O socialismo existe ainda? – por Carlos Loures

Nem sempre concordo com o que Vasco Pulido Valente escreve. Com o seu texto do jornal Público de hoje, 6 de Agosto, “Impotência”, estou de acordo e recomendo a leitura. Compara os líderes dos dois partidos do poder, do “bloco central” ou como, em mais uma tonta brasileirada se diz agora, do “centrão”.  «Dois produtos do “incubatório infecto das “juventudes partidárias”» no dizer de Pulido Valente. Se os trocassem ninguém daria por tal. Como é possível que António José Seguro seja o escolhido para dirigir um partido dito “socialista”?

 

Em contrapartida, Passos Coelho, com o vazio que lhe vai na cabeça estampado no rosto e patente no discurso feito de lugares-comuns, foi muito indicado para dirigir um partido que nem o próprio nome soube escolher, que parece não saber o que é social-democracia, e que elevou a tábuas da lei os discursos medíocres que o seu prócere nos deixou. Não critico as opções de um movimento que perpetua a União Nacional salazarista. Não é nada comigo. O socialismo de que o PS se reivindica, esse sim, é connosco.

 

No Partido Socialista há gente de esquerda, há gente capaz de elaborar um discurso político coerente – Eduardo Lourenço, para apenas referir um nome. Sócrates, formado na “jota” laranja, foi uma escolha desastrada. Relativamente a outros secretários-gerais anteriores significou o enveredar pelo tal pragmatismo que está a ser a morte da esquerda. Sampaio, por exemplo, marcou um corte entre o discurso político e a prática partidária. Guterres foi uma solução de compromisso. Sócrates iniciou o corte total – nem discurso, nem prática política têm seja o que for a ver com o socialismo.

 

Ninguém acredita que Mário Soares refunde o partido. Embora diga que não, era isto que ele queria, um PS livre da antiqualha socialista. Pode não o assumir, mas desde a Fonte Luminosa em 1975, foi isto que quis e ajudou a construir. No entanto, o PS merecia ser refundado, pois é evidente que nem o português, nem os demais partidos socialistas entroncam na árvore genealógica que vem das lutas heróicas do século XIX, evidência que é escamoteada pelos partidos actuais, dirigidos por gente «pragmática», ligada a uma lógica burguesa  e aos interesses do grande capital.

 

Gente com mentalidade empresarial, com ambições de fazer carreira, para os quais o partido é uma passagem para lugares de topo no mundo dos negócios. Socialistas, estes partidos? – pura mistificação.

 

 

Leave a Reply