A crise, a Europa, e o Mediterrâneo . 2 – Jean-Paul Guichard (traduzido e enviado por Júlio Marques Mota)

(Continuação) 

 

1) A crise dos países ocidentais, resultado da estratégia mercantilista chinesa

 

 

Desde há quase quatro séculos  que a história do mundo tem sido  a da dominação da Europa e a da sua projecção para além de Atlântico, sobre o mundo e, de um ponto de vista económico, o do mercantilismo, o de uma estratégia de excedentes comerciais.

 

Na  origem, tratava-se de fazer rentrar  o ouro num país,  dado que o ouro é identificado com a  riqueza; a Espanha fê-lo  graças à pilhagem, o que levou este país a desenvolver as suas importações, causando a ruína das suas manufacturas nascentes e finalmente o declínio do país; a Inglaterra, como Colbert em  França, fez   entrar o ouro exportando os bens que fabricava: aí está  o segredo do seu sucesso!

 

Qualquer país à procura da riqueza e de poder, as duas coisas  estão ligadas, procura  ter as suas trocas externas com  excedentes; se este país é grande, pode então,  graças à aplicação desta estratégia, ter uma finalidade hegemónica. Foi o caso da Inglaterra, que levou  um século e meio  para se poder impôr face à  França, e que reinou sobre o mundo de 1815 até  1914. Foi também o caso dos Estados Unidos que efectuaram, regularmente, no século XIX e durante a primeira metade do século XX, uma política proteccionista que lhes permitiu  conseguir ter  excedentes comerciais cada vez maiores; o Japão tentou-o de 1950 até  1989…[1]

 

A crise de 1929, que só se terminou realmente em 1948 (graças à desvalorização em relação ao dólar das moedas europeias), nasceu do imenso desequilíbrio comercial entre os Estados Unidos, excedentários,   e a Europa , deficitária. Aqui  marca-se  uma transição: a passagem da hegemonia da Grã-Bretanha  para a dos Estados Unidos. A crise de hoje é da mesma natureza mas, desta vez  , a China de hoje está no papel dos Estados Unidos de ontem e o mundo ocidental está hoje no do papel  da Europa de ontem.

 

Depois de ter sido decepada  pelas potências européias, pelos Estados Unidos e pelo Japão,  no século XIX  e no início do século XX, a China é o teatro de uma guerra civil que se salda  pela instauração de um regime comunista. Este sistema totalitário e colectivista vai revelar-se igualmente desastroso, tanto no plano económico  como  no plano humano, com as dezenas de milhões de vítimas que hoje se sabem. O regresso de  Deng Xiao Ping ao poder  em 1978 vai marcar um momento decisivo  : o fim do colectivismo, o regresso progressivo ao capitalismo mas com a manutenção do sistema totalitário. A repressão impiedosa “da  Primavera de Pequim”, em 1989, no decorrer da  qual  se massacraram  na praça de  Tiananmen  milhares de estudantes que se manifestavam pela  instauração da democracia é desse período uma clara  ilustração.

 

Apoiada sobre a manutenção do totalitarismo, a estratégia chinesa será estruturada em redor da economia: abertura comercial, desenvolvimento da produção no âmbito de contratos de subcontratação para firmas estrangeiras, “joint-ventures” que permitem transferências de tecnologias, tudo isto  graças à conjunção de salários ridiculamente baixos e de uma taxa de câmbio muito largamente subavaliada. Esta constitui uma arma de combate e resulta de uma manipulação permanente fundada sobre um controlo dos câmbios muito rigoroso e sobre intervenções do banco central da China sobre o mercado cambial.

 

Esta estratégia muito coerente correspondia e continua a  corresponder aos interesses das firmas ocidentais ; estas subcontratam as suas produções às empresas chinesas que não são, por elas mesmas , concorrentes, ao contrário do que foram e continuam a ser as firmas japonesas. Isto conduz à desindustrialização do mundo ocidental bem como aos défices consideráveis que conhecem certos países (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Europa do Sul) e tudo isto  sem nenhum obstáculo desde que  a China foi admitida na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Assim, de 2003 para 2007,  por exemplo, o défice comercial dos Estados Unidos é enorme, de aproximadamente 6% do seu PIB; para compensar  este défice  muito pesado, o Governo americano, numa perspectiva de  curto prazo  e considerando sem dúvida que os défices externos não eram preocupantes (juntando-se portanto à ideia dos  governos europeus) desenvolvia uma política de estimulo  da despesa interna e por conseguinte do endividamento das famílias, fosse como fosse.

 

Desta forma levou-se  a que se  endividassem   camadas insolventes da população: um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde,  a crise era inevitável; como o era  na Europa, também :  certos países que desenvolveram  uma dívida excessiva das famílias graças ao sector do imobiliário,  alguns outros países que   desenvolveram  uma dívida excessiva do Estado  (Grécia, Portugal, mas  também França e a Itália). Esta crise que não é mundial e que diz respeito  apenas aos países ocidentais, resulta do desequilíbrio comercial gigante organizado pela política de proteccionismo monetário  da China[2]  e pela sua aceitação tácita, que até agora tem sido  feita pelos governos ocidentais. Excepto  a trair os seus povos, estes deveriam fazer  face à guerra  económica que lhes efectua a China[3].

 

Num contexto de economias asfixiadas pelos seus respectivos défices externos, que se repercutem  de maneira intolerável sobre as suas finanças públicas, estes dirigentes  deveriam ter a sabedoria de criar  dispositivos de protecção para as  suas economias de maneira a rectificar o seu comércio externo, a única via praticável para acabar e de forma douradoira com os seus défices públicos.

 

(Continua)


[1] Os Estados Unidos tiveram, é necessário recordá-lo, uma prática de protecções aduaneiras; o Japão quanto a ele, até ao fim dos anos 1980, teve uma política de proteccionismo monetário fundado  sobre um conjunto de disposições práticas que conduzem que o iene tenha estado subavaliado.

 

[2] Esta política exprime-se pela manipulação permanente da taxa de câmbio da moeda chinesa que lhe permite manter a sua moeda extremamente sub-avaliada.

 

[3] A esse respeito, poderá-se consultar utilmente as obras seguintes: 1) Richard BERNSTEIN e Ross H. Munro, “The coming conflict with China”, Alfred A. KNOPF inc. Nova Iorque, 1997; 2) Martin JACQUES, “When China rules the world (the rise of the middle kingdom and the end of the western world) “, Allen Lane, publicada  por Penguin Group, Londres, 2009; (30) Antoine Brunet  e Jean-Paul GUICHARD, “La visée  hégémonique de la  Chine, impérialisme económique “,  Harmattan, Paris, 2011.

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