A crise: uma possibilidade única para a Europa? por Raoul Salomon, Barclays Capital. Tradução de Júlio Marques Mota

Na  véspera de uma grande cimeira europeia que poderá  salvar o euro, continuam as  interrogações  sobre a implicação do sector privado, sobre a emissão de eurobonds (uma obrigação pública europeia), sobre a existência de uma conspiração de alguns  hedge funds (fundos especulativos).


Toda esta  desordem na zona euro é devida apenas aos ataques cada vez mais violentos dos mercados?


Desde a sua criação, a zona euro está a enfrentar o seu primeiro verdadeiro choque de grande envergadura. Até cerca de 2007, assistiu-se sobretudo a uma convergência das taxas de juro dos diferentes países da zona euro, prova, se necessidade houvesse, da coesão e também da credibilidade desta nova zona de união monetária. Os desvios de taxas de juro tinham desaparecido entre a França e a Alemanha e tinham-se tornado negligenciáveis entre o coração da Europa e os seus  países a Sul, tendo em conta a diferença de assinatura dos Estados (AAA na França e na Alemanha contra A na Grécia à época).


A partir de 2008, com a aceleração da crise financeira, os desvios alargaram-se de novo  para atingir agora níveis recorde. Estes desvios podem parecer teóricos, mas representam para cada contribuinte, nos países que continuam a financiar-se nos mercados, uma carga de dívida suplementar e, por conseguinte, um potencial de procura inferior.


Para os que se recordam do Sistema Europeu Monetário (SME), a vida não foi um longo rio tranquilo. Desde o início dos anos 90, este caminho  foi marcado por crises cambiais   e por desvalorizações. Nesta época, poucos eram os países que tinham feito o esforço de ajustamento, e para alguns dos outros as antecipações de inflação estavam  longe de terem  convergido para os valores do par l franco-alemão. Foi necessário muita cooperação, e sobretudo o objectivo da moeda única, para  que cada país fizesse o esforço necessário e aceitasse coordenar-se com os outros.


 

Desde a crise de 2007-2008, sobretudo assistiu-se a uma enorme cacofonia, cada país toma disposições isoladas sem real concertação com os outros estados membros: há  uns que asseguram a garantia dos depósitos,  outros que decidem realizar  um grande empréstimo enquanto que o seu vizinho proíbe constitucionalmente os défices…


O resgate  da Grécia é um bom exemplo : não se passa um só  dia sem que um membro do governo  de um país da zona euro não lance uma pequena frase que acrescenta um pouco mais de confusão  à confusão já existente.


É a falta de concertação que é punida pelos mercados: cada um levanta  questões sobre a capacidade do seu vizinho em  reembolsar a sua dívida e sobretudo no caso de poder haver um  problema, questiona-se  sobre a capacidade de se ajudarem  mutuamente uns os outros.


Esta crise da dívida é uma formidável oportunidade para a construção europeia. Uma geração de políticos pensou e criou  a união monetária, outra deve pensar e criar a integração orçamental.


Muitos progressos já se  realizaram no sentido de  uma melhor governança da zona euro e de uma melhor solidariedade entre os  Estados. A criação do mecanismo europeu de estabilidade financeira MEEF é um esboço de eurobonds. A única e verdadeira questão é  agora :  “para fazer o quê ? “


Não deveríamos nós  definir juntos um projecto comum: o mais pequeno denominador comum no seio da  zona euro para as  políticas de educação, de redistribuição, de defesa… ?


Se um país quer mais que o mínimo, está livre de para isso se financiar . Os eurobonds sem verdadeiro projecto europeu vão reduzir-se a um complicado   cálculo saído  de negociações difíceis, enquanto que estes deveriam servir, pelo contrário, para financiar esta comunidade de interesses.


A crise da dívida não é ela, afinal, a crise do projecto europeu? Os défices orçamentais e a tendência a aumentar que as taxas de endividamento  existentes antes da crise bancária. O resgate  de certos bancos pelos Estados acelerou o fenómeno, mas as divergências entre os Estados-membros necessitavam de um ajustamento fiscal (a desvalorização sendo agora  impossível).


Esta crise faz-nos tomar violentamente consciência dos verdadeiros desafios: devemos assumir politicamente as consequências da integração económica. Um verdadeiro projecto europeu, com valores comuns, definidos por todos, e os meios para o financiar poriam certamente um termo a  todas as interrogações sobre o futuro da zona euro.


Raoul Salomon, Managing Director em Barclays Capital,La Crise: une chance unique pour l’Europe?, Le Monde,  21.07.11

 

 

Leave a Reply