O escândalo Murdoch ou o espectro da crise de subprimes – por Júlio Marques Mota

A História muda de boa vontade os pratos, mesmo que eles sejam de faisão.. Com o escândalo das escutas telefónicas que enlameia o império mediático de Rupert Murdoch, dir-se-ia que o mundo dos negócios está a reviver a crise dita de subprimes entre 2007 e 2009. Reencontram-se aqui as mesmas causas, os mesmos erros, os mesmos protagonistas que nestes mercados trabalhavam aquando do desmoronamento de Lehman Brothers e do Real Bank of Scotland ou ainda de tempos mais recuados, as anteriores falências fraudulentas de Enron, de Worldcom ou de Tyco! A constatação é ainda mais arrasadora quando agora só se fala de boa governança e de transparência, as duas Deusas da moda, as duas Musas da acção em economia. Aos ouvidos de Rupert Murdoch, da sua família, dos seus homens e das suas mulheres fiéis como vassalos ao seu senhor, trata-se de palavras sem importância.

 

Neste sombrio negócio que ocupa desde há semanas a boca de cena do palco mediático e político do Reino Unido e recentemente dos Estados Unidos, todos os ingredientes – dinheiro, poder, sexo, espionagem – de uma série rocambolesca de Hollywood estão aqui reunidos. Além disso, como muito bem sabe o proprietário de Twentieth Century Fox, o cinema não seria nada sem os seus os segundos papéis e sem os seus figurantes. No caso de Rupert Murdoch, são os seus cúmplices benevolentes que estão na segunda linha: o conselho de administração do conglomerado de News Corporation, os banqueiros e os conselheiros jurídicos, os seus auditores, os seus analistas e os seus reguladores.

 

As falhas destas instituições deixaram as mãos livres ao Citizen Murdoch e à sua família, accionistas principais mas minoritários de um grupo cotado em Bolsa. Como é que os investidores puderam confiar de os olhos fechados num polvo mediático gerido como um feudo pessoal? O gosto do segredo, a não transparência das estruturas, as decisões tomadas confiando-se sobretudo no génio dos operadores, o desprezo claramente mostrado pelos accionistas caracteriza a cultura News Corp. O conselho de administração é composto por veteranos da epopeia de Murdoch, apoiados também em trabalhadores supostamente independentes.

 

 

A presença de um ex-primeiro ministro espanhol, José-Maria Aznar, enquanto que o grupo tem fraca representação no mundo hispânico, ou a presença de Roy Eddington, ex-director de British Airways que tinha dirigido uma pequena companhia de aviação australiana que pertence à News Corp, deveria bem ter-lhes despertado a atenção, deveria ter-lhes claramente soado ao ouvido. E pelas mesmas razões , o nepotismo transformado em sistema simbolizado pelo papel dos seus filhos ao seio do grupo. Os investidores estes apenas viram o fogo. E com razão! Os banqueiros não querem mais do que seja o poder de emprestar dinheiro aquele a quem o seu amigo, o falecido multimilionário James Goldsmith, tinha baptizado com admiração “ O Dom Giovanni do deal “. A sua megalomania e o seu lado impiedoso valem-lhe uma admiração sem limites em lugares bem emblemáticos como a City ou como em Wall Street .

 

Os especialistas em questões de evasão fiscal completamente legal, os escritórios de advogados internacionais e os peritos contabilísticos elevam aos céus este grande pirata do risco que faz com que os seus activos circulem entre uma dezena de paraísos fiscais. Resultado, News Corp paga apenas 20% de impostos nos Estados Unidos em vez dos 35% de lei. Até ao romper do escândalo, os analistas dos meios de comunicação social tinham apenas uma palavra na ponta dos lábios: “Comprem News Corp!” Estes especialistas têm os olhos de pessoas encantadas pelo comportamento das empresas de tecnologias em televisão por satélite, o sucesso de Fox News, pela fantástica rentabilidade “das máquinas de fazer dinheiro” tais como Sunday Times ou News of the World. Estes agentes, cegos pelos lucros de News Corp e pela reputação de Midas do seu chefe que transforma qualquer que toca em ouro, estes peritos não quiseram ver as derivas destes tablóides britânicos, a compra a um preço extraordinariamente elevado da companhia de produção Shine co-fundada pela sua filha, Elizabeth Murdoch, ou até a imaturidade de James Murdoch, o seu pressuposto delfim .

 

Quanto aos auditores Ernst & Young, rubricam as contas ignorando as zonas de sombra desta entidade mutante e impossível de definir : o recurso intensivo às operações fora do balanço ou os envelopes azuis destinados a corromper a Scotland Yard. Último elemento desta saga: a fragilidade dos organismos de supervisão dos meios de comunicação social. “O melhor regulador é um regulador morto ” : esta citação musculada do ultraliberal Murdoch ilustra o seu desdém total por qualquer forma de regulação.

 

Nos Estados Unidos, o controlo pela empresa News Corp das potentes associações profissionais de transmissão por cabo, por satélite, a televisão e o cinema bem como a desenvoltura de um exército de lobbyistes em Washington tudo isto debilitou a Federal Communications Commission , a instituição de tutela do audiovisual. No Reino Unido, a Press Complaints Authority, a autoridade das queixas em matéria de imprensa, um organismo de auto-regulação já desdentado de tão velho que é, é financiada pelos proprietários de jornais. A começar por News Corporation…

 

O processo Murdoch demonstra os graves disfuncionamentos do mundo dos negócios. “Nuncas mais, isto! “, prometeram em coro os dirigentes do G20 bem determinados em tornar rígida a regulação do sector financeiro. Atacar-se à estas lacunas, o estaleiro dos estaleiros, precisa urgentemente de uma vontade política irrevogável. Será necessário efectivamente que tudo isto mude! Marc Roche , Le scandale Murdoch ou le spectre des subprimes, Le Monde, 17.07.2011.

 

 

 

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