O falecimento do ex-presidente do Brasil, Itamar Franco, por Sílvio Castro


                        Itamar Franco certamente não figura entre os mais populares na já extensa galeria dos ex-presidentes da República brasileira, mas de certo se situa entre aqueles mais expressivos. De sua origem mineira – nasceu em Juiz de Fora, aos 28 de junho de 1930, o ano da revolução que leva Getúlio Vargas ao poder e que dá novos rumos à vida brasileira -, dela sempre traduziu a capacidade de reflexão e a consequente forma comportamental mais próxima ao silêncio que às grandes manifestações de grandiloquência pública. Isso não o impedia que, em determinadas circunstâncias de não-silêncio, se exaltasse nas afirmações dos próprios pontos de vista. Sempre como um autêntico filho das Minas Gerais. 

                        Em 1954 se bacharela  em engenharia civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora. São os anos de formação de uma geração nova, da qual também eu faço parte, herdeira de tantas experiências políticas porque passou o Brasil, pela experiência da participação brasileira na II Gande Guerra Mundial, experiência vivida na infância de cada um de nós, mas que nos deu uma dimensão universalista e ao mesmo tempo mais nos aproximou da na nossa realidade natal.  Uma geração que mais do que qualquer outra anterior vive um sentido político como valor substancial da existência pessoal.

 

  Itamar Franco faz a sua carreira política nas lides de sua terra natal. Inicialmente ligado ao Partido Trabalhista Brasileiro pelo qual ainda muito jovem corre para o cargo de prefeito de Juiz de Fora, sem sucesso, prossegue a carreira seguindo os princípios trabalhistas de empenho social, ainda quando deixa o PTB para fazer parte do grupo que funda o MDB, Movimento Democrático Brasileiro.  No PMDB prossegue suas lutas eleitoraisem Minas Gerais, com insucessos iniciais, mas que logo em seguida se transformam em grandes conquistas.  Depois de ter sido prefeito de sua cidade natal, elege-se senador por Minas Gerais.

 

                       Em 1989 é o candidato vitorioso à vice-presidência do Brasil no pleito histórico, pelas peripécias por que a classe política passa então, que eleva à Presidência da República o também candidato do PRN, Partido da Reconstrução Nacional, Fernando Collor de Melo. Como acontece habitualmente entre o Presidente e o seu Vice, entre Collor e Itamar existia uma visível diferença de caráter: enquanto este sempre assumia uma atitude pública de atenta participação, mas sem jamais levá-la a um comportamente demasiadamente individualista, naquele a exaltação pessoal se apresentou sempre presente, seja nos dados referentes ao simples aspecto físico, seja quanto à tendência a exprimir com grande desembaraço exterior as mais recônditas regras de comportamento da vida pessoal. Foram tais tendências a conduzir Fernando Collor de Melo à demissão para evitar o iminente processo de impeachment definitivo que estava por ser proclamado pelo Congresso Nacional contra o presidente envolvido em diversos escândalos por corrupção,  reinante no seu staff e na sua vida pessoal. Em razão desses escândalos, Itamar já havia assumido provisoriamente a Presidência a 2 de outubro de 1992, quando Collor fora suspenso preventivamente pelo Congresso das suas funções presidenciais. Tal provisoriedade acaba pela demissão do Presidente inquerido, o que leva o seu Vice a assumir definitivamente as funções de Chefe do Estado, de 29 de dezembro de 1992 até o final do mandato presidencial, 1° de janeiro de 1995.

 

                  A presidência Itamar Franco percorre uma estrada extremamente complexa e de difíceis perspectivas. O Brasil então se vê comprometido com uma inflação record que chega ao pico de 1500%. A dívida pública é altíssima, as exportações sofrem fortes abalos e a vida interna assiste ao cenário de uma sociedade civil praticamente desamparada e entregue aos maiores problemas. Juntamente com o ministro das Finanças, Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco afronta a crise econômico-financeira a partir da criação de uma nova moeda, o real. Muito em breve a inflação se atenua, o capital estrangeiro retorna nas suas aplicações no Brasil e o país inaugura um novo ritmo que o levará, com grandes dificuldades e contradições, a lentamente encontrar a linha de um progresso continuado.

 

  Durante o renovador período da presidência Itamar Franco outros eventos de singular significado acontecem nos diversos setores. Entre esses, cumpre recordar o referendum a que respondem os brasileiros sobre a monarquia. Como o 15 de novembro de 1889 acontecera praticamente sem a participação popular, agora essa mesma participação vinha chamada para declarar a própria vontade e opção entre a república e a monarquia. Mais do que nunca a vontade republicana se afirmou, restando aos adeptos da monarquia menos de 5% dos votos referendários.

 

                    Terminado o seu período presidencial, Itamar Franco foi feito embaixador em Portugal (1995-96) e na ONU, à frente da representação brasileira (1996-98). Depois coroou seu grande sonho e foi eleito governador de Minas Gerais pelo PMDB (1999-2003). Deixado este encargo, foi eleito senador pelo seu Estado, cargo que ocupava no momento de sua morte.

 

                        A minha vida pessoal está particularmente ligada ao período presidencial de Itamar Franco. Em 9 de abril de 1994, o Presidente assinou o decreto pelo qual me concedia, por méritos culturais, a Condecoração no Grau de Oficial da Ordem do Rio Branco. No dia 27 de junho do mesmo 1994, numa das dependências oficiais da Universidade de Padova,  presente oVice-Reitor, Prof. Vicenzo Milanesi, em representançao do Reitor, e outras autoridades acadêmicas, o Embaixador José Botafogo Gonçalves, uma das grandes figuras da diplomacia brasileira contemporânea, por muitos anos Embaixador do Brasil junto ao Mercosur, então responsável pelo Consulado Geral de Milão, com jurisdição para o norte Itália, me  conferiu a dita condecoração.  

 

                         Antes desses fatos, no dia 15 de janeiro de 1993 eu recebi, em Veneza, o seguinte telegrama vindo de Brasília:

 

                                   “Receba os meus agradecimentos pela sua mensagem de Boas Festas e os votos de um Ano Novo de intensa renovação de esperanças. Do esforço e da união de todos dependerá o futuro de nossas nações.  Itamar Franco    Presidente da República“.

 

                         O possível subentendido, presente na mensagem presidencial, coincidia com a minha convicção do significado pessoal de uma poli-identidade sentimental quanto à cidadania, expressa no meu poema “Unidade terciária“, do livro de 2003, Gira Mu(o)ndo, que na sua parte I assim canta:

                                                           “1.

   Não me chamo Raimundo

    Raimondo,

    nem Edmundo;

    como certa unidade

    fora de qualquer idade

    por 1 terço

    sou brasileiro,

    português por um outro,

    italiano na comple

    mentaridade.

    Os meus 3 terços me levam

    a fora

    em busca

    do sentimento do mundo. ”

 

                       Assim era, de certa forma, Itamar Franco que, por complicações causadas pela leucemia, falecia em São Paulo, aos 81 anos, no dia 2 de julho de 2011.

                        

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