Elogio da cultura oral (1)- por Dick Annegarn

(Traduzido por Júlio Marques Mota)

 

A História começaria na Suméria? Dado que a História será necessariamente escrita. São os Árabes que inventaram a escrita. Cuneiforme. Quando os gauleses andavam ainda a pintar com as mãos as suas peças de caça em cavernas pré-históricas, já se escutavam os contos, as epopeias e outros poemas bardos da Babilónia. Literatura oral. A Criação, O Dilúvio, a Epopeia de Gilgamesh, antes de virem a ser escritos, eram cantados.

 

Os meios mnemotécnicos, a enumeração, a repetição, o ritmo, a métrica, ajudavam a memorizar os textos. As harpas, as liras e as flautas acompanhavam os aedos (poetas épicos e recitadores das epopeias) e os contadores de rapsódias. As guerras deslocaram os povos, os seus heróis e os seus cronistas homéricos através da Antiguidade. A Mongólia e a África entraram na História pelas suas tradições de contos e de relatos dados aos eruditos da oralidade de memória gigantesca.

 

Um bardo lamaíta chamado Yongden deu um canto de seis semanas ao orientalista Alexandre David-Néel. De memória. Um homem morre, uma biblioteca desaparece. Palavras, palavras, dizeres, verbo? A palavra pertence ao religiosos. E aos bons faladores. Os dizeres pertencem aos dizedores. Sim, dizer, não dizer. Dizem-se tantas coisas. As palavras, elas, sentem a disputa. Ter palavras, dizer palavras. Ainda que se escreva uma palavra, é curta. Esta indica, é incompleta. Isso parece fortuito, as palavras. A prova? Podem-se dizê-las enquanto se corre a maratona, as palavras. É o verbo que parece o mais activo, o que mais liga.

 

 

Passado, presente, futuro simples ou composto, o verbo incita. O verbo espera. Dado que no início era o verbo. Antes eram as escrituras. As dionísias mediterrânicas celebravam a embriaguez poética aquando dos cortejos dançados, escoltadas pelos satíricos. Ídolos de um dia. Aí, exagera-se, blasfema-se, aí autorizam-se os heróis divinos às proezas extraconjugais e mortíferas que nos proibimos a nós – mesmos. A mitologia é imoral. Famílias destruidas geram relações dramáticas e estranhas. Para um rei Renauld sueco, ou para um Gengis Khan mongol, quantos valorosos senhores sem países e mais grandes que os grandes? Conan o Bárbaro, o príncipe William, o Rei da Pop Michael Jackson e outros Príncipes alimentam ainda esta euforia popular pelos seres extraordinários e poéticos. Na transmissão afroamericana também os exemplos fundem as personagens mágicas e lendárias. Jim Crow, John Hardy, Tom Dooley assombram os cantos populares e outros mais elaborados. A música folk.

 

 A literatura oral não pode ser reduzida aos bardos solitários e servis. O homem sempre quis ele próprio falar, cavaquear, discutir, argumentar. . Participar nas disputas orais. As tragédias gregas eram representadas em festivais poéticos onde as coristas envolviam o público numa crítica irónica e satírica. As cerimónias africanas roçam o extase. Os rways berberes afogam os seus poemas amarghs e as suas disputas orais ahwash (de confraria) em músicas que nos subjugam. Se as frases são comuns às diferentes canções, as introduções e os fins falam da actualidade presente.

 

As confrarias soufis e bâuls (músicos itinerantes de Bengala) também misturam práticas religiosas e propósitos provocadores e políticos. Brigas populares. A minha mãe contava-me os pregões das ruas de Eindhoven em Brabante do Norte. Faziam troar os seus tambores para alertar os habitantes dos assassinatos cometidos nas cidades vizinhas. Aviso à população! O verbo servia também para exprimir exasperação em disputas feitas por mendigos. Bourgeois (ou seja como os porcos) partem de um diálogo endiabrado entre estudantes vestidos com ar de domingueiro que swanzen (gracejam). Eles magoam-se. Entre semelhantes. Os dialogos em verso , os tensões, (tensão, um tipo poético dialogado da Idade média) da Gasconha também desactivam as tensões sociais.Exprimir a proibição. Num jogo de conversas de nada e de poesia oral, slam, , Claude Sicre, cantor folk da Ocitânia , propõe-se falar alto seja sobre a mulher seja sobre a fémea , numa confrontação verbal muito em geito de provocação. Os discursos, as peças oratórias, o sermão, os excessos políticos e sexuais fazem parte das tradições populares. Um concurso de versos musicados dos bascos, estes malabaristas de palavras bascas, preencheram muito recentemente um grande estádio em San Sebastian (Espanha). Sim, as disputas verbais continuam muito vivas . As sessões de slam, ( espécie de poesia oral, vizinha do rap) e de rap convidam os amadores a juntarem-se aos seus grandes irmãos para sentirem um pouco o clima criado.

 

É a literatura do pobre. Quem diz improvisação, diz conhecimento dos códigos e dos diversos géneros, diz boa memória e diz ainda acuidade. Uma arte, uma cultura. A fluência da palavra não é característica de toda a gente. O artista é um conceito ocidental. Autobiografia de autista. Noutras culturas, o artista é o eleito de um dia. Exprime os códigos colectivos. Alimentado, alojado, aceita o que se lhe dá . Depois, volta às suas tarefas. Os nossos espectáculos a pagar, com cenários e jogos de luzes onde se aplaude durante as mudanças de cenários , não correspondem às cerimónias espontâneas africanas ou asiáticas que as pessoas organizam elas mesmas. Casamentos, baptismos, colheitas, mudanças de estação, a vinda de gente nova tudo são ocasiões de festa colectiva. Família, vizinhos, aldeia, viajantes.

 

 (Continua)

 

 

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