Crise na Europa: a audácia ou então ficar atolado! Por MARTINE AUBRY. Traduzido por Júlio Marques Mota.

 

Crise en Europe : l’audace ou l’enlisement!

Por Martine AUBRY

Liberation

5 de Agosto de 2011

Traduzido por Júlio Mota

 

A situação europeia actual é extremamente preocupante. A Itália e a Espanha estão no meio de uma tormenta de extraordinária e excepcional gravidade. As taxas de juro nestes dois países tornaram-se duas vezes maiores do que as que estão a ser pagas pela França e pela Alemanha. O risco de uma verdadeira crise auto-realizadora, como os mercados financeiros infelizmente se habituaram a desencadear está agora em plena concretização: a desconfiança criada ou ampliada encarece o custo dos empréstimos públicos, o que agrava a situação das finanças públicas e aumenta ainda mais a pressão vivida pelos países ameaçados. Privados do apoio das instituições, estes países não têm outro recurso que não seja o de terem que aplicar políticas fortemente restritivas que ameaçam e acabam por impossibilitar o crescimento, que se torna um factor agravante para as finanças públicas e que com o qual, afinal, se aumenta o risco de crise.

 

Como em cada uma das fases da sua história, a Europa enfrenta a mesma escolha: ou a audácia ou então ficar atolada. O significado do meu empenho e compromisso para com a Europa leva-me hoje a desejar que os responsáveis aceitem ir mais além e impeçam ou acabem com esta especulação. Face à urgência da crise, deve-se e tem-se mesmo que utilizar todos os instrumentos disponíveis. Apelo pela primeira vez ao espírito de responsabilidade do Banco Central Europeu. Guardião do euro, tem que intervir maciçamente no mercado de dívida para evitar a implosão da zona euro. O BCE tem o poder institucional, já o fez para a Irlanda e para Portugal esta semana: deve continuar a fazê-lo mesmo que a uma muito maior escala, para esmagar a especulação que se está a abater sobre a Itália e a Espanha.

 

É então necessário que as decisões da Cimeira de 21 de Julho, aquando do plano resgate da Grécia, sejam estabelecidas imediatamente. O FEEF, Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, deve intervir tão rapidamente quanto possível, concedendo empréstimos directamente aos países em crise, a taxas que reflictam os seus verdadeiros fundamentais e não a percepção auto-deformante dos mercados. Ora, os seus recursos são notoriamente insuficientes. Esta é a razão pela qual os mercados se sentem assim numa posição de força, hoje, para poderem exigir rendimentos exorbitantes. Por conseguinte, é necessário e urgentemente duplicar os recursos de que actualmente se dispõe.

 

Estes meios de curto prazo têm o poder de neutralizar a especulação, mas estes só serão eficazes e de modo duradoiro com a condição de se anunciarem reformas mais profundas. Já disse várias vezes e disse-o novamente na Cimeira de Julho passado, que se deve substituir o actual governo (domínio) dos mercados e das agências de notação por um verdadeiro governo da zona euro, dotado de uma capacidade de empréstimos e de recursos fiscais próprios que lhe permita agir e, em particular, sobre o imposto sobre operações financeiras de 0,05%, que proponho com os meus amigos socialistas e sociais-democratas da Europa. Assim, os mercados financeiros seriam colocados directamente a contribuírem para o financiamento dos desequilíbrios que eles contribuem a criar. O Governo da zona euro também teria a capacidade de emitir euro-obrigações, garantidas em conjunto e solidariamente pelos Estados e compráveis, na emissão, pelo BCE, numa proporção suficiente para ter uma força de ataque eficaz para poder vir rapidamente ajudar um Estado em apuros. Assim, se poderá ser capaz de implementar uma estratégia de crescimento coordenada o único meio para reduzir o desemprego e os défices.

 

A área do euro deve fornecer o espaço de estabilidade e de progresso para o qual foi criada. É preciso que os dirigentes políticos europeus assumam toda a dimensão da crise actual para que este espaço de estabilidade e de progresso assim seja finalmente uma realidade.

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