Na véspera de uma grande cimeira europeia que poderá salvar o euro, continuam as interrogações sobre a implicação do sector privado, sobre a emissão de eurobonds (uma obrigação pública europeia), sobre a existência de uma conspiração de alguns hedge funds (fundos especulativos).
Toda esta desordem na zona euro é devida apenas aos ataques cada vez mais violentos dos mercados?
Desde a sua criação, a zona euro está a enfrentar o seu primeiro verdadeiro choque de grande envergadura. Até cerca de 2007, assistiu-se sobretudo a uma convergência das taxas de juro dos diferentes países da zona euro, prova, se necessidade houvesse, da coesão e também da credibilidade desta nova zona de união monetária. Os desvios de taxas de juro tinham desaparecido entre a França e a Alemanha e tinham-se tornado negligenciáveis entre o coração da Europa e os seus países a Sul, tendo em conta a diferença de assinatura dos Estados (AAA na França e na Alemanha contra A na Grécia à época).
A partir de 2008, com a aceleração da crise financeira, os desvios alargaram-se de novo para atingir agora níveis recorde. Estes desvios podem parecer teóricos, mas representam para cada contribuinte, nos países que continuam a financiar-se nos mercados, uma carga de dívida suplementar e, por conseguinte, um potencial de procura inferior.
Para os que se recordam do Sistema Europeu Monetário (SME), a vida não foi um longo rio tranquilo. Desde o início dos anos 90, este caminho foi marcado por crises cambiais e por desvalorizações. Nesta época, poucos eram os países que tinham feito o esforço de ajustamento, e para alguns dos outros as antecipações de inflação estavam longe de terem convergido para os valores do par l franco-alemão. Foi necessário muita cooperação, e sobretudo o objectivo da moeda única, para que cada país fizesse o esforço necessário e aceitasse coordenar-se com os outros.
Desde a crise de 2007-2008, sobretudo assistiu-se a uma enorme cacofonia, cada país toma disposições isoladas sem real concertação com os outros estados membros: há uns que asseguram a garantia dos depósitos, outros que decidem realizar um grande empréstimo enquanto que o seu vizinho proíbe constitucionalmente os défices…
O resgate da Grécia é um bom exemplo : não se passa um só dia sem que um membro do governo de um país da zona euro não lance uma pequena frase que acrescenta um pouco mais de confusão à confusão já existente.
É a falta de concertação que é punida pelos mercados: cada um levanta questões sobre a capacidade do seu vizinho em reembolsar a sua dívida e sobretudo no caso de poder haver um problema, questiona-se sobre a capacidade de se ajudarem mutuamente uns os outros.
Esta crise da dívida é uma formidável oportunidade para a construção europeia. Uma geração de políticos pensou e criou a união monetária, outra deve pensar e criar a integração orçamental.
Muitos progressos já se realizaram no sentido de uma melhor governança da zona euro e de uma melhor solidariedade entre os Estados. A criação do mecanismo europeu de estabilidade financeira MEEF é um esboço de eurobonds. A única e verdadeira questão é agora : “para fazer o quê ? “
Não deveríamos nós definir juntos um projecto comum: o mais pequeno denominador comum no seio da zona euro para as políticas de educação, de redistribuição, de defesa… ?
Se um país quer mais que o mínimo, está livre de para isso se financiar . Os eurobonds sem verdadeiro projecto europeu vão reduzir-se a um complicado cálculo saído de negociações difíceis, enquanto que estes deveriam servir, pelo contrário, para financiar esta comunidade de interesses.
A crise da dívida não é ela, afinal, a crise do projecto europeu? Os défices orçamentais e a tendência a aumentar que as taxas de endividamento existentes antes da crise bancária. O resgate de certos bancos pelos Estados acelerou o fenómeno, mas as divergências entre os Estados-membros necessitavam de um ajustamento fiscal (a desvalorização sendo agora impossível).
Esta crise faz-nos tomar violentamente consciência dos verdadeiros desafios: devemos assumir politicamente as consequências da integração económica. Um verdadeiro projecto europeu, com valores comuns, definidos por todos, e os meios para o financiar poriam certamente um termo a todas as interrogações sobre o futuro da zona euro.
Raoul Salomon, Managing Director em Barclays Capital,La Crise: une chance unique pour l’Europe?, Le Monde, 21.07.11
