Elogio da cultura oral (2)- por Dick Annegarn

 

(Traduzido por Júlio Marques Mota)

 

(Conclusão)

 

O espectáculo está à parte. Foi nesta perspectiva que os Amigos do verbo foram fundados em 2002. Os Amigos do verbo juntaram aí burgueses, camponeses, trabalhadores, professores, eleitos e poetas para animar voluntariamente a sociedade poética. Começou-se pela Gasconha, terra de acolhimento. Claude Nougaro no fim da sua tournée Fábulas da minha fonte, veio fixar o local onde se desenrola o primeiro Festival do verbo para aí nos dizer alguns termos de“palavras de cinema”. Os Fabulous Trobadors, André Minvielle, Oxmo Puccino, Vincent Delerm, M, Mathieu Boogaerts alinharam o passo para contribuir para este laboratório criativo do verbo. Mathieu houve os seus textos, os de seu pai e os da sua avó, Andrée Chedid. Vincent Delerm, fez aí uma conferência bem curiosa sobre as séries B da televisão. Jean-Pierre Mader fez a sua dança macumba. Uma avozinha , membro do Clube local dos cabelos de prata , declamou um rap de Joey Starr. Completamente, sabido do coração.

 

Dito com o coração . Proibidas, aqui, as leituras “demasiado sérias”. Aqui, a disputa oral, o humor, o excesso, da política, o rabo, o discurso solene enfadonho, as empanturradelas e as baladas. O pretexto do Festival do verbo é o de ornamentar com inscrições de novos versos os registos poéticos, as tábuas, as pedras onde se inscreve a poesia. Placas em grés de Périgord ou em mármore Carrara implantados ao longo dos caminhos e da cidade. Escritos festivaleiros e amigos do verbo. Algumas das placas com versos foram oferecidas às cidades de Toulouse, de Saint-Gaudens, de Liège e às cidades nos caminhos de volta de tipo de Compostela.

 

As crianças, os praticantes de slams, e outros cómicos poetas são convidados a concorrer todos os anos. Uma caravana anima os mercados do livro e outros esvaziadores de sótãos para conjugar o verbo popular. As disputas orais, as poesias em disputa, os cómicos , os narradores de histórias, os animadores dão já cor e som, animam já, naturalmente os mercados do mundo. Outros lugares como Djemaa El-Fna, círculos dos círculos, Hyde Park Corners, ou outros locais ainda poderiam ser classificados como locais de património cultural imaterial da humanidade pela UNESCO. Parlamentos populares. Festivais de encontros que são espectáculos de encontros prosperaram na verdade muito bem durante os anos 60 em Amsterdão, Berlim, Paris, Nova Iorque, e outros famosos locais da cultura POP. Allen Ginsberg, Jacques Kerouac e Dylan encantaram-nos com as suas musicas, com os seus blues, com os seus talking blues. É o inconsciente colectivo que aspira a esta euforia colectiva.

 

O festival Mythos em Nantes, o festival de Trois-Rivières em Quebeque e as Correspondências Grigny prefiguram em 2000 a cultura de fundação que hoje prevalece. A arte é aí saboreada por uma elite intelectual em geito de cocktail clube. O jazz também conhece estas fundações que asfixiam a criação que pensam estar a servir. Residências de arte triste. Reproduções sem alma. Falta de risco. Falta de relações sociais . Eis pois no que se estão a transformar os festivais de palavras, os festivais de leituras. A leitura, o grau zero do espectáculo. Meios paraónicos, cartaz de vedetas do cinema e da literatura mundana, cultura elitista vendida como uma fábrica de chave na mão em Bruxelas, Beirute e noutros lugares. Deslocalização e subcontratação. Como as Francofolies, franchising na Bélgica, na Ucrânia e em Quebeque. A cidade de Nougaro, os Zebda, os Gold e outros Fabulous Trobadors, reduzido à missa de leituras feitas para públicos sem alma.

 

Toulouse poderia ter honrado a palavra falada ou cantada no meio de uma região-mãe de trovadores e de bons faladores. Que desperdício, que recusa. De esquerda ou direita, o pessoal político e cultural não é capaz de suscitar uma qualquer criação popular. YouTube, “Star Academy “, “Nouvelle Star” e outro karaokes mundiais substituiram o papel destes festivais caros e estéreis. O desejo de cantar e de dizer continua intacto. E o sucesso das palavras cruzadas e de outros jogos mentais mostra que o povo não é tão inculto como isso e que continua a jogar e a brincar com as palavras. No entanto, os artistas de variedades, amadores, profissionais e os poetas potenciais encontram-se hoje órfãos. A cultura da escrita ignora as suas origens. Orais.

 

O povo, esse, fala.

 

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Nascido em La Haye en 1952, Dick Annegarn é um autor-compositor-intérprete (“Sacré géranium”, 1974 ; “Soleil du soir”, 2008 ; “Paroles”, edições Le mot et le reste, 2011). Este ano, retoma os clássicos do reportório folk blues americanos no disco “Folk-Talk” (edições Tôt ou Tard). Mora na região Sul Oeste de França, em Laffite-Toupière, onde organiza anualmente o Festival do verbo. Article paru dans l’édition du 17.07.11

 

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