(Continuação)
1) A crise dos países ocidentais, resultado da estratégia mercantilista chinesa
Desde há quase quatro séculos que a história do mundo tem sido a da dominação da Europa e a da sua projecção para além de Atlântico, sobre o mundo e, de um ponto de vista económico, o do mercantilismo, o de uma estratégia de excedentes comerciais.
Na origem, tratava-se de fazer rentrar o ouro num país, dado que o ouro é identificado com a riqueza; a Espanha fê-lo graças à pilhagem, o que levou este país a desenvolver as suas importações, causando a ruína das suas manufacturas nascentes e finalmente o declínio do país; a Inglaterra, como Colbert em França, fez entrar o ouro exportando os bens que fabricava: aí está o segredo do seu sucesso!
Qualquer país à procura da riqueza e de poder, as duas coisas estão ligadas, procura ter as suas trocas externas com excedentes; se este país é grande, pode então, graças à aplicação desta estratégia, ter uma finalidade hegemónica. Foi o caso da Inglaterra, que levou um século e meio para se poder impôr face à França, e que reinou sobre o mundo de 1815 até 1914. Foi também o caso dos Estados Unidos que efectuaram, regularmente, no século XIX e durante a primeira metade do século XX, uma política proteccionista que lhes permitiu conseguir ter excedentes comerciais cada vez maiores; o Japão tentou-o de 1950 até 1989…[1]
A crise de 1929, que só se terminou realmente em 1948 (graças à desvalorização em relação ao dólar das moedas europeias), nasceu do imenso desequilíbrio comercial entre os Estados Unidos, excedentários, e a Europa , deficitária. Aqui marca-se uma transição: a passagem da hegemonia da Grã-Bretanha para a dos Estados Unidos. A crise de hoje é da mesma natureza mas, desta vez , a China de hoje está no papel dos Estados Unidos de ontem e o mundo ocidental está hoje no do papel da Europa de ontem.
Depois de ter sido decepada pelas potências européias, pelos Estados Unidos e pelo Japão, no século XIX e no início do século XX, a China é o teatro de uma guerra civil que se salda pela instauração de um regime comunista. Este sistema totalitário e colectivista vai revelar-se igualmente desastroso, tanto no plano económico como no plano humano, com as dezenas de milhões de vítimas que hoje se sabem. O regresso de Deng Xiao Ping ao poder em 1978 vai marcar um momento decisivo : o fim do colectivismo, o regresso progressivo ao capitalismo mas com a manutenção do sistema totalitário. A repressão impiedosa “da Primavera de Pequim”, em 1989, no decorrer da qual se massacraram na praça de Tiananmen milhares de estudantes que se manifestavam pela instauração da democracia é desse período uma clara ilustração.
Apoiada sobre a manutenção do totalitarismo, a estratégia chinesa será estruturada em redor da economia: abertura comercial, desenvolvimento da produção no âmbito de contratos de subcontratação para firmas estrangeiras, “joint-ventures” que permitem transferências de tecnologias, tudo isto graças à conjunção de salários ridiculamente baixos e de uma taxa de câmbio muito largamente subavaliada. Esta constitui uma arma de combate e resulta de uma manipulação permanente fundada sobre um controlo dos câmbios muito rigoroso e sobre intervenções do banco central da China sobre o mercado cambial.
Esta estratégia muito coerente correspondia e continua a corresponder aos interesses das firmas ocidentais ; estas subcontratam as suas produções às empresas chinesas que não são, por elas mesmas , concorrentes, ao contrário do que foram e continuam a ser as firmas japonesas. Isto conduz à desindustrialização do mundo ocidental bem como aos défices consideráveis que conhecem certos países (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Europa do Sul) e tudo isto sem nenhum obstáculo desde que a China foi admitida na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Assim, de 2003 para 2007, por exemplo, o défice comercial dos Estados Unidos é enorme, de aproximadamente 6% do seu PIB; para compensar este défice muito pesado, o Governo americano, numa perspectiva de curto prazo e considerando sem dúvida que os défices externos não eram preocupantes (juntando-se portanto à ideia dos governos europeus) desenvolvia uma política de estimulo da despesa interna e por conseguinte do endividamento das famílias, fosse como fosse.
Desta forma levou-se a que se endividassem camadas insolventes da população: um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, a crise era inevitável; como o era na Europa, também : certos países que desenvolveram uma dívida excessiva das famílias graças ao sector do imobiliário, alguns outros países que desenvolveram uma dívida excessiva do Estado (Grécia, Portugal, mas também França e a Itália). Esta crise que não é mundial e que diz respeito apenas aos países ocidentais, resulta do desequilíbrio comercial gigante organizado pela política de proteccionismo monetário da China[2] e pela sua aceitação tácita, que até agora tem sido feita pelos governos ocidentais. Excepto a trair os seus povos, estes deveriam fazer face à guerra económica que lhes efectua a China[3].
Num contexto de economias asfixiadas pelos seus respectivos défices externos, que se repercutem de maneira intolerável sobre as suas finanças públicas, estes dirigentes deveriam ter a sabedoria de criar dispositivos de protecção para as suas economias de maneira a rectificar o seu comércio externo, a única via praticável para acabar e de forma douradoira com os seus défices públicos.
(Continua)
[1] Os Estados Unidos tiveram, é necessário recordá-lo, uma prática de protecções aduaneiras; o Japão quanto a ele, até ao fim dos anos 1980, teve uma política de proteccionismo monetário fundado sobre um conjunto de disposições práticas que conduzem que o iene tenha estado subavaliado.
[2] Esta política exprime-se pela manipulação permanente da taxa de câmbio da moeda chinesa que lhe permite manter a sua moeda extremamente sub-avaliada.
[3] A esse respeito, poderá-se consultar utilmente as obras seguintes: 1) Richard BERNSTEIN e Ross H. Munro, “The coming conflict with China”, Alfred A. KNOPF inc. Nova Iorque, 1997; 2) Martin JACQUES, “When China rules the world (the rise of the middle kingdom and the end of the western world) “, Allen Lane, publicada por Penguin Group, Londres, 2009; (30) Antoine Brunet e Jean-Paul GUICHARD, “La visée hégémonique de la Chine, impérialisme económique “, Harmattan, Paris, 2011.
