Zona Euro- a tentação do vazio – Marie de Vergès, Clément Lacombe et Philippe Ricard

(Traduzido e enviado por Júlio Marques Mota) 

 

Um texto, uma viagem no tempo, não a viagem  dos Argonautas, não uma  viagem a sobrevoar um ninho de cucos mas uma viagem feita  ao longo do tempo a sobrevoar  uma Europa em crise que saída não encontra. Incompetência, maldade, conluio entre bancos, mercados e governos, tudo é possível pensar dos nosso dirigentes políticos, tal a dimensão  do  desastre que sobre esta nossa  Europa esta a desabar.

 

Júlio Marques Mota

 

 

 

 

Em Maio de 2010, acreditava-se que a moeda euro estava salva graças ao plano imaginado pelo FMI e por Bruxelas. Não era nada assim. Regresso sobre um ano de negociações, de pequenos rancores e de muito maus cálculos

Foi há catorze meses. Uma eternidade. Em Maio de 2010, o euro estava salvo, acreditava-se nas capitais europeias. A arma atómica concebida a custo pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI): 110 mil milhões de euros para salvar a Grécia da falência e um envelope de 750 mil milhões para impedir, se necessário, o contágio aos outros “ elos fracos “da zona euro. Esquecido foi assim o espectro de uma explosão da moeda única.

Era o tempo onde o ministro das finanças grego Georges Papaconstantinou percorria a Europa ao encontro dos investidores: o seu país, assegurava, poderia recomeçar a contrair empréstimos nos mercados financeiros a partir de 2011.

Salvo que nada se passou como estava previsto. Os chefes de Estado e de governo deviam reunir-se em Bruxelas, quinta-feira 21 de Julho, para uma n-ésima cimeira da última possibilidade. Com, mais uma vez, todos os ministros presentes a terem na cabeça a ameaça do desaparecimento do euro.

Entre estas duas datas, os interesses nacionais, os pequenos rancores e os maus cálculos voltaram brutalmente à luz do dia…

18 de Outubro 2010 – Em Deauville, o fogo nas tábuas

Um homem e uma mulher em cima das tábuas, em Deauville, como no filme de Lelouch… Reunidos na estação balnear para falarem em segurança com o presidente russo Dmitri Medvedev, Nicolas Sarkozy e Angela Merkel isolam-se um momento para atravessarem a dois, as brumas do Outono, num passeio elegante à beira mar. O objectivo: reconciliar o velho casal franco-alemão, fortemente desavindo com a crise grega. Blindada com a cláusula de não assistência financeira inscrita nos tratados, a chanceler alemã tinha estado durante muito tempo renitente a qualquer ajuda aos países da zona euro em dificuldade. Antes de ceder, pela primeira vez, em Maio de 2010 para ajudar a Grécia que estava em muito maus lençóis.

Em Deauville, a senhora Merkel e Sarkozy chegam a um acordo para gravarem na pedra mármore, definitivamente, que era a solidariedade improvisada a favor de Atenas: o mecanismo de ajuda criado na urgência de um fim de semana de Maio de 2010, na sequência apressada e algo confusa do primeiro plano de ajuda à Grécia, que durará certamente para além da sua data inicial de extinção, em 2013; mas, em troca o pacto de estabilidade, que enquadra as políticas orçamentais dos Estados membro da zona euro, será então reforçado. Sobretudo, a chanceler impõe a Sarkozy a ideia “de uma contribuição dos credores privados “se alguma vez um país viesse solicitar a ajuda dos seus parceiros. Uma opção até então afastada, destinada a calmar a opinião pública alemã. O seu raciocínio: “Os que ganham dinheiro a praticarem taxas de juro elevadas devem também suportar os riscos. “Em suma, todos os tipos de fundos, de bancos e de outros investidores institucionais como as companhias de seguros e outras, que emprestam dinheiro aos Estados europeus poderiam no futuro não recuperar a integralidade das suas aplicações.

Um tal “acontecimento de crédito”, na gíria dos mercados financeiros, não teria nada de inédito: a Grécia, por exemplo, não faltou já ela e por cinco vezes desde a sua independência em 1829, ao cumprimento das suas obrigações financeiras, passando metade do seu tempo a reestruturar ou negar o pagamento da sua dívida? Mas na história recente, estas reestruturações continuavam a estar limitadas a países emergentes como a Argentina ou a Rússia… Tratar-se-ia de um precedente inédito na União monetária, doze anos após a sua criação. Que iria fortemente transtornar os mercados, como disso se inquietava Jean-Claude Trichet. Corroído pelo pacto franco-alemão, Presidente do Banco Central Europeu (BCE) chama de lado Sarkozy dez dias antes aquando de um conselho europeu: “Vocês não se dão conta da gravidade da situação!. “E foi secamente repelido pelo presidente francês.

Mas. Trichet tinha razão, tinha exactamente visto bem as coisas: os investidores consideram-se assustados, com medo, desembaraçam-se de todos títulos de dívidas suspeitas e reclamam taxas de juro cada vez mais elevadas para financiar aos Estados mais frágeis… Já vacilante devido ao facto dos seus bancos estarem em situação de grandes dificuldades, a Irlanda é estrangulada. A 21 de Novembro, a Irlanda sente-se obrigada a pedir ajuda. Uma saída fatal pata o governo de Brian Cowen, conservador, que perderá as eleições de Fevereiro de 2011. Símbolo dos anos fartos em que “o Tigre céltico” vivia sobre a bolha imobiliária, é o banco Anglo Irish Bank rebaptizado agora de “Anglo Toxic Bank” pelas gentes da rua. Os trabalhos da sua nova sede majestosa, em pleno coração de Dublin, continuarão a estar parados …

 

 

(Continua)

 

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