O Mundo das Crianças – guerras e debates – IV, por Raúl Iturra

(Continuação)

 

A família estava partida: havia os monárquicos e os republicanos. Houve separação de famílias e de centros de reunião. A colónia espanhola de Valparaiso, que tinha formado el Clube espanhol para os senhores se reunir e falarem das suas terras e memórias, dividiu-se em dois, formando el Centro Espanhol. Parte da minha família monárquica e falangista, ficou no clube. Os republicanos, foram ao Centro. Formou-se a Falange Espanhola pelos franquistas do Clube. Ao cair a República e ganhar Franco a chefia do Estado espanhol, a polícia chilena teve que intervir por causa dos tiroteios entre um e outro bando.

 

O Chile tinha solicitado a Pablo Neruda organizar a salvação de espanhóis republicanos para os receber de braços abertos no país, procurar trabalho, asilo e colaboração. Vinham dos campos de concentração, não sabiam para onde ir. Havia dois grupos à espera: os republicanos do Centro Espanhol, e os falangistas do Clube. A mulher do engenheiro presidia, com farda e bandeira da monarquia, ao grupo falangistas que foram ao cais a receber os dois barcos enviados por Neruda com os que todos tinham perdido. O medo era tão grande, após guerra e campo, que nem queriam sair do barco. Fonte: histórias narradas pela família, especialmente pela Chefia da Falange de Primo de Rivera, sendo já a mulher do Engenheiro, mas sem filhos por enquanto, tinham tempo para lutas políticas[1]. Foi no ano de 1939 esta necessidade de resgatar republicanos, que fugiam em massa da sua terra, sem mais levar o que tinham vestido. A França, muito republicana, os acolheu mas eram tanto, que os encerrou num campo de concentração. Foi desse sítio repugnante que Pablo Neruda os resgatou por ordem do Presidente da Republica do Chile, Don Pedro Aguirre Cerda ( Pedro Aguirre Cerda (Pocuro, 6 de Febrero de 1879 — Santiago, 25 de Noviembre de 1941) fué un político, abogado y educador chileno)  Como educador, foi que pensou na quantidade de filhos e filhas espanhóis, que passavam una vida miserável. Pensou em dois factos: o Chile era um país grande e havia trabalho para todos; e no poeta do Chile, Pablo Neruda, sempre perseguido, sempre a fugir, um comunista muito radical, que devia estar, de certeza, na guerra civil espanhola, na frente republicana. No se enganou, ai estava. Comunicou-se com ele e o mandou fretar dois barcos com prisioneiros rumo ao Chile. Atracaram en Valparaíso, em donde os esperava quantidade incrível de pessoas: chilenos partidários, chilenos curiosos, chilenos tristes, chilenos camaradas e correligionários dos partidos de esquerda, e a colónia espanhola completa. A colónia espanhola estava dividida em dois grupos: os monárquicos e falangistas em um grupo ; no outro os republicanos.

Não sabiam em qual confiar. A mulher do engenheiro proferiu um discurso, toda fardada de falange e o seu grupo também, para lhe dizer que no tivessem medo, que a monarquia legal os acolhia em terras estrangeiros, por intermédio deles. Os republicanos nem um segundo demoraram em ir para os republicanos, poucos foram para o outro sítio. O grande amigo desse casal, os Arece, espanhóis como eles, virara-se para dizer; mulher, vás a arder no inferno pelo pecado que cometes em amedrontar a pessoas que já tanto têm sofrido. A mulher do engenheiro ripostou de imediatos: vos ireis ao inferno, por haver derrubado a Sua Majestade, enviado ao exílio, sem saber onde vão viver…

 

Os recatados não sabiam para donde ir. As penúrias da guerra, a fugida para a França Republicana, o campo de concentração que bem sei como são: frio e fome, tendo passado por um deles anos mais tarde, andar vestidos com a única roupa que resgataram, fazia delas pessoas temidas. Estavam a duas bandeiras, republicana e monárquica. O que aconteceu é que mais dos mil resgatados, engrossaram as filas republicanas e foram acolhidos por camaradas. Os monárquicos, apenas arrecadam uma dezena. Grande fiasco, mas, no meu ver, grande triunfo para a esquerda exilada. Neruda e Aguirre Cerda trabalharam imenso para colocar as pessoas em sítios de trabalho e encher as suas casas com os que nada tinham. A guerra de Europa foi mais dura que nos campos de batalha do velho continente Dentro da família, houve os que nunca mais falaram entre eles. Aliás, tinha estalado a guerra mundial e o ditador alemão invadiu o mundo inteiro, com os seus apoiantes Franco e Mussolini.

 

 

O que a mulher do Engenheiro não sabia, eram os princípios que orientavam a Falange e o Franquismo. Não sabia que Falange Espanhola é o partido político de índole Fascista legalmente reconhecido durante a ditadura de Francisco Franco, na Espanha.

 

Fundada por José Antonio Primo de Rivera, em 1933, a Falange aliou-se às forças nacionalistas de Franco durante a Guerra Civil Espanhola (1936 – 9), que depôs o governo republicano de cunho socialista. Franco assumiu o controlo do partido em 1937. O governo democrático instituído após a morte de Franco declarou-a ilegal em 1977, mas ainda está em actividade. Também não sabia do fascismo.

 

A mulher do engenheiro apenas estava interessada em que a República fosse derrubada e a Monarquia restaurada. Costumava dizer que sem Rei não havia Espanha. Ideias retiradas da família que era da Corte da Monarquia Espanhola, pelo lado da mãe e do pai. Na sua inocência, oferecia recitais de guitarra espanhola, recitava no teatro Velarde, que enchia. Eram ela e outras falangistas que actuavam para arrecadar dinheiro para a causa. A República era socialista: para ela e família monárquica eram o demónio, sem reparar que era que era bem ao contrário a República era a salvação do povo que nada tinha. Como eles tinham todo, queriam apenas salvaguardar a tradição, os costumes e os títulos reais. Contava que todos os Sábados havia um sarau monárquico, a mais jovens assistiam com suas mães como chapeiro e vigiar que as solteiras se comportarem bem: a ética era muito rigorosa como as roupas que vestiam. À entrada havia um retrato do Rei, retrato ao qual cumprimentavam com una vénia. Confessa a mulher do engenheiro que, coma República a Governar, o retrato foi substituído pela foto do Presidente da República, ao todo três presidentes.

 

Espanha teve duas Repúblicas a Primeira (1873-1874) e a Segunda (1931-1939),

No total, 7 Presidentes.

A Segunda República Espanhola foi proclamada a 14 de Abril de 1931 na sequência da vitória republicana nas eleições municipais, tendo como primeiro presidente Niceto Alcalá Zamora, 11 de Dezembro de 1931 a 7 de Abril de 1936; Diego Martínez Barrio em função interina, 7 de Abril de 1936 11 de Maio de 1936; Manuel Azaña 11 de Maio de 1936, a 3 de Março de 1939; José Miaja Menant 5 de Março de 1939 27 de Março de 1939. A Segunda República continuou a governar, exilada no México primeiro e a seguir, em Paris, com todas as suas instituições en pleno funcionamento e com reconhecimento internacional, sendo o primeiro o do México. Foram Presidentes: 1939— 1945 Juan Negrín López ;  • 1945—1947 José Giral Pereira;  1947—1947 Rodolfo Llopis Ferrándiz;  • 1947—1951 Álvaro de Albornoz y Liminiana; • 1951—1960 Félix Gordón Ordás;  • (1960—1962 Emilio Herrera Linares;  • 1962—1971 Claudio Sánchez-Albornoz y Menduiña ; 1971—1977 Fernando Valera Aparicio. Legislatura n/d Moeda Peseta; Membro de: Sociedade das Nações ,ONU; diz a Constituição de 1931, art. 5: “A capital da República é fixada em Madrid”.² Constituição de 1931, art. 4: “O castelhano  é o idioma oficial da República”.

 

Era o que a mulher do Engenheiro não sabia, por seguir os hábitos da família  para restituir a Monarquia. Ao ser restituída, quando à morte do Franco, o Príncipe criado baixo a sua tutela foi Rei e visitaram Chile, ela foi a primeira em ver a Rainha. Os tempos tinham mudado. A ditadura tinha acabado, mas tinha deixado uma herança pesada. Tinha encarcerado jovens suspeitos de ter tentado matar ao ditador. Entre eles tinham acusado a dois dos seus netos e a mulher do engenheiro tinha provas que desmentiam esses factos. Preparou um dossier com todos os papéis necessários para provar a inocência dos seus netos, almoçaram juntas, D. Sofia entregou o dossier ao seu secretário, prometeu falar do assunto com o Presidente da República, foi com a já agora avó a visitar os encarcerados, a Rainha ouviu outros casos, sabia a ferocidade da ditadura solucionou também vários outros casos. Dois dias depois, um dos netos da valente avó, estava livre. O outro não podia Salir por existir evidências de complô. A filha, neta e bisneta das Damas de Companhia ficou satisfeita. Para ela, todo estava resolvido. Após ter passado por guerras familiares, ser monárquica e ter descendentes de esquerda, o mundo tinha-se virado do avesso e ela confiava. Confiava que todo continuava igual, nada tinha mudado. Se a ditadura tinha existido, era semelhante a de Espanha que levara a tantas pessoas à morte; se ela almoçava com a Rainha de Espanha, era natural, como a sua mãe, avó e bisavó e assim para trás. Era natural que os pássaros abandonaram o ninho e andaram em luta pela liberdade do país, como tinha sido na sua terra natal. No seu país ninguém confessava qual era o seu bando. Ao visitá-los nos meus 20 anos, foi-me impossível saber quem era de qual bando. Apesar das dicas que iam aparecendo sobre a protecção que durante a guerra tinham recebido dos frades, os seus clientes, do mosteiro Beneditino de Monserrate, visitado por mim por causa dos meus tios e primos médicos, serem os médicos do dito Mosteiro. O mosteiro de Montserrat, localizado na base da montanha de Montserrat, perto de Barcelona, na Catalunha, na Espanha, é um mosteiro beneditino onde se encontra a famosa imagem da Virgem de Montserrat, a padroeira da Catalunha.

 

(Continua)


[1] Falange Espanhola é o partido político de índole Fascista legalmente reconhecido durante a ditadura de Francisco Franco, na Espanha. Franco se apoiava em ela e nos membros do seu  partido.

Fundada por José António Primo de Rivera, em 1933, a Falange aliou-se às forças nacionalistas de Franco durante a Guerra Civil Espanhola (1936 – 9), que depôs o governo republicano de cunho socialista. Franco assumiu o controlo do partido em 1937. O governo democrático instituído após a morte de Franco declarou-a ilegal em 1977, mas ainda está em actividade.

 

 

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