O Congresso da Vergonha
A maneira como os Republicanos geriram a sua maioria a Câmara dos Representantes faz do actual Congresso americano o Congresso da vergonha para os Estados Unidos. O plano Boehner passou na Câmara, apesar do facto de 22 Republicanos terem votado em conjunto com os Democratas num voto negativo. A rejeição pelo Senado era previsível.
Entre os dois planos, duas diferenças essenciais: Os Republicanos não querem reduzir as despesas militares ligadas às guerras do Iraque e do Afeganistão (1.200 mil milhões de dólares no plano democrata) e não estão dispostos a dar uma autorização que vá para além da eleição presidencial. Querem custe o que custar fazer desta questão um desafio eleitoral.
Entendamo-nos bem. O défice orçamental é demasiado elevado, mas a recusa de aumentar os impostos dos mais afortunados, de mexer no orçamento exorbitante da defesa, e de manter os privilégios de certas empresas – enquanto que os democratas tinham já começado a mexer em certos benefícios sociais é, na verdade, completamente irresponsável. Para além do mais se a autorização para o aumento da dívida pública não for aprovada, o custo financeiro da dívida pública americana aumentaria, criando um acréscimo de défice orçamental de100 a 200 mil milhões de dólares.
Mas não é este o debate. Não se trata de uma aprovação do orçamento. Foi aprovado no fim de 2010 depois de uma concessão essencial dos Democratas: a manutenção dos benefícios fiscais dos contribuintes mais afortunados. O único abandono dos privilégios da era Bush, diminuiria a prazo a dívida pública americana de 2.000 mil milhões de dólares, de acordo com um estudo publicado por JP Morgan na sexta feira passada.
Trata-se aqui de dar ao Governo a possibilidade “de pagar as suas facturas” como ontem o dizia o Presidente Obama. A hipocrisia é total: vota-se um orçamento e bloqueia-se as autorizações de empréstimo para este orçamento. É irresponsável votar um orçamento e não dar ao Governo os meios do seu financiamento. Esta dupla linguagem é na verdade completamente escandalosa.
Será aqui necessário recordar que nos 14.000 mil milhões de dólares de dívida pública só a guerra no Iraque atinge um montante de 3.000 mil milhões de dólares? Que a guerra no Afeganistão representa mais de 1.000 milhares de milhões?
Assim fazendo, os Estados Unidos arriscam, desta forma, trespassarem-se com sobre o seu próprio sabre e a reacção de Wall Street, por fim, começou a manifestar aos elementos do Congresso que mais ninguém não aceita esta atitude. Uma impasse a 2 de Agosto poderia provocar uma crise mundial das finanças públicas como até agora nunca conhecemos.
Estou convencido que, tanto na Europa como nos Estados Unidos, os nossos dirigentes políticos e os eleitos do povo perderam o seu compasso. Pressionados mais que nunca pelos seus prazos eleitorais e pelas mudanças de humores dadas pelas sondagens, ficaram incapazes de tomar decisões coerentes.
Se o problema vai bem para além dos Estados Unidos, o bloqueio político nos Estados Unidos é dramático. Porque a inquietação, a verdadeira inquietação, é ter-se dado um regresso ao crescimento fraco. Os números corrigidos do crescimento americano no segundo trimestre representam uma baixa de 50% em relação primeiro ao primeiro trimestre. Não temos crescimento económico no Ocidente e continuamos a querer custe o que custar manter um trem de vida dos Estados que está acima dos seus meios. Que Christine Lagarde (como Presidente do FMI) venha criticar agora a ministra Lagarde (como Ministro das Finanças em França) sobre o défice orçamental francês, seria cómico se não fosse dramático.
Aquando num post que publiquei em Novembro de 2010 e que anunciava esta crise, no meio de um cepticismo geral, é-me autorizado concluir que a democracia está verdadeiramente em causa. Mais do que nunca, dos dois lados do Atlântico, é o funcionamento das instituições democráticas que é ameaçado por uma politização em excesso que ignora o bem-estar geral e só procura a sua própria satisfação narcisista e eleitoral.
Mesmo se, finalmente, o problema se resolva, uma parte do prejuízo é já irreversível. Para o resto do mundo (e estou neste momento na Ásia), o simples facto de problemas tão fundamentais se coloquem nos Estados Unidos é uma enorme surpresa, que os levará inegavelmente a serem mais prudentes na sua avaliação do risco títulos da dívida pública americana.
