Agora que nos encontrámos (2) – por David Mourão-Ferreira

(Conclusão)

 

Perdoa: esta gargalhada saiu-me sem eu dar por isso. Mas conseguiste fazer um tal trejeito, mesmo com esses tubos aí metidos na boca e no nariz, que não pude deixar de me rir deste modo. Tantas coisas que esse trejeito queria dizer! Creio que eu própria seria capaz de enumerá-las, uma por uma, sem esquecer com certeza nenhuma delas. E não são elas, evidentemente, que po­dem dar vontade de rir. O que há de cómico é que tantas coisas diferentes se tenham assim acumulado, encava­litado dessa maneira num só trejeito! E havia umas (agora sou ainda mais capaz de as distinguir) que ape­nas exprimiam surpresa; ou apenas espanto. Mas outras exprimiam mesmo terror.

 

Claro que sim: também estou descalça. Vês como interpreto bem os teus olhares? Daí não podes, de ma­neira alguma, ver os meus pés. Mas essa interrogação, com que os teus olhos desceram, já por duas vezes, desde o meu rosto até aos teus próprios pés, foi suficien­temente clara para que eu compreendesse. E compreendo igualmente o que perguntas agora… Sim, já vinha descalça quando aqui entrei. Só não compreendo por que motivo também isso te há-de aterrar.

Sossega. Volta de novo a descer até à cave. Enquanto desces, apenas vês os cabelos e a nuca da rapariga. Os cabelos são curtos, curtos e pretos, da cor da noite. Da cor do casaco. Da cor do tecto, da cor das paredes da escada. Em contrapartida, a nuca — inteiramente a descoberto, porque ela vai de cabeça baixa — parece talhada num pedaço de marfim, com vagas sombras mais escuras nos pontos em que os cabelos foram recen- temente rapados. E são essas sombras, e são a cor e a espessura dos próprios cabelos que assim lhe dão, vista de costas, um inquietante aspecto de força animal. Mas ei-la que atinge o fim das escadas: ao rodar o pescoço na tua direcção, é todo etéreo, quase angélico, o sorriso que lhe ilumina o rosto. Dir-se-ia, no entanto, um sor­riso que ela acendeu propositadamente para que tu lhe admires a finura dos traços, a pureza do oval muito correcto, o aristocrático recorte das sobrancelhas, das pálpebras, do nariz, da boca. E parece-te que a posse daquele rosto (o corpo, entretanto, deixou de te interes­sar) não merece apenas as três centenas de florins que ela já recolheu, mas tudo o mais, tudo o mais que ainda queira extorquir-te. Apetece-te de repente que ela então se ajoelhe; que nesse movimento, porém, se mostre mais autoritária que submissa; que melhor te ordene, em suma, do que propriamente se disponha, a ser, ali mes­mo, esbofeteada e penetrada pelo teu sexo. Mas, em vez disso, torna de novo a virar-te as costas, encaminhan­do-te ao longo da cave, através de um comprido cor­redor.

Esta cave, este corredor encontram-se decorados como uma antiga carruagem de caminho de ferro. Abrem-se, de um lado, larguíssimos janelões de onde se vêem, projectadas em écrans, e à beira de nítidos canais traçados a esquadro, junto de opulentos palácios patrí­cios, solitárias figuras femininas a vaguearem, nuas, entre uma láctea atmosfera cor de esperma. De outro lado corre uma sucessão de compartimentos, com as portas fechadas, as cortinas corridas; e de cada com­partimento vem um arfar de corpos em cópula, de mis­tura com um ruído estranhamente macabro: parece-te mesmo, sem saberes explicar porquê, que esses corpos agitam gigantescos colares fabricados com ossos. Mas compreendes, a seguir, que se trata de uma trucagem sonora: todos esses ruídos, e ainda um fundo de música concreta a imitar os ritmos de um comboio em marcha, foram habilmente misturados na gravação que estás a ouvir.

 

A rapariga, à tua frente, vai seguindo muito devagar, como que de propósito para que possas distinguir as dife­renças que existem entre os ruídos de cada comparti­mento; ou para que possas aperceber-te melhor, se assim o preferes, das diferenças que também apresentam as imagens em movimento para lá dos larguíssimos janelões; ou, mais provavelmente ainda, para que saibas sintonizar, a teu gosto, as imagens e os sons que te chegam de cada lado. Mas a verdade é que se torna difícil sintonizá-los: as figuras mostram-se cada vez mais estáticas, os ruídos cada vez mais frenéticos. Dos gemidos entrecortados que emergiam do primeiro com­partimento tem-se passado para gritos roucos, para silvos, uivos, obscenidades berradas numas poucas de línguas. E entretanto, do outro lado, as figuras vão-se esbatendo e imobilizando, ao mesmo tempo que os canais aparecem atulhados de lixo, as pontes destruídas, as fachadas cobertas por uma gangrena implacável que transforma os palácios de há pouco em miseráveis par­dieiros. Mas apaga-se de súbito o último écran e extinguem-se por completo todos os ruídos, no momento em que vocês atingem o fundo do corredor.

Acalma-te, já te disse. Acalma-te. É outro comboio, sim. Outro comboio que também aqui passa todas as noites, mais ou menos a esta hora. Se tu o visses! Como ele avança penosamente, em velocidade reduzida, a res­folgar por todas as goelas! É por isso que faz muito mais barulho que o de há bocado. E não é só nisto que são diferentes. Este leva as carruagens iluminadas, mas as luzes são tão mortiças e a atmosfera vai tão cheia de fumo que tudo aquilo parece uma enfiada de velórios… Só se vêem vultos e vultos amontoados, quase empilhados até ao tecto. Claro está que não são turistas.

Mas porque hás-de tu acreditar no que eu te digo? Este comboio que só estás a ouvir pode ser tão irreal — ou tão habilidosamente simulado — como o da cave de Amesterdão. Que te importam, de resto, comboios carregados de emigrantes, se nem fazes a mínima ideia do que isso seja? Tens apenas passado na vida como um simples turista, relativamente afortunado; e assim é que estás certo contigo próprio, assim é que deves continuar a ser.

Isso mesmo: olha de novo para mim como se eu fosse a rapariga que te aliciou para o tal espectáculo mais privado. Chegámos agora ao fim do corredor; estamos na cauda da carruagem; e vês neste momento o começo de mais outra carruagem, para lá dos vidros que estão defronte de ti. Descobres logo que se trata do vagão-restaurante; ou melhor: de um simulacro de vagão-restaurante, em perspectiva cenográfica, com as duas filas de mesas, todas desertas, a descerem em declive suave na tua direcção. Julgas compreender que será ali a plateia; mas eu dou-te a entender que não, que é antes o palco; e intimo-te, com um gesto, a que permaneças onde estás. Então, do alto do palco, surge e começa a descer outra rapariga, vestida exactamente como eu estou vestida, exactamente quase despida como eu própria me encontro. Mas, à parte este pormenor de indumentária — ou de escassez de indumentária —, não há mais nada de comum entre nós as duas. Ela é uma fêmea de tipo planturoso, a avaliar pela extrema vita­lidade do rosto carnudo, pela indolência felina dos cabelos ruivos e muito compridos, pelos generosos volu­mes que se adivinham sob o casaco preto, pelo próprio modo ondulante como se desloca sobre a alcatifa daquele cenário. Tu ficaste completamente fulminado diante da sua aparição. E compreendo que doravante nem o meu rosto já te possa interessar.

 

A rapariga deteve-se agora a meio da cena, a três os quatro metros do lugar onde estamos. E, num relâm­pago, destraça o casaco de peles que já trazia desabo­toado; mas volta imediatamente a envolver-se dentro dele, ficando com as mãos cruzadas sobre o peito. No entanto, o que só entreviste, nessa fracção de segundo, chegou para de assombro te sufocar. Foi apenas um relance e todavia bastou para concluíres que nunca tinhas visto nada de semelhante em matéria de esplen­dor sensual, de irradiação erótica. Nada, enfim, que possas traduzir em termos de beleza: a intensa bes­tialidade, cor de fogo, desse púbis imenso, desse ventre espaçoso mas tão liso, desses peitos pesados e contudo tão erectos, só te acorda o desejo de lutares ofegante, de ficares afogado, de te sentires por fim ressuscitar, aos poucos, entre limos de lume num litoral de lodo.

 

A um gesto meu, que tu surpreendes, a rapariga, do lado de lá do vidro, começa agora, mas muito lenta­mente, a entreabrir as bandas do casaco de peles. A luz, entretanto, decresceu; e em vez do fulgor de que estarias à espera, nem consegues, de princípio, ver o quer que seja do que ela entremostra. E só quando as bandas do casaco já flutuam no que deveria ser o contorno das ancas é que a luz, de súbito, rompendo de chapa, te faz ver cruamente, sobre o forro preto e ainda ondulante, a forma desengonçada de um enorme esqueleto. Mas também a cabeça, os cabelos e as feições desapareceram de todo, para darem lugar a uma simples caveira. O que há de insuportável nesta visão é o facto de ser muito mais demorada que a de há pouco, ao mesmo tempo que sobre ti desabam, multiplicadas por ocultos altifa­lantes, cascatas torrenciais de gargalhadas de troça. Felizmente que à tua direita se entreabre, enquanto isto acontece, uma porta automática: e já te precipitas para a pequena plataforma a que ela dá acesso, e já vais a correr, coxeando, ao encontro da única saída que ela apresenta. Outro corredor, outra escada de ferro. Encon­tras-te finalmente ao ar livre, mesmo ao lado da porta por onde tinhas entrado para o espectáculo de strip--tease. Mas a rua mostra-se agora inteiramente deserta; já se extinguiram, por completo, nos prédios minús­culos, as «janelas vermelhas», bem como os anún­cios luminosos dos cabarés, dos cinemas «porno», das vitrinas dos sex-shops; apenas mais adiante, do outro lado do canal, continua flutuando — balão oblongo so­mente cheio de ar — um enorme preservativo que pre­tende criar a ilusão de um falo gigantesco. E aquilo parece-te a caricatura da ilusão do próprio desejo.

É claro que esta experiência, em todos os seus por­menores, nunca depois a contaste a ninguém. Mas sabes, ao menos, que fiquei ainda a chamar por ti? Sabes, ao menos, que não desejava, pela minha parte, que tão depressa tivesses saído? E que o espectáculo — como te hei-de dizer? — não tinha realmente terminado.

 

Creio que principias a compreender por que motivo me encontro aqui, por que razão vim esta noite. E acho também que não vale a pena continuar a iludir-te. Sur­giram, de facto, umas graves complicações: a operação era muito simples, e correu tudo o melhor possível, mas houve um problema por causa da anestesia. No fim de contas, só a mim me poderás culpar — se é que se pode culpar alguém destas coisas que acontecem. Mas vim justamente para te distrair. E para te compensar. E para te esclarecer.

 

É chegado o momento (vês?) de ser eu própria a abrir o casaco. Nada receies. Não se trata agora de nenhuma trucagem. Não vais tornar a ver—descansa!—o esqueleto que viste em vez do corpo da outra rapa­riga. Agora é diferente: agora não vês nada; não há nada. Mas talvez este nada seja tão ilusório como o tudo que sempre procuraste no corpo de tantas mulheres. Seja como for, sei que é a altura de ficar contigo. Nem seria possível — agora que nos encontrámos — que mais uma vez nos viéssemos a perder.

 

(Contos, 1973)

 

 

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