China – Júlio Marques Mota

 

 

 

A  China assume hoje um papel de relevo, levando assim  a que seja necessário ter  uma visão de relativo conjunto sobre a realidade chinesa e sobre a sua importância na economia global se quisermos compreender o que é a globalização hoje e como são os mecanismos através dos quais esta, a China, é um poderoso agente dos desequilíbrios  mundiais criados. Em textos disponíveis na Internet publicámos um a série de textos  ligando as condições de trabalho e  os suicídios  na France Télécom aos da Foxconn, às condições de vida e de trabalho migrantes, os famosos houkou, em que  a realidade nos voltou a ultrapassar com a repressão sobre os migrantes, desde as condições das cidades eternamente jovens, foi a o papel do trabalho nas sociedades modernas que esteve em análise. E descobrimos que quer com o neoliberalismo de natureza capitalista ou de natureza socialista é de facto o trabalho o grande ausente nos ganhos  da globalização, qualquer que seja o ponto do planeta em que se centre a nossa análise. Já com a série a acabar publicou o jornal Le Monde o artigo abaixo sobre a China. Numa síntese, neste artigo se podem  nele rever  ou reler  todos os artigos  que sobre esta temática  foram  por nós editados. Uma coisa espero: que com estes textos se tenha  destruido a ideia do senhor Director da Faculdade de Economia da Universidade Nova e do senhor Reitor do ISCTE de que a situação da juventude se deve á precariedade das suas opções individuais e não às imposições do sistema neoliberal por eles tão bem defendido. Aos visitantes, aos leitores do  blog A Viagem dos Argonautas prometemos para Setembro ou Outubro revisitar extensivamente este mesmo tema. Para já, boa leitura, boa revisão dos textos e da temática que com prazer para todos organizámos.

Coimbra, 16 de Junho de 2011

Júlio Marques Mota 

 

Patrulha da polícia chinesa anti-motim  nas ruas de Xintang, perto de Guangzhou, na província Guangdong (Sul).REUTERS/Daniel Wallis1

O Partido comunista chinês (PCC) durante muito tempo orgulhava-se da  eficácia do seu modo de governança, pondo como seu exemplo maior a estabilidade que o Partido  deu ao País a qual seria necessária,  num país grande e densamente  povoado, para a  descolagem económica destes trinta últimos anos. Hoje, este consenso começa a romper-se.

As ferramentas sofisticadas da “manutenção da estabilidade” instauradas  pelo Estado-partido não somente têm dificuldade em acalmar as pessoas – as manifestações populares, frequentemente violentas, têm como alvo a polícia e as administrações, enquanto os peticionários  individuais face às injustiças de que se consideram vítimas se suicidam ou organizam atentados de vingança  – mas esta “estabilidade”  é contraproducente, numa sociedade cada vez mais informada, madura e aberta aos debates.

Os sinais de usura  do modelo de governança claramente acumulam-se. Nas regiões de minorias étnicas, a repressão cultural e religiosa faz-se em nome de um arsenal ideológico existente em todos os lados na China. Nas cidades, a corrupção exaspera as pessoas que estão fora do  sistema. A  burguesia emergente aceita muito mal não ser tomada  em conta sobre as questões que a ela se referem .

Quanto aos migrantes dos campos, do mund rural, da China profunda,  os grandes perdedores do milagre económico chinês, começaam a despertar, a tal  ponto que a província Guangdong, o coração da máquina de exportar da China , conheceu já dois motins nestas últimas semanas, um ano depois das greves da  Honda e dos suicídios de trabalhadores de Foxconn.

“Prisões Ilegais ou Escondidas “

Se os migrantes “ não são integrados  na sociedade urbana e não gozam dos direitos que lhes são devidos, os conflitos não vão deixar de continuar a aumentar… Os políticos devem fazer saber enfrentar esta realidade que urge tanto quanto  as novas gerações de trabalhadores migrantes querem permanecer nas cidades “, lê-se num relatório publicado, terça-feira 14 de Junho, pelo Centro de investigação para o desenvolvimento do Conselho de Estado, um think tank  do governo chinês.

As componentes da  “maquinaria de preservação da estabilidade “ foram mesmo,  como tema, como objectivo, a razão de ser de  um grande inquérito no semanário liberal Caijing, a 6 de Junho. A primeira vez que assim se faz. Diversos meios de comunicação social, nestes últimos anos, tinham levantado uma ponta do véu  sobre as aberrações da política de segurança, como as “prisões ilegais “ para os peticionários que continuam a insistir  em  reclamar justiça com as suas petições, junto de Pequim . Ou ainda, numa versão mais suave, “os comentadores da NET “ que se intrometem nas conversações em linha para apelar à calma.

Os tabus quebram-se. É todo uma parte da sociedade chinesa, mas também o partido, que defende  uma abordagem diferente quanto à “manutenção da estabilidade “ e defende igualmente o abandono de uma mentalidade repressiva: “Nos outros países, este tipo de incidentes é considerado como a expressão comum dos interesses [ das pessoas], e estas participam assim nas  suas liberdades. Não se lhes  chama  “incidentes de massa” e não existe nenhum conceito ‘de manutenção da estabilidade’ “, explicava, no início 2011 e numa entrevista à revista Guoji Xianqu Daobao, da agência Xinhua, o politólogo  Wang Yukai, do centro de investigação China Society for Administration Reform . Este preconiza que se deixe de  “diabolizar  os incidentes de massa “ e que se abram para “a ideia de uma manutenção normal da ordem social “.

A MANUTENÇÃO DA ESTABILIDADE

A  “maquinaria de preservação da estabilidade “ descrita  por Caijing é controlada no topo pelo  Comité politico-legal do partido, cujas extensões locais decidem os veredictos nos tribunais, de acordo com a linha política do partido. O sistema foi  reforçado em 1991: a manutenção da estabilidade torna-se uma“tarefa da mais elevada importância “.  A um “grupo de trabalho conduzido pelo topo da hierarquia do Partido   “ – a sua composição continua a ser secreta – é-lhe atribuída  “a autoridade suprema “sobre as questões  de estabilidade. “O organismo  610” – especializado na luta anti-Falun Gong – é criado em 1999.

Ao longo dos anos, o sistema é dotado  de instrumentos mais modernos, de avaliação dos riscos e do  fornecimento de serviços sociais, nomeadamente aos migrantes. Uma rede de comissões e de escritórios encarregados da “manutenção da estabilidade “ é constituída a todos os escalões administrativos.

Só ao  nível do cantão, a região mais pequena ou baixa na escala da  China, há milhares de pessoas que estão implicadas nesta missão e têm um orçamento próprio.  Um sistema de estímulos financeiros  vem assim a recompensar, por exemplo, a ausência “de incidentes de massa “ durante o ano. A intercepção de requerentes, de peticionários, que se dirigem  a Pequim a reclamar justiça, denuncia a revista, conduziu à  criação de um verdadeiro “mercado da manutenção da estabilidade “, de que se  aproveitam os oficiais de ligação das províncias à capital, mas também todas as espécies de “ rentiers, gentes que vivem deste sistema, intermediários ou gangsters “.

“Medo das funções da justiça “

A externalização  da tarefa de repatriamento dos queixosos para o seu lugar de residência feita por  sociedades privadas é outro exemplo: a agência Anyuanding, de que peticionários e advogados denunciaram as práticas violentas e ilegais em 2010, esteve assim sob contrato de 19 governos provinciais.

Primando sobre todo o resto, a “manutenção da estabilidade” fez, de  facto, recuar no tempo a construção do Estado de Direito, no entanto programada no âmbito da abertura económica: “Antes dos anos de 2003 e 2004, o presidente do Tribunal supremo tinha lançado as reformas para consolidar o estatuto dos juízes. Tudo ia no sentido de maior independência da justiça e da sua profissionalização “, explica ao Le Monde He Weifang, professor de Direito da  Universidade de Pequim.

Mas, prossegue, “ a mais  elevada direcção do partido quis reafirmar o seu controlo sobre a justiça. Um retrocesso para os liberais. Com efeito, as autoridades tiveram medo dos profissionais  da justiça “.

Brice Pedroletti, Le modele chinois de contrôle sociale est en crise. Le Monde, 16.06.2011.

 

Leave a Reply