As Manhãs Rosadas – João de Melo

 

Ter de suportar o dia até às seis da tarde, hora a que nos recolhíamos para beber tudo quanto o mundo até então produzira — isso, sim, era bem mais difícil do que o resto. O tempo não se movia, compreendem?, e ainda nada nos tinha acontecido. Canónicos e inevitáveis, só aquele céu espalmado de nuvens, um avião por semana carregado com o correio, a carne, o peixe e os legumes, e a sensação de termos sido nós os inventores da eternidade. E lá por os relógios não andarem, não quer isso dizer que fossem diferentes do costume e de pulso para pulso, consoante os olhos que os mirassem. O caso era muito outro, e só a mim cabe explicá-lo.

 

Então ao sétimo dia do mês de Janeiro! O nosso despertar obedecia ao pregão funesto que o furriel Amável puxava do fundo dos pulmões e depois vazava, de esguicho, no ar repetido das manhãs rosadas. Soldados apareciam à porta das casernas. Espreguiçavam-se, enxotavam para longe os cães africanos. Se começava aí o dia? Não o posso seguramente garantir. O grito dele acontecia sempre antes de o Sol se tornar visível. Antecipava-se mesmo à tosse das sentinelas que tinham olhos roxos de sono e vozes frias. Compreendam: tínhamos uma enorme necessidade de viver, e nunca fora aconselhável desprezar nocturnamente o inimigo.

 

Acontecia quando o furriel, para não acordar os outros, puxava atre de si a porta do quarto. Mais raro, quando cambaleava para os lavabos, de toalha traçada ao pescoço e em calções (magro como um sino, acrescente-se) e se inclinava depois para o mictório. Eu vi: um jacto fumegante, tão espumoso como xarope, por causa da hepatite ou da bilharziose. Um grito pardo, ignorado de muitos de nós, e só o ouvia quem, como eu, padecesse dum sono oco ou daquela insónia metafísica que as moscas transportavam em bolha no ventre, sugada dos monturos do morro da Lixeira:

 

— Lá vai mais um, rapaziada! Já só faltam trezentos e quarenta e três dias para acabar.

 

Fora-me dado confirmar que a contabilidade do furriel Amável era tão infalível como o Sol que atravessava os dias, queimava mares de capim, atordoava os pássaros que ficavam a espiar-nos do alto daquele céu espalmado de nuvens. Ele dependurara à cabeceira da cama um espigão de aço e dera-se ao estranho uso de marcar os números a que correspondiam os dias e os meses da nossa eternidade. Fazia-o com um sulco que riscava a caliça, esboroava o areão e o cimento fingido daquelas piolheiras de tijolo, deixando-as sem grande préstimo para o futuro. Tinha de resto o singular cuidado de, ao contrário de muitos outros, dormir apenas o essencial. Sendo o último a cair no sono — após a porfiada leitura dos escritores subversivos de então —, era todavia o primeiro a despertar. Não me admi­rava que os seus olhos possuíssem o fulgor daquelas formas de loucura que estão apenas adiadas ou ainda não conheceram o futuro.

 

Como nos fôramos habituando ao grito que inaugurava o dia e vencia as manhãs rosadas do mês de Janeiro, foi-nos sempre fácil dominar o conhecimento das horas. O furriel Amável era uma espécie de máquina do nosso tempo, entre um instante e outro do dia, ou entre os domingos e as segundas-feiras e os outros nomes por que são ainda hoje designados os dias. Tinha uma competência tão esclarecida para as coisas do tempo como outros para misturar bebidas muito diferentes no mesmo copo: ape­sar da terrível mixórdia, conseguiam bebê-las e continuar lúcidos, mais desesperados do que nunca, porque a cortiça do cérebro ganhara crostas de álcool e resistia a todas essas agressões sem ao menos se toldar. Outros detinham competências sórdidas e até absurdas, como o cabo Sereno, que recortava dos magazines as dulcíssimas bocas das mulheres e começava a masturbar-se à vista de toda a gente. Quando atingia o orgasmo, os seus gemidos de cachorro abriam-se na parada, como uma ameixa de felicida­de, e ele perdia o fôlego no beijo daquelas bocas de papel. Ou então como o alferes Severo, que escrevia no seu diário de campanha o pormenor das emboscadas e dos bombardeamentos, o inferno de identificar as armas pelo som, e a distância das coisas pelo simples fluir daquele céu espalmado de nuvens. Ou ainda como o alferes Xistoso, que fazia exercícios de ioga e assim adiava a loucura até ao dia em que o estômago luxuoso dum transa­tlântico se abrisse para nós, levando-nos de regresso a casa.

 

A contagem decrescente dos dias conferia à voz do furriel Amável uma função dramática, se bem que tão vazia de sentido como a maneira de chiar dos atrelados do lixo, o levantar da bandeira nacional na porta de armas, o toque da corneta do rancho.

 

— Já só faltam, rapaziada, duzentos e setenta e nove dias para acabar!

 

E assim aconteceu que os números se começaram a sobrepor e a misturar nas nossas cabeças, ungindo, circuncidando as manhãs rosadas de África.

 

Mas veio o dia em que o assobio dos rádios ganhou altura à distância, venceu todos os outros sons, a espora dos ruídos que então nos cercavam, e chegou ali para anunciar que o furriel das horas, dos relógios parados de véspera e do tempo sem fim morrera de acidente, esmagado pelo apoio de metralhadora do Unimog. Já não tinha importância chorar: a morte era a rigorosa e única coisa dos outros. Acontecia por vezes a alguns centí­metros da nossa cabeça. Entrava por acaso no corpo de quem fechava as mãos em concha para nos acender o cigarro, só porque uma abelha decidi­ra procurar a flor duma outra açucena, não a nossa — ou porque, dessa vez, a corola da granada, ao explodir, tornara-se mais oblonga do lado de lá da gente. O importante da morte, quando acontece de se estar na guer­ra, é que ela não seja coisa nossa — percebem?

 

O enigma começou quando alguém espalhou o boato de que o furriel Amável, apesar de morto, continuava a enviar-nos a voz sobrenatural dos seus números. Diziam outros que, não obstante rouco, o seu grito tinha um timbre tão excepcional como a verminosa mentira de todas as manhãs: os relógios voltavam a ser fortuitos, os calendários, suspeitos — e aí come­çou toda a nossa posterior desgraça. Era uma voz de vento montada num cavalo, e passava à desfilada, de modo pouco visível, com um raspar de cascos cujo som, entre próximo e longínquo, levantava à nossa frente nuvens redondas de pó e boleava o ar das novas manhãs, ainda e sempre rosadas como dantes. O grito voltava a atravessá-las, porque cada um de nós conseguia ver o seu corpo passar, invisível entre as coisas, mas balouçando no dorso do seu cavalo de vento. Diga-se mesmo que, de tudo, o pior foi que cada um começou a ouvir números diferentes, conforme a ansiedade posta no tempo ou em resposta a outros desconhecidos apelos. Isso aconteceu no momento em que o soldado Xavier proclamou à porta da caserna que já só faltavam sete dias, catorze horas e doze minutos para o fim da sua comissão de guerra, no que logo foi contrariado pelo cabo da sua secção de combate. Pelas suas contas, faltavam cento e treze dias, nem mais nem menos um. Mas também estes cálculos estavam, na opinião todo o pelotão, deveras errados. Toda a gente o ouvira, nessa mesma manhã, gritar o número cento e oitenta e seis, e na manhã da véspera o número cento e oitenta e sete, e na anterior cento e oitenta e oito — e assim sucessivamente. Chamaram pelo alferes quando a desordem era já uma coisa insuportável, e intrigou-os o facto de ele confirmar a versão de Xavier:

 

— Claro que faltam sete dias para o fim da guerra. Então eu agora sou maluco ou quê?

 

No sábado seguinte, quando a mina encheu o ar de destroços de pássaros e o estrondo chegou até nós acachapado pelo vento, os corpos do alferes e do soldado Xavier crepitaram, voando em fanicos de carne, e o pelotão tão recolheu do chão tíbias, dedos, dois crânios e tudo o mais que é posto pertencer à perfeição dos homens. E quando, tempos depois, o cabo daquela mesma secção de combate recebeu um balázio na testa e abriu muito os olhos, tinham já passado os cento e treze dias que a voz do furriel Amável há muito lhe havia anunciado. E digo-vos que a muitos outros, até ao fim daqueles dias, sucederam tantos e tais espantos que deles é difícil, e quem sabe se inútil, dar o pormenor, a noção dos relógios, a superior van­tagem de ter nos olhos a memória de quem voa e não sabe que é pássaro, anjo, cometa, desfigurado papagaio de papel.

 

Por mim, que regressei voando sobre esses ninhos e pude ser salvo das penas e pesares que se soltaram de tantos e tantos corpos, as coisas foram e são ainda simples, furiosas e instantâneas como a alegria ou o medo de verificar a terrível possibilidade da repetição das coisas. Pude não só acreditar sempre nos calendários, nos anos bissextos, nos relógios, no no­me dos meses e dos dias da semana, como posso, ainda hoje, garantir-vos que me salvou a circunstância de a voz do furriel Amável jamais se ter equivocado quanto à contagem dos meus dias.

 

Mas se outros não puderam ou não souberam ter a mesma virtude de acreditar, é tão-só porque essa voz lhes foi de todo fatal. Como um cân­tico? Não. Como a doce, a irresistivelmente doce tentação dos cisnes e dos anjos — compreendem?

 

De outra forma, ninguém hoje restaria desse tempo crepuscular, e não me seria possível a mim estar agora aqui, dar-vos a breve notícia dos pou­cos, pouquíssimos, vivos de então e contar-vos toda a história côncava das manhãs que rosaram e depois tudo esqueceram acerca daquele tempo sem medida. Nunca soube ao certo quantos lá morreram. Mas não vos pareça absurda a minha hipótese se disser que todos nós atravessámos a morte e para sempre contraímos a doença de termos sido vivos. Tenho contudo ouvido dizer que a uns poucos de nós ocorreu o estimável destino dos poetas. Pondo de parte o elogio pessoal, só gosto de contar histórias com um fim feliz, pois é essa a parte mais inocente da minha loucura.

 

Por enquanto, estou apenas do lado de cá. Se porém algum de vós vier um dia a reconhecer-me na rua, isso só quer dizer que alguma coisa desse tempo ficou por cumprir-se. Até lá, sugiro que experimentem olhar um pouco em volta, escutar o cacimbo, respirar fundo a memória deste outro Sol que agora ilumina a nossa nova existência. Sobretudo, façam sempre de conta que nunca estiveram lá. E, se tiverem de adormecer, por favor, não sonhem alto. Além de perturbarem os outros, pode muito bem suce­der que esta mesma história lhes esteja acontecendo agora — perceberam?

 

(in Os Melhores Contos e Novelas Portugueses – escolha de Vasco Graça Moura, Selecções do Reader’s Digest)

 

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