Zona Euro- a tentação do vazio – Marie de Vergès, Clément Lacombe et Philippe Ricard – 4

(Continuação)

 

6 de Maio – Reunião fantasma num castelo luxemburguês

Sempre terá sonhado em ser o piloto da Europa e está desolado ao ver o grande projecto da sua vida derrotado. Nesta sexta-feira, dia 6 de Maio à noite, Jean-Claude Juncker decide tomar as coisas em mão. O Presidente do Eurogrupo, este clube dos ministros das finanças da zona euro, convoca uma reunião altamente secreta para o castelo de Senningen, a alguns quilómetros do Luxemburgo. Os grandes dirigentes dos bancos centrais da Alemanha, França, Espanha, Itália, Grécia e o Presidente do BCE constam no cartão de convite. A ordem de trabalhos é clara: encontrar uma saída para o caso grego que ameaça acabar muito mal. Mais ninguém acredita que o país possa voltar aos mercados no ano próximo. Ora o FMI preveniu: se nenhuma solução for encontrada para 2012, poderia “deixar” os Europeus e cessar de continuar a fornecer liquidez a partir deste Verão. É por isso necessário encontrar um plano de salvamento “A”.

Mas como geralmente, tudo derrapa. O encontro “fantasma” é divulgado pela imprensa. Rumores loucos partindo da Alemanha deixam pensar que se visava examinar “o pedido grego” de uma saída do euro. Desmentidos em Bruxelas, pânico nos mercados. Realmente, a reunião acabou muito mal. O Presidente . Trichet bateu a porta, furioso com o evoluir dos debates. O ministro alemão Wolfgang Schäuble acaba por levantar um tabu explosivo: o de uma reestruturação da dívida grega. Reclama com insistência que os credores privados da Grécia paguem a sua parte do tributo à uma nova ajuda. Questão de moral. Questão política também: os eleitores alemães já estão fartos desta factura que se alonga até ao infinito. A quota da chanceler Angela Merkel também nunca foi tão baixa.

O BCE está em pé de vento. Não quer ouvir falar sequer deste famoso “acontecimento de crédito “. Fazer pagar os bancos corre o risco de desencadear uma vaga de pânico. “Neste momento, somos nós que somos a âncora da Europa. Vemos a “big picture” que os governos não vêem”, lamenta-se em Frankfurt. E para aumentar ainda mais a confusão, a zona euro perde de repente um dos seus principais mediadores, capaz de falar de igual à igual com Sarkozy ou com a senhora Merkel: Domínique Strauss-Kahn, à frente do FMI, cujo destino balança a 14 de Maio, em Nova Iorque. No dia seguinte, devia estar em Berlim para convencer a chanceler a fazer ainda um esforço mais para com Atenas…

Entre Berlim e o BCE, Paris sonha actuar como o mediador. Mas como? Na hora das assembleias gerais do FMI e do Banco Mundial em Washington, em meados de Abril, o secretário americano ao Tesouro, Tim Geithner, criticou fortemente Schäuble e Christine Lagarde sobre a má gestão da crise do euro. Desde ai, os Franceses estão convencidos que uma reestruturação da dívida grega é uma solução perigosa. Mas o Eliseu não quer pôr em perigo a relação franco-alemã sem a qual nada se pode fazer..

Daí a procura do compromisso impossível: uma participação dos credores privados que passaria “quase” despercebida. Desencadeiam-se negociações em todos os sentidos em Paris, em Roma, em Berlim… “Um bazar sem nome”, resume um banqueiro. Mas as agências de notação esfriam rapidamente as esperanças : independentemente do esquema retido, haverá efectivamente “default”.

 

(Continua)

 

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