O Rato Que Pariu Montanhas – António Victorino d’Almeida

 

 (Adão Cruz)

 

Se passarmos em revista as biografias dos grandes mestres da música, dificilmente encontraremos uma personalidade tão desa­gradável como a de Tchaikovski — o «eterno choramingão», como ele a si próprio se classificava.

 

O facto, porém, é que toda essa imagem lamurienta de uma figura pejada de complexos e aberrações morais não se reflecte, antes se su­blima em golpes de verdadeiro génio na grande música que escreveu.

 

Será todavia urgente esclarecer que não estão de modo algum aqui em causa os problemas íntimos da homossexualidade que nunca assumiu com um mínimo de coragem ou de verticalidade: nesse aspecto, é evidente que ele não constituiu nenhuma raridade…

 

Com efeito, este homem mostrou-se capaz, ao longo de toda a sua vida, de múltiplas perfídias e manifestações de morbidez, que iam desde a ingratidão mais chocante para com aqueles que o protegiam até a vícios inconfessáveis que o levariam a tentati­vas de acesso sexual a alunos menores, nomeadamente, segundo se pensa, aos filhos do czar, a quem dava lições de música…

 

É óbvio que esse sinistro intento terá sido convenientemente abafado e tudo indica que nunca chegou aos ouvidos da cabeça do império russo ou mesmo dos seus ministros e conselheiros…

 

Foi também repelente — e, neste caso, chegou ao conheci­mento público — a sua conduta para com uma infeliz aluna com quem teve a infelicíssima ideia de casar, talvez para salvaguardar aparências, e que mortificou com as cenas mais degradantes, incluindo uma grotesca simulação de suicídio em que se meteu nas águas de um rio até à cintura…

 

Como o tempo na Rússia andasse a dar para o fresco, é óbvio que se terá constipado, obrigando uma vez mais tudo e todos — incluindo a pobre esposa — a cuidar dele, dos seus espirros, lamentos e outras manifestações incomodativas de um vasto reper­tório de choramingao…

 

O começo da sua carreira não foi propriamente fácil, mas aca­bou por encontrar um quase incrível apoio financeiro numa tal Madame de Meck que lhe sustentou os vícios — e também o génio, entenda-se — durante catorze anos!

 

Curiosamente, Tchaikovski sempre se recusou a conhecer pes­soalmente a sua protectora, com a qual apenas se correspondia, pois não se estava em época de chamadas telefónicas…

 

Por um lado, devo dizer que estas senhoras de avassalador entu­siasmo pelas artes podem revelar na sua personalidade muitas vezes metediça determinados «germes alérgicos» capazes de irritar qualquer protegido — e até compreendo que Tchaikovski se tenha sentido ameaçado por alguma espécie de urticária mental ao receber uma carta em que a mecenas, uma vez mais magoada com as grosserias do artista, se propunha perdoar-lhe uma nova afronta desde que ele compusesse uma pequena peça, eventual­mente para piano e executável num salão, subordinada ao tema: admoestação…

 

Admoestado, mas consequentemente perdoado, Tchaikovski poderia continuar, em suma, a ser sustentado pela generosa dama — o que o terá decerto tranquilizado.

 

Mas o que Madame de Meck nunca poderia efectivamente sonhar — ninguém o conseguiria imaginar, há que aceitá-lo’…- é que fosse com base nessa amarotada encomenda, que o com­positor iria a pouco e pouco desenvolvendo, ideia após ideia, aquela que viria a ser uma das obras fundamentais da grande música sinfónica de sempre: a genial Sinfonia n.° 6, também cha­mada «Patética»…

 

Será caso para se dizer que, neste caso verdadeiramente extraor­dinário, o rato pariu uma montanha!

 

Numa carta para um sobrinho, Tchaikovski, escreveu que esta era a sua grande obra e acrescentou que tinha chorado muitas vezes ao compô-la, o que, nas circunstâncias, até se aceita perfei­tamente, tratando-se de uma das obras mais emotivas e também mais pungentes de toda a História da Música.

 

Formado pela escola um tanto conservadora de Anton Rubinstein, reconhece-se — e há mesmo quem tenha criticado… — que Tchaikovski jogou sempre, musicalmente, no seguro, baseando toda a sua técnica musical na garantida tradição dos grandes mes­tres do sinfonismo germânico e virando ostensivamente as costas ao espírito aventureiro, simpaticamente revolucionário, mas um tanto diletante, do grupo de cinco compositores russos formado por Rimski-Korsakov, Moussorgsky, Balakirev, César Cui e Borodine.

 

Por outro lado, do mesmo modo que não quis claramente compreender o modernismo de Wagner, Tchaikovski também ignorou as fontes de novidade estética que brotavam, por exem­plo, da música do seu compatriota Moussorgsky, ou os ideais nacionalistas sugeridos pelo trabalho de Glinka, apontado por muitos como o «pai da música russa»…

 

Contudo, quando a terra poisa sobre os corpos dos adversários irredutíveis e a memória dos seus conflitos se dilui na serenidade da análise histórica, verifica-se que o cerne das suas dissidências era por vezes algo menos relevante do que se terá pensado.

 

E assim, se a inequívoca importância de Tchaikovski na evo­lução e modernização do grande sinfonismo universal não passaria despercebida ao sagaz julgamento de Stravinski, também se conclui que, apesar de toda a assumida influência estrangeira, o compositor nasceu, viveu, morreu na Rússia — e a sua música não pode ser ligada a nenhuma outra cultura que não seja tam­bém a russa.

 

Além disso, torna-se evidente — e mesmo doloroso — verifi­car que a estética de Tchaikovski é também essencialmente arran­cada ao tumulto de conflitos freudeanos que o dominavam, é uma música que pode por vezes roçar as raias da patologia, mas em termos de uma busca de sublimação que transforma a mes­quinhez em grandeza e a cobardia em brado de emoção heróica.

 

Tudo isto nos é revelado por sons e silêncios quando escutamos uma obra de monumental dimensão e qualidade como é a Sinfo­nia «Patética», em relação à qual não posso deixar de recomendar o CD da Deutsche Gramophon, com a referência 439 020-2, em que Herbert von Karajan, à frente da Orquestra Filarmónica de Viena, nos propõe uma versão quase insuperável dessa extraordi­nária partitura.

 

Tchaikovski morreria de uma epidemia de cólera poucos dias depois de ter dirigido a estreia da obra que, para todos os efei­tos, imortalizaria a admoestação de Madame de Meck, valendo bem todos os apoios pecuniários que saíram da abastada conta bancária da mecenas para os bolsos do compositor.

 

Contudo, quando já se encontrava no leito de morte, Tchai­kovski foi contactado por um representante de Madame de Meck. a qual pretendia por este meio inteirar-se do seu estado de saúde — obviamente péssimo…

 

E as últimas palavras que terão sido proferidas pelo músico, tudo indica que alusivas à sua protectora, foram:

 

— Maldita vaca!…

 

Como dizia um conhecido cómico português: «Não havia neces­sidade…»

 

(in António Victorino d’Almeida, Músicas da Minha Vida, Dom Quixote)

 

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