CECILIA BARTOLI – “SACRIFICIUM” – por Clara Castilho

Cecília Bartoli (1966-) é uma cantora lírica mezzo-soprano italiana e popular intérprete   de óperas e recitais

 (Mozart, Rossini e cantos barrocos). Vi um dia destes o seu dvd SACRIFICIUM em que podem ser ouvidas obras antigamente cantadas pelos “Castrati”, meninos de boa voz que eram castrados a fim de mantê-la intacta. Nos extra do dvd e na a sua página da net (www.ceciliabartolionline.com)  podemos ver o seu lamento, até a sua indignação com este fenómeno. Ela própria aparece desta forma: 

E diz que as árias desse álbum são “provavelmente as mais difíceis que eu já gravei”. Considera inconcebível que, não faz tanto tempo assim, e em plena Europa civilizada, se pudesse aceitar como normal a castração anual de cerca de 4000 jovens, só para que não perdessem suas vozes de soprano quando se tornassem adultos. Foram jovens a quem foi cirurgicamente roubada a sua sexualidade, a sua identidade e equilíbrio emocional, assim como a oportunidade de terem uma vida “normal”. Com o crescimento, os meninos continuavam com uma voz pueril dentro de um corpo de homem e com o crescimento dos pulmões e o aumento das suas caixas toráxicas suas vozes alcançavam níveis inigualáveis. Contudo, a castração gerava alguns problemas como a obesidade e a falta de pêlos.

 

 

Só alguns chegavam a cantores de ópera. No século XVII devido ao alto número de castrati existentes muitos ficavam desempregados e tiveram que apelar para a marginalidade para sobreviver.

 

Há quem considere que os castrati surgiram na Itália devido à proibição de as mulheres cantarem dentro das igrejas. Outros pensam que os responsáveis pelos corais na Espanha no século XVI teriam ficado deslumbrados com as vozes dos eunucos de origem árabe e o Papa Sixtus V teria liberado o uso de meninos castrados nos corais das igrejas da Península Ibérica através de uma Bula Papal.

 

No século XVII a Igreja Católica assumiu a atitude de punir com a morte ou excomunhão os responsáveis por castrações. Mas os meninos que alegavam ter perdido os testículos por coices ou mordidas de animais eram muito bem-vindos no Vaticano. Em 1870 o estado italiano proibiu a castração para fins artísticos.

As técnicas de castração em humanos podem ser lidas no livro “Traite des Eunuques” (1707) do advogado francês Charles d’Ancillon. A operação deveria ser conduzida por um médico porém, em muitas famílias pobres, ficava a cargo da mãe executar o procedimento.

 

O castrato mais famoso foi Farinelli, nascido em Nápoles em 1705 que conseguia  cerca oito notas nunca

 emitidas pelos demais cantores e podia manter qualquer uma delas por um minuto e sustentar até 150 notas em um só fôlego. Foi castrado aos sete anos por sua mãe.

 

A vida deste homem deu origem ao filme “Farinelli, Il Castrato” (1994), onde são executadas várias obras barrocas. Para se chegar perto do que seria a voz de Farinelli foi necessário editar no computador a voz de um soprano com a de um contratenor.

 

 O último castrato da história foi Alessandro Moreschi (1858-1922) que cantou no coral da Capela Sistina e são dele os únicos registros gravados da voz de um castrato.

 

E isto tudo a propósito desta obra de Cecília Bartoli, que recomendo vivamente, se conseguirem abstrair deste facto e só apreciar a sua voz.

 

 

 

 

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