer? — não tinha realmente terminado.
Creio que principias a compreender por que motivo me encontro aqui, por que razão vim esta noite. E acho também que não vale a pena continuar a iludir-te. Surgiram, de facto, umas graves complicações: a operação era muito simples, e correu tudo o melhor possível, mas houve um problema por causa da anestesia. No fim de contas, só a mim me poderás culpar — se é que se pode culpar alguém destas coisas que acontecem. Mas vim justamente para te distrair. E para te compensar. E para te esclarecer.
É chegado o momento (vês?) de ser eu própria a abrir o casaco. Nada receies. Não se trata agora de nenhuma trucagem. Não vais tornar a ver—descansa!—o esqueleto que viste em vez do corpo da outra rapariga. Agora é diferente: agora não vês nada; não há nada. Mas talvez este nada seja tão ilusório como o tudo que sempre procuraste no corpo de tantas mulheres. Seja como for, sei que é a altura de ficar contigo. Nem seria possível — agora que nos encontrámos — que mais uma vez nos viéssemos a perder.
(Contos, 1973)
