Especulação e produtos básicos, o outro lado da crise – 2- por Júlio Marques Mota

(Continuação)

 

Fundamentais e outros factores que intervêm no aumento dos preços dos produtos básicos

Em meados dos anos 2000 marca-se o início da forte tendência à alta dos preços dos produtos básicos, que foi acompanhada de uma instabilidade crescente das cotações. Desde meados do ano de 2009 , mais particularmente desde o verão de 2010, assiste-se outra vez a um aumento das cotações mundiais destes tipos de produtos. Esta evolução coincide com mudanças essenciais relativas aos fundamentais do mercado dos produtos básicos, particularmente nos países emergentes. O forte crescimento económico, a urbanização em expansão, o alargamento da classe média combinado com a mudança dos hábitos alimentares, mudança na utilização de bens alimentares que são deslocados para a produção de biocarburantes e redução dos ritmos de crescimento da produção e da produtividade agrícolas, todos estes são os factores que exerceram uma pressão para a alta dos preços dos géneros alimentícios.

 

Mas a UNCTAD defende que a financeirização dos mercados de produtos básicos introduziu novas forças que influenciam os preços. Os operadores comportam-se cada vez mais em função das decisões tomadas por outros intervenientes no mercado. Razões muito diversas explicam este “panurgismo intencional”. Este tipo de comportamento é fundamentado por um lado pelas incertezas ligadas à falta de transparência que reina sobre estes mercados e por outro lado , pelo impacto da evolução dos índices bolsistas sobre os preços dos produtos básicos. Pode por conseguinte ser racional para actores do mercado imitarem as tomadas de posição de outros operadores ou simplesmente seguir a tendência ligando as suas decisões a uma interpretação da evolução histórica dos preços.

 

A antecipação pelos mercados financeiros de um relançamento económico mundial parece ter contribuído de maneira desproporcionada para o actual aumento dos preços dos produtos básicos, diz-se no relatório. A forte incidência das colocações financeiras sobre os preços e que foi identificada pela UNCTAD como sendo a nova norma na determinação dos preços sobre estes mercados, pode provocar um endurecimento das políticas monetárias enquanto que a economia regista uma taxa de utilização ainda muito fraca das capacidades industriais a nível mundial. Tem-se podido muito recentemente observar este fenómeno na China, na Índia e na zona euro. O facto de que as autoridades monetárias reagem à pressão dos preços que resultam do aumento das cotações dos produtos alimentares , em vez de reagir aos estrangulamentos da produção industrial, coloca em evidência um dos aspectos do impacto da financeirização sobre a economia real até agora subestimada, nomeadamente no que diz respeito ao envio de maus sinais para uma gestão macroeconómica eficaz.


[1] Em Setembro faremos longos desenvolvimentos sobre este problema. Os mercados atacam onde se pode ganhar dinheiro e seja como for, somam-se valores nominais, mesmo que se destruam vidas, o que aqui é indiferente. Foi assim em 2007-2008, começa a ser assim de novo. . Mas os mercados não reconhecem uma base fundamental da sociedade, o quadro moral com que esta se regula.

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