O mundo da infância – III parte. Laguna Verde, por Raúl Iturra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Senhor Engenheiro estava longe de se sentir um homem feliz. Tinham-lhe tirado o barco e o mar, especialmente a sua navegação. Adorava dar a volta ao mundo levando mercadorias no barco que comandava, e trazer de volta produtos exóticos, como crocodilos dissecados, dentes de elefante, peles de tigre, alfombras de Pérsia hoje Iraque -, que repartia entre todos os membros da família. Dar presentes era a sua felicidade, sentia-se mais dentro de família da sua mulher, por outras palavras, sentia-se em família. Com a sua família paterna as relações eram fechadas. Se a família da sua mulher tinha indústrias e propriedades ao longo do país e terras para lavrar pelo único filho varão do seu sogro, Engenheiro Agrícola, a família era grande e os trabalhos e propriedades eram repartidos ente todos, assim como os lucros. A família do Engenheiro era mais fechada. Os bens eram semelhantes, mas com pouca família para tratar de fundos e casas de habitação. Era o que o Engenheiro não gostava: desde muito novo, apesar da quantidade de jornaleiros, ele tinha deveres, um deles era vigiar que os picunche trabalharem ou medir os bens que os caseiros deviam entregar à família, quando a colheita do ano acabava Se a família da mulher repartia a mais-valia entre todos, na casa do Engenheiro todos os cêntimos entravam nos bolsos do pai, nem meia chaucha[1] podia ser usada nem pela mãe nem pelo filho. A Rainha Lucrécia retirava dinheiro da carteira do marido e dava ao filho, quem o gastava como melhor entender. Carlos, o pai, investia todo dinheiro que entrava na aquisição de mais bens. Nem meia chaucha para a família mas muitas para ele, não apenas para adquirir maias riqueza, bem como para o que mais gostava: jogar as cartas, fora póquer ou bacará. Apostava muito alto e sempre ganhava imensas quantias que guardava num envelope especial, usando o dinheiro que ai tinha para jogar outra vez. Mais uma vez, à família nem meio tostão (a chaucha chilena). O filho engenheiro gostava vestir bem, como o seu pai, elegante e perfumado, como eu sempre o vi. Como sempre o lembro. Mas, no dia que se rebelara contra a família e foi estudar a sua profissão e não Direito, acabaram as roupas e os dinheiros extras. Era a vergonha da sua namorada, vê-lo chegar todos os anos da licenciatura com o mesmo fato. Como era novo, o seu corpo crescia, mas a roupa não. Às escondidas, a rainha avó remendava e acrescentava bainhas para o fato pode-se crescer com o corpo. A única diferença, no derradeiro ano dos seus estudos, era que trazia um bracelete preto na manga do eterno fato: o seu pai tinha falecido. Apesar de todo, ele amava ao seu pai e perdoava todas as suas felonias. Ele era calcado do pai, tinha um comportamento indecoroso. Não apenas namorava imenso, bem como parte da servidumbre de casa tinha que fugir dele, como fugiam do seu pai. Quem mais sofria era a Avó Rainha, por ter em casa duas pessoas altamente ante estéticas, de flagrante imoralidade. Ela tinha o seu temperamento de patroa aristocrata e tratava mal as pessoas que não fossem da sua classe, mas muito bem-criada para os outros como ela.

 

 

Como em tudo, é preciso pensar nos tempos e a situação das pessoas dentro da hierarquia social. O engenheiro e o seu pai, tinha todos os direitos que outras pessoas da sua vizinhança não eram capazes de usar. As mulheres abusadas eram chamadas chinas[2]: não tinham nomes, não tinham salário e, as vezes grávidas, tinha que tratar da mesa, das compras, e guardar silêncio, ainda na intimidade. Quer pais, quer filho, engravidaram mulheres a uma idade muito temprana da vida. Pelo menos o Engenheiro já era pai aos dezassete anos. Quem pagou as culpas da gravidez não desejada, foi a mãe: a Rainha Avó tinha as suas ideias. Esta china era uma alemã que tomava conta da casa da cidade em tempos de colheitas no fundo, época em que os patrões não estavam na cidade e, com o seu marido, transferiam-se a casa dos proprietários, grande, de mármores as escadas e mobília importada em pau de rosa e forrada em seda. A casa era de ricos e podia ser roubada mas, o que foi roubado, foi a fidelidade da mulher. O seu marido sabia, mas nada dizia para não perder o sítio de trabalho, bem pago e boa comida. Eram os tempos…reiterados, sempre repetiam-se as manhas eróticas.


[1] Chaucha era a décima parte do peso, o nome da moeda chilena. Havia os cunhado em cobre e os em prata. A moeda corrente do Chile é o Peso chileno. Aqui tem uma página para fazer a conversão de moedas  http://www.mataf.net/pt/conversor-CLP.ht…uma das várias moedas do Chile  

 

 , cunhada en estanho para poupar cobre, a riqueza do Chile. A primeira moeda cunhada no Chile era denominada 1 real. Sendo o real dinheiro de valor alto, foi fraccionado em moedas de menos valor aquisitivo, denominada chaucha, palavra mapudungun que significa batatas pequenas, brotadas muito cedo, antes de colheita começar. Pode aceder a história em http://etimologias.dechile.net/?chaucha Originalmente, a palavra chaucha era usada para designar moedas que pareciam de prata, mas eram de baixa qualidade, feitas em níquel. Hoje em dia é usada en referência a pouco dinheiro, como na frase: não tenho nenhuma chaucha. Originalmente, deriva do mapuche para designar a batata temprana que ficava em rama para ser consumidas a seguir a colheita das outras. Eram uma chaucha!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[2] Por hábito, as classes médias também davam esse ápodo ao marido ou a mulher, excepto a aristocracia que se tratava por si e pelo nome, as vezes por Don e Doña.

 

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